Nossa história

Mesa com caneta, relógio, uma xícara e uma colher. Em destaque, um livro de capa vere=melha, com os dizeres "Be brave, Be bold, Be beautiful, Be you" em preto. Um lápis preto sobre o livro.

Quando nos encontramos, as primeiras palavras eram desconhecidas. Mas o texto flui, e precisávamos descobrir como.

Caminhamos – linha por linha – página por página – e nos divertimos. Não sabemos o final. Existe um final?

Às vezes, precisamos de uma vírgula ou outra para evitar um ponto final. Olhamos para trás, procuramos por um trecho da história que não entendemos. Ou por aquela página em branco que pulamos da primeira vez.

Não sabemos o que vem depois. O vilão desmascarado ou o assassino improvável. Um pacote de personagens e situações a serem desvendados. E nós, enquanto escrevemos, criamos nomes, palavras, damos vida aos seres. Fadas e ogros e dragões. Robôs. Uma pessoa humana legal, quem sabe?

Você & eu. Nós temos o poder de escrever nossa(s) história(s).

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Hoje é um daqueles dias.

Eu sentia que aconteceria, consegui perceber. Só não consegui evitar. Foi uma noite difícil e, quando acordei, o sol já estava alto. Era mais cedo do que eu imaginava, no entanto, o contentamento foi breve. Algo na minha cabeça teimava em reclamar e mostrar erros, culpas. A angústia dominava e eu permanecia na cama, analisando o que aconteceria se eu não saísse dali.

Por isso, escrevo. Porque disse que voltaria a escrever, quando nem sei mais a senha do blog. Disse que colocaria no papel tudo que me afetasse, quando morro devagar, olhando para o nada; prometi não acumular tarefas para não sentir qualquer pressão, mas não sei por onde começar e acabo fazendo nada.

Escrever sobre isso já é alguma coisa, aparentemente.

[15/01/15]

Falar antes de gritar

Eu tateava o quarto escuro à procura da minha voz. Por vezes, minha mão esbarrava em chaves falsas e pesados potes vazios. Nada. Devo ter me cortado numa porção de momentos, sem chegar a sangrar.

Aos poucos, meus olhos se acostumaram e pude distinguir umas sombras. Vi as paredes e as janelas, mas não encontrei nenhuma porta. Uns fiapos de lua escapavam, provocando danças macabras com minha rotina. Nada que pudesse me ajudar a reconhecer os rostos nas fotografias que escrevi.

Rastejei para fora da cama, os joelhos preguiçosos demais para me sustentarem. Eu sabia que de nada adiantaria o pânico, já que gritar era impossível. Eu precisava encontrar minha voz. E ela estava perdida ali.

Em certa altura, pensei em um bom lugar para se guardar a voz. Não como uma lembrança, mais para a imaginação. Se eu não via o quarto com nitidez, poderia recriá-lo em minha cabeça até conhecer o melhor esconderijo.

Esconderijo! É isso.

O quarto estava escuro porque minha voz estava escondida, não só perdida. Continuei rastejando e dando cabeçadas em tudo o que bloqueava meu caminho sem que eu pudesse desviar. Estava, em especial, sem a certeza do acontecido: quem escondeu minha voz? Fui eu? Foi alguém com interesses em me calar? A própria voz teria entrado numa brincadeira de pique-esconde sem saber a saída?

Minhas mãos descobriram puxadores e eu abri gavetas. Algumas escaparam e me empurraram para trás; outras, emperradas, não cederam além da metade. Foi ali que me enfiei.

Senti coisas tão antigas, que se desfizeram instantaneamente. Outras eram pesadas, estavam trancadas e eu me arrependi de ter deixado as chaves do lado de fora. Precisei segurar a respiração para não me afogar no mofo e na poeira. Assim que as luzes se acendessem, eu faria uma faxina no lugar.

Devo ter procurado por muito tempo. Sequer percebi que já engatinhava e que sol ia alto. Demorei mais para tirar a noite dos olhos do que do quarto.

Há luz, há voz, pensei. Tentei falar, sem ainda emitir qualquer som. Escorei o corpo confuso e pousei as mãos cansadas no colo. Correu, morreu, fugiu, foi roubada. De certo, foi esmagada sob a velharia de medo e remorsos que acumulei ao longo dos anos e pifou.

Foi quando percebi um movimento no espelho. Era eu, mas não me reconheci. Acenei, mas não me vi.

O quarto parecia arrumado e eu conversava com meu reflexo, os dois lados confiantes. Estava ali o tempo todo.

Mas o que você tanto escreve?

Uns meses atrás, minha mãe me perguntou isso. Ela me visitou e me convidou para sair (a.k.a visitar parentes), mas eu recusei porque tinha um texto pra terminar.

Por sorte (?), ela não esperou a resposta e já emendou outro assunto. A verdade é que eu não tinha resposta. Eu poderia dizer que era uma história sobre naves espaciais ou viagem no tempo, que tinha umas resenhas atrasadas e que, às vezes, surgia uma súbita inspiração para poesia e eu me deixava levar.

Mesmo assim, eu sei que a pergunta da minha mãe estava errada. Não é bem o que escrevo que a deixa curiosa, mas o porquê.

Eu não ganho dinheiro com a escrita. Eu não sou conhecido, não sou especialista em nada, não tenho nada publicado. Escrevia zines de não-ficção e distribuía entre pessoas que conhecia. E só.

Cheguei a comentar aqui como comecei a escrever. Basicamente, eu anoto tudo o que posso, como se o papel (o físico e o digital) fossem a minha Penseira. Às vezes crio histórias boas; mais vezes ainda, crio histórias ruins. Participo de oficinas de escrita (comecei com a da Jarid Arraes, que era presencial, e agora estou concluindo a do Eric Novello). Nas oficinas (mesmo a do Eric, toda online) conheço pessoas, interajo, leio textos inspiradores.

Gif de uma Penseira refletindo o rosto de Harry Potter

Acontece também de eu escrever a respeito de algo: pode ser uma resenha ou uma coisa mais aleatória, como isso aqui. E posso ficar um tempo sem escrever, por mais doloroso que seja. Um bloqueio, a síndrome de impostor que me domina, falta de tempo.

Aliás, a síndrome de impostor é uma frequente. Manter o blog é uma luta constante, por mais que eu adore escrever. Se eu pensar duas vezes, o mouse escorrega do “publicar” para o “excluir” e aí, já era. O blog me protege de mim mesmo, evita que eu desista (de novo e de novo e de novo). Até criei a newsletter pra conversar mais – prefiro conversar por e-mail do que usar redes sociais.

Minha cabeça, dominada pela ansiedade, trabalha o tempo todo. Eu sonho com histórias, acordo de madrugada pra anotar uma ideia ou terminar de ler um capítulo (santo Kindle pra essas horas) e me distraio com frequência entre uma garfada e outra. E, só lembrando, eu não ganho dinheiro pra escrever. Imaginem se eu ganhasse?

Aí é que tá: eu me adaptei. Eu poderia rasgar/deletar o que escrevo, mas tô aqui. Estou aqui pra fazer algo que me diverte, algo que me ajuda a estar vivo. Na escola, meu refúgio para evitar confusão era a biblioteca. Consigo participar do NaNoWriMo, porém demorei meses pra conseguir falar DE VERDADE com o psicólogo. Se eu um dia eu serei publicado? Bem, eu não sei. Enfrento situações que me causam ansiedade o tempo todo e não pretendo fazer com que escrever seja mais uma delas.

Admiro muito quem vive da escrita, muito mesmo. Apoio, compro livro, divulgo, resenho, fotografo, indico, entro em contato pra mandar carinho, peço autógrafo. Eu sei como é ter sonhos triturados, então, faço o que posso para manter vivo os dessas pessoas. É uma troca, pois as histórias delas me ajudam também.

Então, de volta à pergunta da minha mãe: eu não sei. Só que parar não é uma opção.

Palavras e mais palavras

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(escritas no celular, apagadas, revistas, amadas)

Olaaaaarrrrr,

Não tenho certeza se já expliquei porque gosto tanto desse negócio de juntar palavras e contar histórias, compartilhar ideias. Acho que por ter passado a infância numa chácara isolada, sem crianças da minha idade por perto (sem ninguém por perto, aliás), eu meio que não desenvolvi a habilidade da conversa. Eu travo em situações sociais, seja com gente que eu acabei de conhecer, seja com amizades antigas.

O fato é que escrever é a forma que eu encontrei para me comunicar sem dar tanto vexame. Mesmo escrevendo (muita) merda, é assim que eu me acalmo e me arrisco. Era o jeito que eu tinha para colocar pra fora muita coisa que não sabia explicar ou com quem conversar. E ainda me arrependo de ter jogado as produções de infância e adolescência fora.

Depois de muitos blogs sofridos e sofríveis, muitas zines, muitos projetinhos inacabados, muitas poesias perdidas em guardanapos, muita dúvida se deveria continuar com isso, aqui estou. Além do exercício terapêutico e da diversão, esse meu estranho jeito de falar tem gerado conversas bem boas. Sinal de que a comunicação realmente está acontecendo.

*

Ano passado, participei do NaNoWriMo pela primeira vez – e quase surtei. Não é fácil vencer o desafio, especialmente se você não segue uma programação, não tem um enredo muito bem definido e seu computador pifa 3 dias antes do prazo terminar.

Acabei escrevendo uma parte enorme à mão, outra no celular (com toda a limitação), outra ainda eu ditei pra um aplicativo que converte voz pra texto, mas que não entende meu sotaque nem gírias. Resultado: quase nada salva. Eu digo isso não porque sou meu pior crítico, mas porque reli tudo enquanto juntava e encaixava a confusão que escrevi num romance. Ficou uma bosta.

O começo virou esse continho aqui (a ideia inicial mesmo). O resto, eu vou selecionar o que tem salvação e dividir em outros continhos. E essa é outra fase de exercícios: o desprendimento. Não vou sofrer ou desistir por não ter acertado de primeira.

Tem gente que nasce pra contista, não pra romancista. Quem disse isso foi a Soraya, uma autora que conheci por causa do Encontro Irradiativo. Eu concordo. E que bom que o mundo é esse lugar esquisito cheio de gente diferente, né? (Aproveito pra recomendar um conto lindo da Soraya e que tá baratinho na Amazon. Eu amei o estilo de escrita dela e terminei a história pensando QUERO MAIS, POR FAVOR!)

*

Além de comer e dormir escutar uma caralhada de podcasts e ler uma porrada de newsletters (as listas que fiz já estão desatualizadas, alguémmesegure!), estou tirando habilitação e estudando pra um concurso público. Ou seja, o tempo pra ler livros e escrever e resenhar e dar pitacos na vida, universo e tudo mais tá curto.

Estou anotando minhas ideias pra elas não se perderem por aí, até voltar a publicar com frequência. Enquanto isso, juntei umas paradas no Wattpad (Sim! Julian 1×0 Síndrome de Impostor). O lance é que publiquei lá um amontoado de contos que, de um jeito ou de outro, seguem a mesma temática – fantasmas, falta, vazio. O projeto é completar 10 contos até sabe-se lá quando – um passo de cada vez, calma agora, pronto.

.*.*.*.*.*.

Galera que começou a seguir o blog recentemente: tudo bem? Não reparem na bagunça, cuidado com os/as/es colegas e aconcheguem-se (eu tô aqui, ó). Vocês gostam de poesia Vogon?

Viajantes no Tempo

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Li sobre o passado. Conheci o mundo antes de nascer.

Também li sobre o futuro. Como serão as naves, os governos, as consciências coletivas e as transferências para outros corpos.

Sei de tudo isso porque viajantes do tempo existem.

São essas pessoas esquisitas, que se cercam de papéis, canetas e ideias. Podem ser caladas, reservadas; é mais fácil lidar com os personagens em folhas amareladas pelo tempo do que com seres humanos de carne e osso. Outras são mais soltas, mais comunicativas – cuidado, você pode terminar num livro delas.

Gosto de saber o que acontecia por aqui, nesse pequeno mundo azul, antes da minha era. A linguagem e as opiniões mudaram muito (ainda bem). Teve até quem escreveu, ainda em épocas distantes, sobre o presente. Uma pena estarem tão enganadas, essas pessoas. Nós fracassamos como espécie e despejamos nosso ressentimento sobre todo o planeta.

Houve – ainda há – quem escreva a respeito do amanhã. Vamos desde otimistas viagens interplanetárias para que a humanidade colonize e leve sabedoria (sic) ao resto do universo, a um triste destino em que ficamos por aqui e lutamos pelo que sobrou de água e alimentos. Ou ainda, aliens generosos se compadecem de nosso sofrimento e acabam com tudo. Do jeito que as coisas estão, explodir a Terra para construir um desvio não parece algo ruim.

relogio

Bem, mas a questão é que as palavras ficam. Lemos o que foi o escrito, o que foi imaginado, e podemos conhecer muito sobre quem escreveu. Seus sonhos, seus amores, esperanças, ideias mirabolantes. Mesmo num universo absurdo, fantástico, podemos conhecer as jornadas e as expectativas de quem inventava histórias para curar a realidade. E o passado ainda está aqui. Ainda estará amanhã.

Hoje, posso falar com essas pessoas. Posso elogiar e agradecer pelo seu trabalho, posso dizer o quanto suas palavras são importantes e inspiradoras. Posso deixar uma resenha para incentivar outros possíveis leitores e registrar meu respeito.

Mais simples ainda, posso mandar um e-mail, um tuíte, um olá virtual. Com sorte, abraçá-las e transmitir meu carinho diretamente. Qualquer que seja a forma escolhida, faço o que não posso com os viajantes que vieram se comunicar e já se foram. Quem sabe, os que estão aqui, agora, levem boas lembranças do nosso tempo.

Além de nos alegrar, as histórias ficarão gravadas para que viajantes futuros tenham um guia, saibam que suas ideias são válidas e que sua missão deve ser cumprida.

Bloqueio

Tem horas em que não dá, não vai. O papel me encara, me cobra, espera…

Nada.

Rolou uma festa no apê da minha mente: ideias novas pra escrever, melhorias pras antigas. Anotei tudo loucamente, mas na hora de publicar…

Melhor não. Bateu a pior das bads: a síndrome de impostor.

Mais um item pro grupo do que não posso controlar. Eu perco a confiança, procuro defeitos, me comparo a outras pessoas (tão melhores).

Tem dias em que não rola.

Hoje é um desses.

-Por que você está fazendo isso?
-Não acredito que você ainda me pergunta.
-Já faz tanto tempo. Pelo seu bem, é melhor deixar pra lá!
-Não, nada disso!
-Mas…
-Mas nada! Nem vem! Já deixei coisa “pra lá” demais nessa vida.
-Olha, você vai se machucar ou machucar outra pessoa.
-Quê? Por quê? E as minhas feridas, quem vê?
-Ai, isso não é sobre você. Pensa fora da caixa um pouco.
-Não posso. Eu tô assim por sempre pensar nos outros e nunca em mim.
-E de que adianta pensar e não fazer? É muita ingratidão, mesmo.
-Meu, cai fora! Não quer ajudar, então não me atrapalha.
-Aff, eu quero ajudar! Por isso te digo: pare agora com essa ideia idiota. É tão simples.
-Simples para você. Você nunca passou por isso. Se coloca no meu lugar, pelo menos uma vez. Uma só.
-Ah, nossa! Que drama! Pobre de você! Te usaram? Te empurraram pro fundo do poço? Não vejo nenhum arranhão.
-Nem toda ferida é visível, viu?
-Ah, é? Pra mim, isso tem outro nome: frescura. Larga isso, vambora.
-Não. Nunca mais largo essa caneta. É minha arma e meu escudo.

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[Exercício do Clube de Escrita da Casa de Lua. Diálogo.]

Ponteiro

Sua música repetitiva me irrita. Tum tum tum, tudo igual, o ritmo da minha vida marcado por você. Seu ponteiro anda e dou meio passo.

Você diz que ainda não posso, falta pouco.

Depois, já não dá mais.

Eu não vi a troca de pilhas ou as atualizações automáticas. Agora, pergunto onde estão os anos que não vi passar, enquanto você seguia a ditar os dias.

Quero dormir, está escuro lá fora. Você não deixa.

Quero voltar, você ainda não sabe como fazer isso. Vejo bagagens maiores do que as minhas e isso me machuca.

 

Reiniciei. O tempo nulo pertence a alguém que morreu.

 

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[Escrito para o Clube de Escrita da Casa de Lua. Tema: (a relação com) objeto.

O fundo era cinza e frio. Eu não toquei, mas sabia que era gelado. Começa o Tetris:

Cama branca no canto esquerdo, colchão arranhado pelo gato a seguir. O fogão descascado segura tudo. Um pouco à frente: dois caixotes de feira com livros, mais caixas de cor parda cheias de sabe-se lá o quê – livros, provavelmente. Grandes sacos de lixo, pretos e azuis, com as roupas, vão mais perto da porta. A parede do lado direito é preenchida por um armário de cozinha de cão. Branco, não muito alto, mas bastante pesado. Tem um resto de ar ainda, onde cabe a porta do guarda-roupa marrom com pixações em verde-limão e vermelho.

O fundo não era cinza, era uma tela colorida e bagunçada com a minha vida dentro. Cinza era o gato dentro da caixinha azul que ia, sobre o meu colo, para a nova casa.

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[Texto do dia 23/10/15, para o Clube da Escrita na Casa de Lua.]