As leituras de 2016 e os preparativos pra 2017

Óculos sobre livros antigos empilhados e a legenda "as leituras de 2016)

Em 2016, fiz uma lista absurda de leitura. Misturei desafios literários e terminei com um desafio de mais de 70 livros – totalmente influenciado e empolgado com os resultados do ano anterior.

Na preparação do lista, eu não considerei alguns detalhes: lançamentos de pessoas queridas, indicações imperdíveis de quem tem bom gosto (sempre confiro resenhas e avaliações no Momentum Saga e n’O Drone Saltitante) e livros inesperados que me convidam pra uma conversa antes de dormir. Acabei me perdendo aqui, me enrolando ali, e o saldo do ano foi de 80 livros lidos (17.416 páginas).

Pequeno avatar meu segurando uma caneca do Trainspotting, com a legenda "Julian já leu 80 de 108 livros" e uma barra de progresso indicando 74%.

Embora a meta de livros não tenha sido alcançada, em 2016 eu li muito, mas muito mais do que em anos anteriores. Passei a acompanhar novas newsletters, li mais blogs e descobri muita coisa boa no Wattpad. Outras leituras não contabilizadas no Skoob incluem pesquisas, beta reading, apostilas… De qualquer forma, termino o ano satisfeito com a minha bagunça literária e com o lembrete de que metas de leitura, páginas lidas etc. são desafios pessoais. Isso não me torna uma pessoa melhor ou algo do tipo.

Leia mulheres

Algumas (eu disse ALGUMAS) autoras que li em 2016:

  • Anna Schermak – Sentimentos à Flor da Pele
  • Bárbara Morais – A Ameaça Invisível
  • Becky Chambers – The Long Way to a Small Angry Planet
  • Caitlín R. Kiernan – A Menina Submersa
  • Camila Fernandes – Reino das Névoas
  • Cecília Garcia Marcon – Sentimentos à Flor da Pele
  • Dani Costa Russo – Beijos no Chão
  • Domenica Mendes – Sentimentos à Flor da Pele
  • Finisia Fidelli – Páginas do Futuro: Contos Brasileiros de Ficção Científica
  • Germana Viana – Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço (#1 e #2)
  • Isabel Allende – Paula
  • J. K. Rowling – Harry Potter (os 7 livros \o/)
  • Jaqueline Gomes de Jesus – Transfeminismo: Teorias & Práticas
  • Laís Manfrini – Não-Heroína
  • Lygia Fagundes Telles – Os Melhores Contos de Ficção Científica: Fronteiras
  • Margaret Atwood – O Conto da Aia
  • Mary C. Müller – Mixtapes
  • Melissa de Sá – Metrópole: Despertar
  • Octavia E. Butler – Bloodchild
  • Rachel de Queiroz – Páginas do Futuro: Contos Brasileiros de Ficção Científica
  • Soraya Coelho – Canções: A Diáspora das Fadas e Alice no Fim do Mundo
  • Sylvia Plath – A Redoma de Vidro
  • viviane v. – Transfeminismo: Teorias & Práticas

E teve também duas pessoas genderqueer/não-binária: Paul B. Preciado (Manifesto Contrassexual) e Leslie Feinberg (Stone Butch Blues).

Autoras(es) nacionais

Além das mulheres já citadas, li também: André Monsev, Antonio Candido, Eric Novello, Fábio Kabral, Felipe Castilho, Ivan Mizanzuk, Jim Anotsu, Lima Barreto, Lucas Kircher, Marcos Bagno, entre outros.

Procurei ler mais autoras(es) do Brasil e da América Latina, de ficção e não-ficção, pois não vi essa preocupação durante a graduação. Tem muita gente boa escrevendo boas histórias na e da região.

__________

Rapaz de mochila caminha entre corredores de uma biblioteca

Ano novo, livros velhos

Não vou comprar mais livros até ler todos os que tenho. Ok, eu já disse isso antes e não cumpri. E eu não sou um completo descontrolado consumista: compro livros de escritoras que conheço, ajudo projetos literários no Catarse. O que tenho feito agora é me organizar, ou trocar uma lista imensa e aleatória por prioridades.

Livros físicos: Organizei de um jeito bem simples, com etiquetas de duas cores. Uma significa os livros que vou ler primeiro, seja porque curioso ou por estar há muito tempo na estante.

A outra cor marca os livros que eu não tenho pressa/vontade de ler ou que vou reler por não me lembrar mais da história. Essa etiqueta também serve pra eu ter noção do que estou guardando por guardar – talvez seja a hora de colocar os livros para troca ou doação.

Livros digitais: O Kindle é um universo de leitura que nunca serei capaz de zerar. Pra me ajeitar, criei 3 coleções: 1, 1.2 e 2.

Na primeira pasta, tenho apenas 6 livros. Foi um bom tempo de filtro pra chegar a esse número. São os livros que me comprometi a ler primeiro, aconteça o que acontecer. Os livros da repescagem estão na pasta 1.2, e é daí que vou selecionar o que sobe de divisão (quando já tiver lido tudo da pasta 1).

Logicamente, a pasta 2 é a dos livros em espera infinita. São tantos que talvez eu nem tenha tempo de vida pra ler tudo. A separação foi o modo que encontrei para não me gastar tempo só olhando para os livros e pensando “ah, não tenho nada para ler…”.

É isso! Um 2017 de boas leituras pra todo mundo!

Nossa história

Mesa com caneta, relógio, uma xícara e uma colher. Em destaque, um livro de capa vere=melha, com os dizeres "Be brave, Be bold, Be beautiful, Be you" em preto. Um lápis preto sobre o livro.

Quando nos encontramos, as primeiras palavras eram desconhecidas. Mas o texto flui, e precisávamos descobrir como.

Caminhamos – linha por linha – página por página – e nos divertimos. Não sabemos o final. Existe um final?

Às vezes, precisamos de uma vírgula ou outra para evitar um ponto final. Olhamos para trás, procuramos por um trecho da história que não entendemos. Ou por aquela página em branco que pulamos da primeira vez.

Não sabemos o que vem depois. O vilão desmascarado ou o assassino improvável. Um pacote de personagens e situações a serem desvendados. E nós, enquanto escrevemos, criamos nomes, palavras, damos vida aos seres. Fadas e ogros e dragões. Robôs. Uma pessoa humana legal, quem sabe?

Você & eu. Nós temos o poder de escrever nossa(s) história(s).

TAG: 10 perguntas literárias

O louco das TAGs voltou! Vi lá no blog da M.M Drack.

parte superior de vários livros enfileirados

1. Qual a capa mais bonita da sua estante?

Rani e o Sino da Divisão, do Jim Anotsu. É roxa, meio macabra e roxa roxa roxa.

2. Se pudesse trazer 1 personagem para a realidade, qual seria?

Lisbeth Salander, da série Millenium.

3. Se pudesse entrevistar um autor(a), qual seria?
 O Neil Gaiman, eu acho.
4. Um livro que não lerá de novo? Por quê?
Vários que li na graduação. O Romantismo brasileiro, basicamente.
5. Um história confusa?
Cyberstorm, de Matthew Matter. Foi difícil terminar, me arrependo de ter começado.
6. Um casal?
Jenks e Lovey, de The Long Way to a Small Angry Planet (Becky Chambers). Que fofura.
7. Dois vilões. (Pode ser tanto 2 vilões que goste, como 2 vilões que não goste).
A Capeta, de Lizzie Bordello (Germana Viana) e o Mulo, da série Fundação (Isaac Asimov). Eu me diverti muito com ambos.
8. Uma personagem que você mataria (ou tiraria do livro)?
Eu tenho sérios problemas com o Peeta Mellark, de Jogos Vorazes (Suzanne Collins). Ele é chato, grudento, um porre.
9. Se pudesse viver num livro, qual seria?
Neuromancer, do Willian Gibson. Nada muito pior do que nosso cotidiano, eu imagino. O lado otimista escolhe The Long Way to a Small Angry Planet.
10. Qual o seu maior livro e o menor? (Em termos de páginas).
O maior deve ser Musashi, de Eiji Yoshikawa. Morro de vontade de reler, só falta a coragem de encarar 2709 páginas (soma dos dois volumes). O menor é Nós Somos Todos Iguais?, de adolescentes abrigados na Casa das Expedições.

Beijos no Chão

Capa de Beijos no Chão, de Dani Costa Russo

Na história da Cinderela, quando o Príncipe descobre que ela é a dona do sapatinho de cristal, caminhamos para o final feliz. Há um casamento e o tão conhecido “viveram felizes para sempre”, um resumão da suposta harmonia conjugal.Em Beijos no Chão, romance de estreia de Dani Costa Russo, a protagonista não tem nome, mas sua história poderia ser a continuação de Cinderela. Uma jovem estudante de jornalismo é surpreendida pela paixão de um homem rico e solitário. O relacionamento segue sem grandes pretensões por parte dela, até que uma gravidez inesperada leva ao casamento. Mas o conto de fadas não se confirma.

Desde o início do livro, a violência doméstica está explícita. Ou melhor, as violências: agressões físicas, verbais, psicológicas, morais. A protagonista cria rituais para se defender, nem sempre com sucesso. A brutalidade cíclica, marca de relacionamentos abusivos, aprisiona a vítima ao seu carrasco.

A narrativa não segue uma cronologia linear, o que deixa tudo mais perturbador. Alguns episódios de violência chegam a acontecer em público, sem que as testemunhas impeçam. O ditado “em briga de marido e mulher, não se mete a colher”, além dos privilégios na amizade com o agressor, cria cúmplices apáticos. Importante ressaltar que o feminicídio e a violência doméstica são, muitas vezes, diminuídos e disfarçados, como documenta Amelinha Teles em seu livro Breve História do feminismo no Brasil:

“No Brasil, fazia-se crer que somente os homens negros e pobres espancavam as mulheres, devido ao alcoolismo ou à extrema pobreza.”

Eu me incomodei um pouco com a estrutura dos diálogos e pensamentos das personagens. Por mais que o livro retrate uma classe média alta, alguns trechos ficaram pouco naturais ou muito quebrados por verbos declarativos. ou eu sou chato pra caramba pra reparar nesse tipo de coisa

Retângulo roxo com espirais em preto e a pergunta "Por que ler?"

As palavras têm poder, e Beijos no Chão é uma ótima amostra disso. Desde que conheci a Dani, no Clube de Escrita mediado pela Jarid Arraes (outra autora incrível), me encantei pela sua escrita – e pela pessoa alegre e articulada também. Seus textos para a oficina sempre me passaram o sentimento de ler um clássico, e seu livro me causa a mesma sensação. É uma voz literária marcante e agradável.

Embora o tema não seja fácil, a violência na história não é banalizada; tudo é trabalhado com cuidado e respeito. De qualquer forma, é válido avisar que a leitura pode despertar gatilhos (eu mesmo tive mal estar).

Beijos no Chão é uma publicação independente, resultado do esforço coletivo de uma galera muito firmeza que acreditou na Dani e na importância da obra. Leia mulheres para que mais mulheres escrevam e protagonizem histórias.

Mulher ajoelhada arrumando as franjas de um tapete

Site da autora
Página do Facebook
Ligue 180 – Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres

[TAG] Perfil Literário

Vi a TAG lá no Sem Serifa e decidi brincar também 🙂

 Hermione Granger joga um livro sobre a mesa e atinge Harry e Rony.best-books-you-were-forced-to-read-in-school

1. Qual seu estilo de livro favorito?
Vai muito de fase. Pra não me confundir, leio diferentes estilos/gêneros literários de uma vez. Vou dizer que são contos, em especial, de ficção científica e fantasia.

2. Qual sua saga/trilogia favorita?
De cara, Millenium, do Stieg Larsson. Fiquei um bom tempo pra conseguir ler outro romance depois de terminar a trilogia.
Mas posso colocar mais coisa na lista: a Trilogia de Sprawl, do Willian Gibson; a série Fundação, de Isaac Asimov (por ser a primeira série de FC que li); a trilogia de cinco do Guia do Mochileiro das Galáxias, do Douglas Adams; e Harry Potter, da J.K. Rowling que, apesar de eu não ter terminado a série, foi (é) uma das mais importantes na minha formação como leitor.

3. Qual livro você demorou mais para ler?
A Torre, de Richard Martin Stern. Estou “””””lendo””””” esse livro há uns 20 anos, eu acho. Achei na estante de casa quando criança e nunca consegui terminar. Fico interessado, só que perco a atenção e abandono. Ainda está guardado para, quem sabe um dia, eu tomar vergonha na cara e ler.

4. Qual livro você está lendo?
Harry Potter e o Enigma do Príncipe, da J.K. Rowling.

5. Quantos livros você tem na sua estante?
Contei 220. No Kindle (não deixa de ser uma estante), são mais de 500.

giphy (11).gif

6. Qual o livro mais antigo da sua estante?
Vou chutar pelas capas: O Segundo Sexo, da Simone de Beauvoir e dois volumes de Antologia Brasileira de Literatura.

7. Qual o próximo livro que você pretende comprar?
Espelhos, do Eduardo Galeano. Li um trecho e pirei! Estava esgotado e o ebook tá com um preço bem salgado. Quem sabe na Bienal? =)

8. Um livro que fez você mudar o sentido de ver o mundo?
Musashi, de Eiji Yoshikawa. Li os 2 volumes em 2012 e posso afirmar que salvaram minha vida.

9. Qual livro se você pudesse proibiria a leitura dele? (Qual livro você não recomendaria a sua leitura?)
Eu não proíbo a leitura de nada, embora considere muita coisa… prejudicial. Proibir é muito perigoso e não tenho a intenção de ser dono de ninguém.
Agora, um livro que eu não recomendo… Ano passado, li Cyberstom, do Matthew Mather, e fiquei bem desgostoso da vida. Quando me perguntam, eu explico por que não gostei com toda a sinceridade (e são vários motivos). De novo: é uma avaliação negativa, não uma proibição.

10. Qual livro você levaria para uma ilha deserta?
Eu levaria meu Kindle, já teria leitura pra uma década.

É isso ☺ Fico por aqui.

Meus inícios de livros favoritos

Há algum tempo, entendi (e me conformei) que não viverei tempo o suficiente para ler todos os livros que quero. Tenho uma lista de leitura ENORME e crescente: conheço autores, busco indicações, leio que resenhas que atiçam a curiosidade… Resultado: mesmo que nenhum outro livro fosse lançado a partir de hoje, eu ainda teria diversão por um bom tempo (nem mencionei o que releio).

Então, uma das maneiras de filtrar e manter ou não uma leitura é pelo início. Eu começo várias leituras de uma vez e mantenho as que me prendem mais. E não é por acaso: um dos exercícios da Oficina Literária Colaborativa do Eric Novello (assine a newsletter dele aqui, eu recomendo muito) foi escrever um 1º parágrafo que “convence um editor a publicar sua história sem nem ler o resto do livro.

Resolvi brincar um pouco e selecionei 5 inícios de livros que eu adoro:

A Metamorfose – Franz Kafka
“Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama, transformado num gigantesco inseto.”

O Oceano no Fim do Caminho – Neil Gaiman
“Eu estava de terno preto, camisa branca, gravata preta e um par de sapatos pretos, bem engraxados e lustrosos; um traje que normalmente me deixaria desconfortável, como se estivesse fingindo ser adulto. Hoje me confortou, de certa forma. Era a roupa certa para um dia difícil.”

A Menina Submersa – Caitlín R. Kierman
“‘Vou escrever uma história de fantasmas agora’, ela datilografou.
“‘Uma história de fantasmas com uma sereia e um lobo’, datilografou mais uma vez.
Eu também datilografei.”

A Mão Esquerda da Escuridão – Ursula K. Le Guin
“Farei meu relatório como se contasse uma história, pois quando criança aprendi, em meu planeta natal, que a Verdade é uma questão de imaginação.”

Guerra do Velho – John Scalzi
“No meu aniversário de 75 anos, fiz duas coisas: visitei o túmulo da minha esposa, depois entrei para o exército.
“Visitar o túmulo de Kathy foi a menos dramática das duas.”
______

Pra quem se interessar, o extinto, só que não podcast Três Páginas analisa inícios de contos e dá uns toques bacanas.

Raquel, Agatha, Isabel e Paula

Na escola, conheci a Raquel. Não tenho certeza de quando caímos na mesma turma, nem como começamos a conversar. Mas uma coisa é certa: nós sempre gostamos de criar histórias.

Tivemos a tarefa, certa vez, de reescrever a letra de Pelados em Santos, dos Mamonas Assassinas, sem alterar o sentido da história contada. A Raquel e eu não conseguimos terminar o exercício na aula: nossa vontade de fazer algo poético, rimado, bonito só nos deixou chegar à terceira estrofe, até a aula acabar. (se isso for fantasia da minha mente, peço licença)

Algum tempo depois, nós criamos um universo paralelo baseado em Mitologia Grega, muito parecido com um sistema de RPG. Acho que mais uma ou duas pessoas participavam. Funcionava assim: nós conversávamos sobre os problemas locais, combinávamos um ponto de encontro e fechávamos os olhos. Algum tempo depois (já de olhos abertos), debatíamos os feitos no Olimpo, o que deuses e humanos nos disseram e planejávamos o que faríamos quando voltássemos pra . Não durou muito, mas era divertido.

A Raquel me apresentou Agatha Christie. Foi fácil gostar daquelas histórias, acompanhar as investigações do Poirot, me surpreender com as descobertas. Não foi a primeira leitura fora do currículo escolar, mas foi a mais marcante. Depois de conseguir decorar o poema do livro E Não Sobrou Nenhum (O Caso dos Dez Negrinhos), meu objetivo de vida era ler TODOS os livros da Agatha. Eu imaginava que assim seria gasto todo o dinheiro do trabalho na vida adulta.

2016-06-25 21.02.31
Agatha na minha estante

Não aconteceu como eu gostaria. Na verdade, faz é bastante tempo que não leio Agatha Christie, mas as marcas permanecem.

O lance é que a Dama do Mistério foi a primeira mulher que li. A memória é falha e posso estar bem (BEM) enganado. Porém, foi uma experiência muito importante na minha vida. E eu não tinha noção de que aquelas leituras eram uma transgressão. Na graduação (Letras), a fixação por clássicos é absurda e excludente. Se muito, Clarice, Cecília, Inês e Florbela foram mencionadas. Eu não estou exagerando: mencionadas. Inês Pedrosa foi tema de um trabalho meu e fim. Clássicos. Mais do mesmo.

(respira, respira. deixa a revolta para outro dia)

Passei uma semana acompanhado pelos 4 livros iniciais da série Harry Potter, da J. K. Rowling. Eu me encantei pela história, afinal, tinha a mesma idade de Harry no 1º livro e, olá, professores!, toda aquela magia fazia sentido pra mim.

Eu passava um tempo considerável na biblioteca da escola. Eram períodos flutuantes, mas necessários. Era prazeroso, apesar do absurdo de ter tão poucos livros da Agatha Christie. Tive que procurar novas leituras e novas autoras.

Eu continuava sem a noção do que significa ler uma mulher. Escolhia os livros que me atraiam pela capa ou que estavam perto de leituras anteriores. Mesmo assim, a mão contestadora tremia. E foi quando descobri Isabel Allende.

A Casa dos Espíritos está aqui na minha estante porque eu esqueci de devolver o empréstimo feito quase vinte anos atrás, resistindo às mudanças de casa e às doações. Eu não me lembro bem da história e, mesmo assim, nunca me desfiz do livro – tá na lista pra reler, inclusive. Algo nele me atrai…

Dois meses, eu tropecei e caí num sebo. Entrei daquele jeito que pessoas que caem em sebos têm, aquela procura por nada específico, apenas uma olhada sem compromisso, a troca de energia e o ataque de rinite… E, encolhidinho numa prateleira, estava Paula, também da Isabel Allende.

2016-06-25 22.20.05

Eu precisava de uma leitura que me prendesse. Tinha terminado a trilogia Millenium e nada mais me atraia, porque eu procurava pela Lisbeth Salander em cada página. Então, aquele livro apareceu na hora certa: uma biografia (adoro biografias!), um documento sobre a América Latina (minha atual curiosidade fixa), uma autora que eu precisava reconhecer.

Paula é filha da Isabel. Ela adoeceu e passou quase um ano em coma. Nesse período, Isabel escreve uma longa carta biográfica para que a filha possa se lembrar de sua família e de sua história com mais facilidade quando acordar. É um livro pesado, aflito, mas cheio de amor e força.

Curiosamente, o exemplar que comprei estava autografado. Só vi quando cheguei em casa e – vejam só – estava dedicado a uma mulher, Wania.

Para que mais mulheres sejam lidas, basta que leiamos mais mulheres. Reparem no que está nas suas estantes, nas suas referências. Será que você “pula” um livro quando vê o nome dA autorA? Você acha que mulher escreve para nicho? Você diz que Jogos Vorazes é coisa de menininha (pra ficar em um só exemplo)?

Leia mulheres.

.*.*.*.*.*.

Nesse ano já li mais mulheres do que homens
CabulosoCast 142: Mulher e Literatura
Leia Mulheres
AntiCast 211: As Mulheres Estão Destruindo a Ficção Científica
Capitolina

Sobre o espaço que você deixou na minha estante

Fazia um tempo que os olhares eram tortos. De certo modo, pensávamos que seria mais fácil ignorar o que estava tão nítido.

Dentre todas as opções, você era a última.

Ficávamos naquele limbo, as palavras engasgando. Você não se movia, eu tirava a minha mão.

Logo, as cores se misturaram e mudaram, até você virar aquele pontinho espremido que pede por ar.

Saí, andei. Lembrei de você. Resolvi que era a hora de conversarmos. Quase não suportei sua recepção, o bolor dos sentimentos guardados. A nossa história envelheceu, são páginas amarelas.

Peguei a caixa e levei para fora. Você estava dentro dela, você e mais alguns outros. Doei, e não doeu tanto quanto eu pensava.

Alguém te lê agora.

Um amor chamado Lisbeth Salander

Eu já tinha ouvido falar em “Os homens que não amavam as mulheres”, mas não me movi pra assistir ou ler. Pensava que seria um filme cabeça demais pra mim – julgamento baseado em absolutamente nada, ou seja, era uma desculpinha. Até que, meses atrás, eu ouvi um podcast sobre o livro/autor e fui convencido a conhecer a obra.

Comecei com o filme do David Fincher, sem pretensões, e concluí que não deveria ter demorado tanto. Ganhei um novo amor pra minha vida e seu nome é Lisbeth Salander.

tumblr_nupnyev2WU1rzpyc0o1_500
Rooney Mara

Acabei de terminar o 3º livro e estou na pior ressaca literária da minha vida, justamente porque a série Millenium foi uma das melhores experiências.

Daqui pra frente, tem spoiler e muito amor.

Eu não vou resenhar os livros ou explicá-los. Uma pesquisada rápida no google não mata ninguém e pode trazer análises menos passionais do que a minha. Minha única dica é: leia. Se você não curte ler, veja os filmes. Dica de migue 🙂

Lisbeth poderia ser a sua amiga ~~estranha~~ que faz brotar perguntas durante o jantar. Isso se ela quiser ser sua amiga. Isso se você entender que ela é sua amiga, mas vai sumir por uns tempos. Ela não deixou de gostar de você porque passou dois anos sem dar notícias. As convenções sociais não se aplicam aqui.

tumblr_o01ffjIiJI1v16q98o2_500
Noomi Rapace

As pessoas falharam com Lisbeth. Seu pai agredia sua mãe e sempre era acobertado pela polícia secreta. Apesar das tentativas de denunciar o abuso, Lisbeth nunca recebeu atenção das autoridades e precisou agir por conta própria para se livrar do agressor. Acabou silenciada: um falso diagnóstico de esquizofrenia, internação compulsória, abusos sexuais, tutela e restrições.

Para sobreviver e resistir, Lisbeth teve que deixar de existir. Ela é pequena, magricela e aparenta uma fragilidade contrastante com os vários piercings e tatuagens que carrega como parte de sua história. Seu visual e sua personalidade afasta as pessoas num primeiro momento; quem se permite conhecer e entender Lisbeth descobre uma mulher incrível e muito forte.

É como Wasp que Lisbeth realmente vive. Seu nick, sua futura empresa. Wasp é respeitada entre hackers e é o maior segredo de Lisbeth. É sua existência paralela, sua voz, sua arma e sua própria justiça. E quem poderia acusá-la de fazer algo ilegal, quando toda a sua história era baseada em mentiras e descaso? E, principalmente, quando seus serviços eram utilizados por uma grande empresa de segurança e sempre elogiados?

Lisbeth é feminista. Isso é um fato. Nos livros, fica explícito que ela está disposta a ajudar outras mulheres, mesmo que seja totalmente indiferente a elas. Ela não é uma heroína que tenta salvar o mundo em termos gerais. Seu objetivo é destruir quem os meios tradicionais evitam enfrentar.

“Ela odeia os homens que odeiam as mulheres”

Por mais simples que pareça essa ideia, é aí que reside a força de Lisbeth. Ela tem uma noção de moral única e não se desvia dela. O mundo é cheio de regras e teorias e padrões; Lisbeth é fechada em si mesma, não fala com autoridades, não faz questão de ser legal (em todos os sentidos) e é mais verdadeira do que quem posa de gente boa.

Por que ler?

tumblr_nz5mylsO0x1v16q98o3_500

Eu só li a trilogia e estou terrivelmente viciado. Tentei começar outros livros (inclusive uma elogiada continuação), mas não dá. O estilo de escrita e as personagens de Larsson me pegaram mesmo!

A prosa de Larsson é quase um dossiê. Ele descreve as roupas que as personagens usam, cada rua por onde passam e registra a data de cada etapa da história. Por incrível que pareça, os livros não são cansativos e a trama flui muito bem  – a parte difícil parar de ler. Cada personagem, inclusive as secundárias, é bem descrita e tem uma história (é assim na vida ~real~, não?). Tudo muito detalhado para explicar que ninguém se envolveu por acaso.

Tem ação pra quem gosta de ação, tem investigação pra quem gosta de investigação. Tem de tudo, até coração partido. E tem Lisbeth, uma das mais críveis personagens femininas que já conheci. Ela consegue ser forte, durona mesmo, sem cair em estereótipos. E mesmo que seus métodos sejam questionáveis para alguns, ela não é uma anti-heroína. Ela é única na ficção.

(((Cadê uma série sobre a vida dela, Netflix?)))

tumblr_o0h6dsiMsB1uf20vno1_250

.*.*.*.*.*.

Antes e Depois de Lisbeth Salander
Por que amamos tanto Lisbeth Salander

Viajantes no Tempo

ID-10082056

Li sobre o passado. Conheci o mundo antes de nascer.

Também li sobre o futuro. Como serão as naves, os governos, as consciências coletivas e as transferências para outros corpos.

Sei de tudo isso porque viajantes do tempo existem.

São essas pessoas esquisitas, que se cercam de papéis, canetas e ideias. Podem ser caladas, reservadas; é mais fácil lidar com os personagens em folhas amareladas pelo tempo do que com seres humanos de carne e osso. Outras são mais soltas, mais comunicativas – cuidado, você pode terminar num livro delas.

Gosto de saber o que acontecia por aqui, nesse pequeno mundo azul, antes da minha era. A linguagem e as opiniões mudaram muito (ainda bem). Teve até quem escreveu, ainda em épocas distantes, sobre o presente. Uma pena estarem tão enganadas, essas pessoas. Nós fracassamos como espécie e despejamos nosso ressentimento sobre todo o planeta.

Houve – ainda há – quem escreva a respeito do amanhã. Vamos desde otimistas viagens interplanetárias para que a humanidade colonize e leve sabedoria (sic) ao resto do universo, a um triste destino em que ficamos por aqui e lutamos pelo que sobrou de água e alimentos. Ou ainda, aliens generosos se compadecem de nosso sofrimento e acabam com tudo. Do jeito que as coisas estão, explodir a Terra para construir um desvio não parece algo ruim.

relogio

Bem, mas a questão é que as palavras ficam. Lemos o que foi o escrito, o que foi imaginado, e podemos conhecer muito sobre quem escreveu. Seus sonhos, seus amores, esperanças, ideias mirabolantes. Mesmo num universo absurdo, fantástico, podemos conhecer as jornadas e as expectativas de quem inventava histórias para curar a realidade. E o passado ainda está aqui. Ainda estará amanhã.

Hoje, posso falar com essas pessoas. Posso elogiar e agradecer pelo seu trabalho, posso dizer o quanto suas palavras são importantes e inspiradoras. Posso deixar uma resenha para incentivar outros possíveis leitores e registrar meu respeito.

Mais simples ainda, posso mandar um e-mail, um tuíte, um olá virtual. Com sorte, abraçá-las e transmitir meu carinho diretamente. Qualquer que seja a forma escolhida, faço o que não posso com os viajantes que vieram se comunicar e já se foram. Quem sabe, os que estão aqui, agora, levem boas lembranças do nosso tempo.

Além de nos alegrar, as histórias ficarão gravadas para que viajantes futuros tenham um guia, saibam que suas ideias são válidas e que sua missão deve ser cumprida.