Hoje é um daqueles dias.

Eu sentia que aconteceria, consegui perceber. Só não consegui evitar. Foi uma noite difícil e, quando acordei, o sol já estava alto. Era mais cedo do que eu imaginava, no entanto, o contentamento foi breve. Algo na minha cabeça teimava em reclamar e mostrar erros, culpas. A angústia dominava e eu permanecia na cama, analisando o que aconteceria se eu não saísse dali.

Por isso, escrevo. Porque disse que voltaria a escrever, quando nem sei mais a senha do blog. Disse que colocaria no papel tudo que me afetasse, quando morro devagar, olhando para o nada; prometi não acumular tarefas para não sentir qualquer pressão, mas não sei por onde começar e acabo fazendo nada.

Escrever sobre isso já é alguma coisa, aparentemente.

[15/01/15]

Falar antes de gritar

Eu tateava o quarto escuro à procura da minha voz. Por vezes, minha mão esbarrava em chaves falsas e pesados potes vazios. Nada. Devo ter me cortado numa porção de momentos, sem chegar a sangrar.

Aos poucos, meus olhos se acostumaram e pude distinguir umas sombras. Vi as paredes e as janelas, mas não encontrei nenhuma porta. Uns fiapos de lua escapavam, provocando danças macabras com minha rotina. Nada que pudesse me ajudar a reconhecer os rostos nas fotografias que escrevi.

Rastejei para fora da cama, os joelhos preguiçosos demais para me sustentarem. Eu sabia que de nada adiantaria o pânico, já que gritar era impossível. Eu precisava encontrar minha voz. E ela estava perdida ali.

Em certa altura, pensei em um bom lugar para se guardar a voz. Não como uma lembrança, mais para a imaginação. Se eu não via o quarto com nitidez, poderia recriá-lo em minha cabeça até conhecer o melhor esconderijo.

Esconderijo! É isso.

O quarto estava escuro porque minha voz estava escondida, não só perdida. Continuei rastejando e dando cabeçadas em tudo o que bloqueava meu caminho sem que eu pudesse desviar. Estava, em especial, sem a certeza do acontecido: quem escondeu minha voz? Fui eu? Foi alguém com interesses em me calar? A própria voz teria entrado numa brincadeira de pique-esconde sem saber a saída?

Minhas mãos descobriram puxadores e eu abri gavetas. Algumas escaparam e me empurraram para trás; outras, emperradas, não cederam além da metade. Foi ali que me enfiei.

Senti coisas tão antigas, que se desfizeram instantaneamente. Outras eram pesadas, estavam trancadas e eu me arrependi de ter deixado as chaves do lado de fora. Precisei segurar a respiração para não me afogar no mofo e na poeira. Assim que as luzes se acendessem, eu faria uma faxina no lugar.

Devo ter procurado por muito tempo. Sequer percebi que já engatinhava e que sol ia alto. Demorei mais para tirar a noite dos olhos do que do quarto.

Há luz, há voz, pensei. Tentei falar, sem ainda emitir qualquer som. Escorei o corpo confuso e pousei as mãos cansadas no colo. Correu, morreu, fugiu, foi roubada. De certo, foi esmagada sob a velharia de medo e remorsos que acumulei ao longo dos anos e pifou.

Foi quando percebi um movimento no espelho. Era eu, mas não me reconheci. Acenei, mas não me vi.

O quarto parecia arrumado e eu conversava com meu reflexo, os dois lados confiantes. Estava ali o tempo todo.

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Se você quiser segurar minha mão
Para não temer enquanto caminhamos

Venha, segure

Eu não vou te puxar, eu não vou te empurrar
Eu não vou te forçar a nada
Você só precisa querer caminhar comigo

E o fazer

Não posso te obrigar a pensar como eu penso
A agir na mesma urgência

Posso apenas te convidar, como se fosse uma dança
Se você para, eu vou tropeço
Se você desiste, eu posso cair

Se você me soltar, tudo bem
Eu posso continuar

Repare na minha respiração bagunçada
Eu corri e ralei para estar aqui

Algumas ondas pareciam altas demais para mim
Eu continuei, mesmo assim
Tomei uns caldos, tive medo
Pensei em pegar carona em um barco
O barulho do motor não me deixava dormir

E, se eu caísse, poderia até me matar
A única ajuda que eu poderia ter
-e tive-
foi de quem nadava comigo
e se dispôs a me ensinar

Se você quiser, eu te ensino
Eu não vou te soltar

Só não garanto que possa te carregar

Em mim

Há fúria, há medo.

Minha alegria cresce ao lado do meu ódio e meus sonhos morrem de mãos dadas com a minha esperança.

Há algo em mim que grita sem cessar e que não sei exteriorizar. Criam-se demônios em mim; cria-se um eu-monstro que ataca, nega.

(me ataca e me nega)

Há muitos eus dentro de mim, impedindo que eu descubra tudo o que é possível. Quando eu descobrir quem sou de verdade, serei essa pessoa que escreve agora?

Não há respostas. Não há fim em mim.

[outubro, 2010]

 

aleatoriedades III

A cabeça voa, mas os pés estão no chão. Tudo roda, machuca. De dentro para fora e vice-versa.

A cabeça não produz como eu gostaria, e eu a iludo. São líquidos psicodélicos, o cálice da coragem. Nada é suficiente, contudo.

Eu me sinto ferido e sinto que [te] feri também.

Finjo enganar. Digo coisas ruins, que você escuta pacientemente. Você não se machuca com as minhas palavras, mas com a insistência delas.

Machuca ainda mais não saber curar as feridas que abri.

A ilha está sob meus pés. O chão é firme, é necessário.

E não tenho medo de descobrir o que a floresta me trará. Eu sei que não terei.

[abril, 2010]

Aurora

A Madrugada soltava seus tentáculos e assustava os desprevenidos. Quanto mais dominava o espaço, mais poderosa se sentia. Crescia rapidamente, faminta de toda luz que pudesse engolir.

-É preciso fazer alguma coisa. Estamos nos encaminhando para uma Era Fria.

-Não podemos interferir. A Madrugada é tão necessária quanto qualquer um de nós. Ela deve parar sozinha.

-E vamos esperar que ela se alimente a seu bel prazer? Nada restará até o fim da Madrugada.

Enquanto isso, jovens desavisados ou aventureiros arriscavam-se à sombra. Sozinhos ou em grupo, com ferramentas ou com as mãos livres, enfrentavam o desconhecido. Poucos eram aqueles que, pegos de surpresa, cobriam-se com o manto do sono e fingiam dormir para salvarem suas almas. Desses, quase nenhum acordava.

A Noite reclamava resistência. Não mais acreditava em vilões ou mocinhos, mas sabia que agir era crucial naquele momento. Temia não poder acalmar corações e inspirar canções com sua face estrelada e seu pingente de lua. Havia espaço para todos os tempos e tempo para todas as fases; quando somente um dominava, tudo era consumido até o caos desigual.

Seus Guerreiros surgiam de todos os cantos, excitados com a sua chegada. Defendiam seu território para que os outros pudessem descansar. Ato contínuo, a Noite liberava seu abraço e as pessoas entregavam-se aos sonhos.

Os desesperados, entregues à sua sobriedade, passavam a acreditar que talvez houvesse um caminho para a solução. No entanto, era a Noite quem agora se via num conflito violento, cuja resolução dependia de uma luta dolorosa. Um embate batia à porta e nada a convenceria a recusá-lo. Sua perigosa irmã, que também era uma parte sua, precisava ser contida.

O Crepúsculo tentava manter sua convicção, apesar do crescente desejo de abandonar a discussão. Entre duas Grandes Irmãs, sentia-se esmagado; a crise acentuava seu esgotamento.

-Eu penso em desistir. Já tivemos conversas, fizemos ameaças…

-Você não pode desistir. Falta-nos encontrar uma forma de equilíbrio.

-Não há equilíbrio com a Madrugada! Ela tem uma sede viciada, cumulativa. Só quer mais, mais e mais. A boca mastiga a cauda, se assim a alimentar em dobro!

No fundo, o Crepúsculo sabia de sua importância. Ajudava os olhos a se adaptarem à chegada da Noite e, a seu modo, mantinha os ânimos apaixonados. Existia como o sorriso que ligava os extremos da face do tempo, a transição suave que embeleza e matura os seres.

Sua juventude era um breve espetáculo de esperança. Em sua confusão e singularidade, cores apareciam sem início nem fim definidos. Aceitaria, contudo, ceder seu momento à Madrugada, se assim fosse preciso. Tudo o que desejava era evitar mais ferimentos para sua fusão.

A Tarde vinha quente mais uma vez. Sua presença exuberante quase sufocava; teimava em distribuir calor e luz, mesmo quando não era solicitada. Sentia que sua rejeição era causada, em parte, pelo poder de influência da Madrugada.

Por vezes, levantava a voz para acalmar a Noite, quase a ponto de anular o Crepúsculo. Permanecia mais do o esperado, teimosa, intensa. Beirava o insuportável. No auge de sua irritação, quando o sangue fervia quase sem controle, derramava pesadas lágrimas para limpar as feridas que causou e devastar o que não conseguia resolver.

Não era fácil para a Tarde enfrentar a Madrugada, sua gêmea oposta e perfeita. Armava uma estratégia cautelosa, baseada na coexistência. Afinal, sem o frio, ninguém entenderia a importância do calor. Impor um limite e esconder a Madrugada com luzes artificiais não seria benéfico.

A Manhã chegava preguiçosa, bem devagar. Parecia sonolenta, talvez de ressaca. Ficava cada vez mais fraca, após os usos abusivos a que era condenada. Sua energia era famosa e trazia benefícios bem reconhecido para os que tinham medo da Madrugada. Algumas pessoas ambiciosas, no entanto, sintetizavam a Manhã em pequenas cápsulas, quase vazias de significado. Eram vendidas como a cura mágica para um problema pouco compreendido.

O que acontecia, de fato, era o torpor. Com os corpos relaxados e pouco resistentes, as pessoas não percebiam o perigo se aproximar. Quando o efeito passava, procuravam por outra dose, qualquer que fosse o preço. Deixavam de ser alvos atraentes porque já não eram de verdade, integrais.

Sem defesas, a Manhã via seu tempo escorrer dia após dia. Mal conseguia oferecer resistência e recorria com frequência à Tarde, em busca de empréstimos e ajuda. Jamais abandonava a esperança, embora parecesse tão anestesiada quanto quem a usava sem critério. Seu maior medo era não aguentar mais, condenando uma parte do dia às garras da Madrugada.

-Ela é nossa melhor arma.

-Isso não é uma guerra. Não podemos usá-la desse modo.

-Deixemos que ela decida sozinha!

Aurora ouvia a discussão ao longe, enquanto mantinha os olhos cerrados. Parecia frágil demais até para argumentar. Tinha permanecido intocada até o momento, entre muita especulação e pouca explicação.

Mesmo quando a Madrugada atacava com toda força, saqueando as fontes de calor que encontrava, a Aurora trazia um dia novo. Seus pequenos passos, quase imperceptíveis diante da Irmã poderosa, eram confiantes. Sem esforço, ela deixava o espaço livre para a Manhã.

Após alguns momentos de expectativa silenciosa, levantou-se.

-Eu vou.

E quando a Madrugada alcançou o local da discussão, sentindo-se vitoriosa, Aurora saiu, carregando apenas a certeza de que o amanhã precisa acontecer.

Chá de sumiço

Passei por uma semana arrastada, como se tivesse um vagão de trem cheio na mochila. Meu corpo entortou mais do que o de costume por causa do peso extra. Revidei, fiz meu crossfit autônomo, mas uma dor se espalhou, toda sapeca, até qualquer movimento sutil para um lado virar uma porrada para o outro lado.

Depois de várias noites sem dormir – dormir mesmo, descansar – resolvi tomar um chá relaxante pra ajudar. Achei uma caixinha em casa, empoeirada. Devo tê-la comprado há mais de um ano, quando tive uma grave crise de tosse. Não reparei no vencimento, mas deveria.

Olá, como você está?

Sim, eu sei. Eu sumi. E não foi por causa de qualquer chá vencido (não venceu, eu conferi depois). E não sumi da vida, da adultice, dos perrengues. Sumi por causa de tudo isso (e das dores esquisitas que aparecem pra me assombrar).

Se eu disser que, durante duas semanas, eu tive a rotina trabalho-casa-curso-sono-trabalho, vai parecer que minha vida foi mais tranquila do que me pareceu. Talvez, tenha sido mesmo, mas não foi assim que eu senti. Preferi me dedicar àquela realidade temporária pra não surtar com todos os papéis voadores com ideias anotadas, louça na pia e vontade de não parar (não mais!).

Sumir é bom, às vezes. Antes, eu queria desaparecer pra valer, deixar a cama me engolir só pra eu não precisar levantar e arrumar um jeito de fazer isso. Não queria fazer nada, as coisas que me alegravam viraram um fardo. Sumir parecia um caminho bem óbvio.

Dessa vez, contudo, tudo está diferente. Eu não sumi, sumi, assim, pra valer. Pela primeira em muito tempo (na… VIDA… quem sabe) eu tenho uma vontade genuína de estar perto das pessoas. Tenho conhecido e/ou me reaproximado de pessoas tão incríveis, que o convívio social vem me assustando menos. Até whatsapp eu tenho respondido, veja só!

É mais ou menos como se eu tivesse tirado férias: o mundo continua, e eu fui conhecer outro ponto dele. Escalei uma montanha pra observar minha vida por outro ângulo, com binóculos e bebericando uma xícara de chá. Lá embaixo, rola uma adaptação pra minha ausência – não uma solução instantânea de que posso me aproveitar no retorno – e eu volto, mochila nas costas. Mochila cheia, novas ideias, planos, compromissos, porém leve, leve.

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Eu sumi porque saí pra comer fora. Tive que estudar pra uma prova e não consegui preparar minha própria comida. Encontrei um lugar pra comer, simples, barato, não muito cheio nem barulhento. Peguei o cardápio, as opções não me agradaram, pedi um arroz e feijão básico, com salada e batata frita. Sim, suco de laranja com gelo e sem açúcar.

Mesmo com o pedido feito, segurei o cardápio, folheei… Encontrei opções que me pareceram saborosas e comecei a levantar o braço. Será que ainda dá tempo de trocar o pedido? Antes mesmo que alguém me notasse, meus olhos viram mais e mais possibilidades. E se eu pedisse pra experimentar um pouco de cada? Só uma porçãozinha, quem poderia me julgar? Mas é muita coisa, não tenho dinheiro. Parcelo. E o peso? Vai embora. E se for tudo muito ruim? E se eu gostar de tudo e que quiser repetir? E se o cartão não passar? E se eu quiser sobremesa? Vou ter que pedir outro suco pra ajudar a descer e…

Enquanto comia – e recebia uns olhares questionadores de quem não sabe se deve me oferecer um frango ou um ovo frito -, eu ria por dentro. Não um riso de escárnio, só um riso divertido, quase infantil. Lembrei de quando qualquer escolha era um tormento e eu acaba não escolhendo – não fazendo – o que quer que fosse. Eu inventei nomes pra isso e não desafiei. Não que seja fácil hoje. Mas ao invés de sofrer por uma centena de opções, eu seleciono cinco ou dez apenas. Pode ser eu eu consiga

[ler/ouvir/assistir/conhecer/escrever/aprender/entender/contar/jogar/dançar/fazer/viver]

apenas duas ou três, até mesmo uma só dessas coisas. Mas eu fiz. É por isso que sumi. Porque fui comer fora, mastiguei sem pressa e pensei: ok, o que mais tenho pra fazer hoje? E o que mais eu posso fazer hoje?

Eu pensava que só funcionava com horários marcados e tarefas definidas. Se ficasse livre demais, eu me perderia. Na verdade, tudo era tão concreto, tão fechado e certinho, que eu olhava pela janela porque queria estar lá fora e me livrar daquele cubículo com mesa, cadeira e uma pilha de pendências. Olhar pela janela todos os dias Estar lá fora todos os dias, lá sendo aqui, exige mais responsabilidade ainda do que parece. Mas é uma responsabilidade gostosa, porque quando começa a chover e eu decido não correr, eu sei o que pode acontecer depois e somente eu sou responsável pele suposto futuro resfriado. Eu posso ter me alimentado bem e estar forte pra tomar chuva. Eu posso contar com pessoas pra me prepararem chás e me manterem aquecido, sem que eu tenha que pedir. Eu posso ser a pessoa que prepara o chá. Podemos tomar juntos.

Que tal?

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Sumi porque, como eu disse da última vez em que nos encontramos, eu preciso me cuidar e, uau, eu comecei! Não é que eu tenha te esquecido ou goste menos de você. A gente vai sair qualquer dia e fazer nossas coisas – só nossas – de sempre. Mesmo que eu tenha trocado a cerveja por chá. Não precisa ter pressa.

A arte de remover o lixo

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E aqui estou eu, de novo, carregando um monte de sacos de lixo pra fora. Quase não consigo me mexer direito: são vários, daqueles grandes, pretos e azuis. Enquanto eu os arrasto para fora, suando e fazendo uns barulhos engraçados por causa do esforço, reparo para ver se nenhum vai arrebentar com o peso.

Fico em choque com a quantidade de lixo que consigo acumular, mesmo com toda economia e reutilização que procuro fazer em casa. A maior parte do que jogo, é lixo reciclável; o que não uso mais e ainda pode ser aproveitado, vai para doação ou escambo. Mesmo assim, de tempos em tempos, mais do que eu gostaria, essas montanhas aparecem e me sufocam.

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Às vezes, eu tento ignorar. O cheio de estragado fica tão forte que meus olhos lacrimejam. Eu seguro a respiração até o limite e fico com medo de chegar perto. Sério, parece que aquele monte repentino de coisas indesejáveis vai me devorar.

Em outros momentos, eu jogo na lixeira o primeiro tantinho de sujeira que vejo. Penso “rá! trabalho resolvido!”, mas tudo continua ali, como se eu não tivesse feito NADA. Foi um longo tempo de cara feia até perceber que eu não limparia coisa alguma se continuasse jogando tudo pra fora de qualquer jeito.

Ou seja, é uma situação desesperadora. Sempre parece que nada do que eu fizer vai dar certo. Eu procuro vários tutoriais de “como reutilizar…” pra evitar fazer lixo e nem isso resolve, eu nunca encontro o que preciso mesmo.

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Wait, wait, WAIT! I’ll be fine in a minute!

Bom, tive começar a ter mais cuidado. Mesmo após um dia muito bom, eu posso tropeçar numa lata cheia de chantagem emocional, dar de cara num poste de energia negativa (meu companheiro vai me arranjar um adaptador USB, e vamos tentar trocar por energia positiva) ou escorregar num piso lambuzado de abuso e domínio. Não podemos vencer sempre, né?

Quando toda a prevenção não adianta, eu conto até 10, pego os sacos amontoados e vou pra fora, um passo de cada vez. É difícil carregar o peso sem forma, deixar o nó bem firme e dar erguidinhas para que o conteúdo não se esparrame.

Cansa? Cansa. É divertido? Não. Mas é um exercício que preciso fazer, uma arte estranha e diferente que quase ninguém vai entender (ou respeitar). Uma arte que as pessoas evitam quando jogam mais lixo aqui pra dentro – porque sabem que eu não tenho braço pra mandar de volta.

-Por que você está fazendo isso?
-Não acredito que você ainda me pergunta.
-Já faz tanto tempo. Pelo seu bem, é melhor deixar pra lá!
-Não, nada disso!
-Mas…
-Mas nada! Nem vem! Já deixei coisa “pra lá” demais nessa vida.
-Olha, você vai se machucar ou machucar outra pessoa.
-Quê? Por quê? E as minhas feridas, quem vê?
-Ai, isso não é sobre você. Pensa fora da caixa um pouco.
-Não posso. Eu tô assim por sempre pensar nos outros e nunca em mim.
-E de que adianta pensar e não fazer? É muita ingratidão, mesmo.
-Meu, cai fora! Não quer ajudar, então não me atrapalha.
-Aff, eu quero ajudar! Por isso te digo: pare agora com essa ideia idiota. É tão simples.
-Simples para você. Você nunca passou por isso. Se coloca no meu lugar, pelo menos uma vez. Uma só.
-Ah, nossa! Que drama! Pobre de você! Te usaram? Te empurraram pro fundo do poço? Não vejo nenhum arranhão.
-Nem toda ferida é visível, viu?
-Ah, é? Pra mim, isso tem outro nome: frescura. Larga isso, vambora.
-Não. Nunca mais largo essa caneta. É minha arma e meu escudo.

.*.*.*.*.*.

[Exercício do Clube de Escrita da Casa de Lua. Diálogo.]