shoo-shoo

queria te dizer uma coisa menos óbvia
do que:
“eu gosto de quando sua saia gira”
faz um balanço como os cachos do seu cabelo
acho até que nunca te vi de calça comprida

queria dizer que você é linda
linda, linda
o que também é óbvio
e eu queria te dizer algo além disso

dizer o quanto gosto da mistura que é sua voz
raiva com ternura
força com doçura
talvez seja seu sotaque
a companhia dos pássaros que se apaixonam por você
por todos os lugares bonitos onde você passa

eu ainda guardo seus pedaços
uma travessura
os cachos mais curtos, o sorriso tímido
a sua demora em se revelar
(eu sei, agora)
era para me preservar
eu não estava preparado para você
para toda a poesia que há em você

eu queria te mostrar algo bonito
onde não há nada bonito para se ver
não do tipo que te satifaz
eu não soube o que fazer
nada seria suficiente
eu não saberia escolher
ver
a mesma beleza que você

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horizontal

Se você quiser segurar minha mão
Para não temer enquanto caminhamos

Venha, segure

Eu não vou te puxar, eu não vou te empurrar
Eu não vou te forçar a nada
Você só precisa querer caminhar comigo

E o fazer

Não posso te obrigar a pensar como eu penso
A agir na mesma urgência

Posso apenas te convidar, como se fosse uma dança
Se você para, eu vou tropeço
Se você desiste, eu posso cair

Se você me soltar, tudo bem
Eu posso continuar

Repare na minha respiração bagunçada
Eu corri e ralei para estar aqui

Algumas ondas pareciam altas demais para mim
Eu continuei, mesmo assim
Tomei uns caldos, tive medo
Pensei em pegar carona em um barco
O barulho do motor não me deixava dormir

E, se eu caísse, poderia até me matar
A única ajuda que eu poderia ter
-e tive-
foi de quem nadava comigo
e se dispôs a me ensinar

Se você quiser, eu te ensino
Eu não vou te soltar

Só não garanto que possa te carregar

(amor)

Há quem seja
o que tem
o que deseja
o que procura
e que jamais chega

Eu sou o que amo

Não o amor
pacifista
egoísta
expectador

Meu amor é
selvagem
oferecido
ativo

Não o amor
maduro
racional
cru

Meu amor é
inocente
exalado
apaixonado

Sou tudo
e tanto
e partes
de amores criativos

[agosto, 2009]

Passos

Passos espaçados, espaço pequeno

Para muita vontade.

Pedras, buracos, cansaço:
Passamos por obstáculos, observamos paisagens, continuamos.

(Continuemos)

Mesmo onde o chão não parece tão firme.

O final do caminho (será?) está pertinho,

Tão perto que já podemos senti-lo.

(Como sentimos um ao outro)

(abril/2010)

 

acúmulo

pastas cheias de músicas
ouvi, gostei ou não, deixei lá para aproveitar mais uma vez
ou fazer outra tentativa

a mesma coisa com filmes
não estava pronto para aquele documentário e já são, o quê?, uns nove anos de espera

os livros, essas possibilidades mágicas que ajudam a suportar a realidade – ou me explicam mais sobre a vida
são tantos, tantos
nem se eu vivesse para sempre poderia ler todos
as ideias são vivas e ganham forma todos os dias

eu sou um acúmulo
não de tudo o que acumulo
(e o que me interessa é o que pontuei acima; roupas, sapatos, móveis, nada disso me é muito desejável. e não sou melhor do que ninguém pelas minhas preferências)

eu sou um acúmulo de erros
sobrevivo, torto e dolorido
e assim são meus acertos

sou um acúmulo de tentativas, de frustrações, de choro e risos reprimidos

das minhas memórias, nem sempre lúcidas, nem sempre disponíveis

sou um acúmulo das diferentes vontades que tenho, dos planos que já engavetei, do que ainda sonho que possa acontecer e do proveito que tiro do que alcanço e faço de verdade.

sou um acúmulo de palavras que solto da melhor maneira que consigo, porque descobri que é isso que me move
é assim que tento organizar os universos presos dentro da minha cabeça, mesmo que, ao saírem, eles não sejam tão atraentes ou legais quanto imaginei

é assim, com as palavras, que eu abandono o acúmulo

Atenção

Preste atenção:
Não vou me comportar
Não vou me encaixar
Um eu dócil
Vira um eu fácil
de se agarrar
E uma vez em suas garras
[no que me permitem suas amarras]
Coisa simples de se manipular

Atenção, por favor:
Não vou me submeter
Ao seu querer
Ao seu mandar
O que você me aconselha a fazer
É um pedido gentil para eu morrer

Suas regras, eu rejeito
Quem sou não pode ser determinado
Meu corpo é terra livre
Projeto inacabado
Rebelar-se não é defeito
É tomar o que me foi negado
Autoafirmação é meu direito
Violência é querer-me calado

De novo, atenção:
Eu não vou esconder
Meus traços, meus passos,
minha história, minhas vitórias
Minha TRANSformação.
Vou TRANSitar pelo mundo
Vou TRANSgredir seus livros
Deixar TRANSparecer meus anseios
TRANStornar o seu padrão
E TRANSbordar, infinito

Quando você pensar
Que é suficiente
Que minha [r]existência é uma agressão
Eu te direi: Atenção
Escuta!
“Nosso nome é luta”

O que tenho lido

Alguns minutos antes da Virada pra 2016, eu estava montando minha lista de Desafio Literário. Peguei ideias aqui e ali e contei 62 itens. Seria fácil de completar se tantas surpresas não tivessem surgido na minha vida nesses primeiros cinco meses do ano.

best-books-you-were-forced-to-read-in-school

Por falta de tempo e concentração e por ainda sofrer de ressaca pós-Trilogia Millenium, acabei me cercando de contos. Busquei indicações, desenterrei leituras atrasadas, descobri muita gente boa. O legal do conto é que consigo terminar de ler no percurso casa-trabalho-casa e facilita o trabalho de manter o foco.

Nesse sentido, o Wattpad ajuda – e muito! Eu recuperei minha lista de leitura de lá (tava esquecida, tadinha) e encontrei muita coisa bacana. E dá pra ler offline também, que é pra não ter desculpas mesmo.

Quando Fadas Morrem foi minha leitura mais recente. A Daniele levou problemas do nosso mundo para uma realidade com fadas e trabalhou a relação desses seres com os humanos. O conto confirma minha teoria de que a culpa é nossa e sempre será. Achei lindo, muito envolvente.

Um pouco antes, li Mixtapes Vol. I, da Mary. Trata-se de uma breve coletânea de contos inspirados em músicas diversas. Cara, que coisa linda. A Mary tem um jeito incrível de escrever sobre adolescentes, faz a fase parecer bem mais agradável e otimista do que eu me lembro. Tive que ler alguns mais de uma vez, de tão encantado que fiquei.

Falando em encantamento, Alice no Fim do Mundo é o conto que eu passei a recomendar pra todo mundo que conheço. A Soraya escreve de uma maneira tão leve e segura. Não é a primeira vez que cito o conto dela por aqui – e não será a última! Apenas leiam, aproveitem, divirtam-se!

Pausa rápida: repararam que só indiquei mulheres até agora? 🙂

Bem, continuando. Parei de enrolar e comecei a ler a Trasgo, uma revista nacional que publica contos de fantasia e ficção científica. Pirei! Estou lendo em ordem aleatória e (re)descobrindo muita gente boa. Grande parte dos meus momentos criativos dos últimos tempos surgiu após ler a revista – são tantas vozes e estilos inspiradores!

Multiplicidade encontrei também em Neon Azul, do Eric. O livro é construído com várias histórias que dialogam e se entrelaçam. Acaba virando um romance com diferentes protagonistas, depende de que parte você está lendo e em quem vai acreditar. A junção real-fantástico é menor do que em EADB, então recomendo para quem não está sabe por onde começar a ler fantasia.

Pra finalizar as recomendações de contos, indico Inapto, do Pôlo. Já li, reli, re-reli e ninjas cortadores de cebola me acompanharam em todas as vezes. O estilo é direto e a história se desenvolve sem segredos; saber que a ficção denuncia a realidade não faz da segunda um lugar mais agradável. Além de amigo, crítico e membro do Clube de Vegetarianos Fãs de FC (ou seriam Fãs de FC Vegetarianos?), Pôlo está na lista de escritores que me deixam sem palavras.

Por causa da fluidez do gênero, também li poemas. Pra ser preciso, li Poemas Completos de Alberto Caeiro em dois dias. É fascinante! Não é à toa que Fernando Pessoa encontrou em Caeiro seu Mestre.

Comecei a ler três romances, que é pra ver se a ressaca me abandona: Paula (Isabel Allende), Snow Crash (Neal Stephenson) e The Long Way to a Small Angry Planet (Becky Chambers). Ainda estou muito no início, mas acho que agora vai.

O dia

Um dia, eu me olhei no espelho
E procurei
E investiguei

Algo faltava e algo sobrava
Um monte de algos não se encaixava

Então, eu mudei

fecheiosolhosparaageladeiratomeiáguanolugardasrefeiçõesaliseidesdeosdezpinteiasunhassangreiemsegredofizoqueeraesperado

Não foi o suficiente, eu não me esforcei
o bastante

Então, eu me odiei

penseinasplásticasnoerrodedeusescondiabarrigacobriaspernaspeludasnãovouusarblusadealcinhaqueroseroutrapessoa

Um dia, o dia, eu me olhei no espelho
Estava tudo errado e todo, mas era eu

Eu disse: “Eu gosto de mim, foda-se o que vocês dizem”

Descobri meu nome.
Descobri que tenho um nome.

Saí do armário, um, dois, três, dez, quinhentos, saí de vários armários.

Num dia, no dia, já não me importo com o que você vê.
Abracei minha complexidade e minha simplicidade.

O cabelo enrolou, cresceu, foi raspado, cresceu, foi pro ralo.
A barriga tá redonda, tá murcha, tá inchada, tá grande, tá pros lados.
As cicatrizes estão prontas, as estrias são meu mapa astral.
As tatuagens são grandes e pequenas, me fazem um painel.

A voz, o nariz quebrado, o dente trincado, a escoliose.

A mente, o dia.

Um dia, quem sabe.