Hoje é um daqueles dias.

Eu sentia que aconteceria, consegui perceber. Só não consegui evitar. Foi uma noite difícil e, quando acordei, o sol já estava alto. Era mais cedo do que eu imaginava, no entanto, o contentamento foi breve. Algo na minha cabeça teimava em reclamar e mostrar erros, culpas. A angústia dominava e eu permanecia na cama, analisando o que aconteceria se eu não saísse dali.

Por isso, escrevo. Porque disse que voltaria a escrever, quando nem sei mais a senha do blog. Disse que colocaria no papel tudo que me afetasse, quando morro devagar, olhando para o nada; prometi não acumular tarefas para não sentir qualquer pressão, mas não sei por onde começar e acabo fazendo nada.

Escrever sobre isso já é alguma coisa, aparentemente.

[15/01/15]

A bagunça que somos

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Terapia é um negócio muito poderoso. Na última sessão, eu comentei que saio de um liquidificador após cada encontro: todos os bloquinhos de certeza da minha cabeça se misturam aos de incertezas, até que eu não sei mais qual é qual. E tem as pitadas de informação nova, aquela mistura toda que é sair da zona de conforto. Por mais cabeça dura e teimoso que eu seja, ajeitar tudo não significa que cada bloquinho vai voltar pro lugar anterior ou do jeito que era. Esse é o objetivo com a terapia, não?

Além das sessões (prefiro chamar de encontros, acho mais amigável), eu tenho lições de casa. Levar uma resposta na próxima semana, fazer uma tentativa, testar um jeito novo de resolver velhos conflitos. Um dos exercícios foi dar um olá pro Julian de 10 anos atrás e falar “dude, você era mais sussa do que eu, pode me ajudar a me cobrar menos?” Não parece fácil e não é mesmo.

Uma década é muita coisa. Eu posso não ser o David Bowie, mas também tenho minhas conquistas.

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Um dos diversos assuntos que old Julian e eu tratamos foi, óbvio, a transgeneridade. Aos 17, batendo à porta dos 18 e gritando VEM LOGO, MAIORIDADE!, eu não sabia muita coisa além de que o Ensino Médio tinha acabado e a vida começava. Pra maior parte das pessoas que eu conhecia, era uma fase de preparação: estudos, trabalho, achar um par legal, procriar. Com muita atenção, eu ouvia e perguntava (nem sempre em voz alta) se o caixão também estava reservado. Tanto planejamento me parecia mais um livro de regras e, olá, acho que falta a parte em que se vive, né?

Bem, toda a conversa com meu passado foi difícil e não vou reproduzir o conteúdo aqui. Posso resumir da seguinte forma: tinha amigos, uma galera unida com quem eu passava as tardes ouvindo música e bebendo vinho, indo a shows e falando merda sobre a vida adulta. Nas poucas ocasiões em que mencionei que a configuração do meu sistema operacional era meio diferente, a galera se fechava com medo de vírus e me oferecia outro gole de vinho.

Eu desconhecia que a efervescência dentro de mim tinha um nome e vivi vários auto-conflitos até entender que não há nada de errado comigo. E, antes que surja a questão de que por que diabos eu faço terapia, posso adiantar que meu gênero não é a causa. Ou, nas palavras de Alliah/Vic, uma das pessoas que mais amo e admiro no universo:

Porque depois de esfolar o pé nessa estradinha pedregosa sem nem um vendedor de chá gelado no meio do caminho pra aliviar a secura, a gente aprende que não deve explicações a ninguém. A gente aprende que a nossa identidade é só nossa, e a opinião dos outros é completamente irrelevante. A gente aprende a se defender, a se proteger e a contra-atacar quando necessário.

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Dizer que sou uma pessoa trans é importante, assim como é importante lembrar que esse é um dos ingredientes que me compõem. E não é porque sou genderfluid que sou igual a todas as pessoas genderfluid nem elas todas são iguais a mim. Não é assim que funciona. De novo: a vida não é um manual de regras, apesar de todas as normatividades que tentam nos impor com tanta violência.

Uma pessoa trans, binária ou não-binária, tem um monte de características. Incluir não é somente convidar essa pessoa para palestrar sobre transfobia, sobre sua solidão e os preconceitos e violências do cotidiano; é dizer pro colega que ele está sendo escroto com a “piadinha”; é não fazer um monte de pergunta fora de hora pra se mostrar “antenado” (ou descolado, even worse); é convidar pra sua festa de aniversário ou pro cinema; é chamar pra falar sobre filmes, quadrinhos, música, games…

É respeitar.

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Quando digo que somos uma bagunça, não é só porque minha cabeça seria assim explicada no Guia do Mochileiro das Galáxias. Não podemos mais explicar a humanidade como uma espécie racional composta de um amontoado de células. Eu uso óculos, já usei aparelho ortodôntico, minha mãe não tem mais o útero, meu pai usa aparelho auditivo e, convenhamos, se comunicar pela internet é bem fácil do que em pessoa – mesmo sendo ótimo abraçar pessoas e outros terráqueos, adoro abraços! O conceito de “natural” tem mudado (yay!), porque estamos sem limites (vem, meteoro!). Somos uma bagunça tão grande que nos preocupamos em não apertar o botão vermelho, quando não deveríamos tê-lo criado, pra começo de conversa.

Se isso parece muito teoria da conspiração furada, dois avisos: 1) eu adoro teorias da conspiração e 2) uma ciborgue feminista me tatuou (diy free style):

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Dica do Neil Gaiman, melhor anotar.

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A terapia tem me ajudado a falar, a colocar pra fora. O textão acima é a prova – e nem escrevi tudo o que queria! Tá acontecendo, let it go!

Deixo um gif existencialista pra terminar:

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