Depois do túnel do tempo

Gif de um relógio marcando 00:00 repetidamente

Olá,

Não repare nas olheiras, eu acabei de voltar de viagem. Deu pra notar que foi bem cansativa, né? Pois é, o desgaste emocional pode ser mais devastador do que o físico, às vezes. E pensar que eu me voluntariei pra viajar.

Eu nem sei direito como começar meu relato. Afinal, o que me chocou pode soar como canção de ninar para você. Mas fica difícil de entender o que nossas Conselheiras querem dizer com “o passado é o melhor professor” depois de tudo o que vi e passei.

Mais complicado ainda é acreditar que chegamos até aqui tão bem e criamos nossa essa noção de comunidade: nos respeitamos, nos cuidamos, nos ouvimos.

Fui para o século XXI, logo no comecinho, antes dos primeiros 20 anos. Que bagunça! Acho que sobrevivemos por teimosia – é a única explicação que encontro. Para todos os lados que olhava, eu via pessoas tristes, cansadas, reclamonas; instantes depois, essas mesmas pessoas ganhavam uma energia enorme para agredir quem não concordasse com elas. Como se discordar fosse razão para se iniciar uma guerra!

Guerras aconteceram, nós aprendemos isso nas aulas de História. Ir para aquela época e ver tudo de perto é assustador. Principalmente, porque só ficamos sabendo de parte dos conflitos. Essas micro-tretas entre indivíduos ou grupos de indivíduos também machucavam, deixavam feridas de complexa cicatrização e podiam levar à morte. Bastava usar a cor de camiseta errada.

Em algumas ocasiões, senti que estava dentro daquele livro que lemos na aula de Literatura, qual o nome mesmo? Ah sim! 1984. Os “inimigos” surgiam e eram trocados depressa; logo, ninguém mais sabia por que estava brigando, nem contra quem. O importante era brigar e manter assustadas as pessoas que não sabiam o que fazer ou não tinham pra onde ir. O essencial era provar que estava certo, isoladamente certo.

Até o lazer parecia ser proibido. Muita gente se divertia ao ridicularizar outras pessoas por causa de jeito, tipo físico, orientação sexual, cor, preferência musical, gênero. Uma vez que não existia um argumento de verdade, tudo virava piada. Um dado curioso é que rir ou expor não melhorava em nada a existência de quem o fazia. Era só para maquiar a mediocridade mesmo.

Uma coisa interessante: todo mundo estava sempre coberto de certeza, mas ninguém assumia a responsabilidade pelo que dizia ou fazia. Era sempre culpa de terceiros ou estava nas mãos de um salvador invisível que nunca chegava e passava um pano monstro pros erros humanos.

O mais perturbador, de fato, era que nós não poderíamos existir. Pessoas como nós eram assassinadas aos montes ou humilhadas até não suportarem mais viver. A nossa capacidade de resistir para chegar até aqui, construir nossas comunidades, compartilhar nosso conhecimento (entre nós e entre viajantes do espaço), nosso alimento, espalhar e basear nossas vidas em respeito é algo quase mágico.

Que bom que estamos aqui. Nossa resistência é a nossa existência.

Somos todos… ?

Enquanto andava, a dor nas costas o consumia. Ele sentia que carregava o peso de todas as estrelas.

De grande que era, chamava a atenção. Ninguém desviava os olhos quando ele chegava ou passava, onde quer que fosse. Logo, os cochichos surgiam, os risos, os dedos incriminatórios.

Ele se olhava, quase sem se mover. Procurava o que poderia estar errado. Não encontrava. Era sempre a visão dos outros.

No ônibus, apesar de adorar os lugares altos, procurava um assento no fundo para não ser notado. Contudo, antes do primeiro farol, alguém o via e o culpava de ter fechado as janelas ou ter causado o trânsito. Envergonhado, tentava se esconder atrás do celular, mas as vozes cresciam e entravam até na rede. Amanhã, escolheria o trem – cheio – ou o carro – mais trânsito – ou a bicicleta – é lazer, não para transporte.

Arrependeu-se da ideia de ficar em casa, antes mesmo de seu surgimento.

As coisas não estavam boas no trabalho também. A dor na coluna era, em parte, culpa da cadeira que usava. Poderia gastar com academia? Melhor não arriscar. Havia uma crise no país e, segundo diziam especialistas e populares, ele era o responsável. Concentrou-se nas tarefas do dia.

Voltava a pé para casa, depois de o sol ter se despedido. Mal podia ver onde pisava. Em uma ou duas ocasiões, tropeçou e praguejou. A cada passo que dava, mancando e irritado, buzinadas surgiam para lembrá-lo quem era o culpado. De nada adiantava reclamar, ele nunca seria esquecido.

Pensou em mudar, se refazer por completo. Enxugou o suor que escorria pelas costas, limpou suas pegadas, planejou uma revolução. Por um breve período, deu certo. Ganhou adeptos, mas acumulou inimigos. Logo, já não os reconhecia. Aliás, não podia nem dizer se reconhecia a si mesmo, tantas foram suas mudanças, influências e contradições.

O único fato imutável era que os comentários não findavam. Na verdade, pareciam até mais raivosos.

Em desespero, deu um soco no espelho para evitar ver a imagem dos problemas. O resultado foi seu rosto, o retrato do erro, multiplicado e ainda o encarando. O povo não pode fingir não ser o povo.

Tenha coragem

pés soltos de alguém sentado no alto de um prédio

Cheguei ao trabalho com o cabelo pintado – nada de muito diferente, um ruivo desbotado – e ganhei um bilhetinho de uma colega: “Eu faria isso se tivesse coragem.” Foi a mesma coisa quando deixei bem curtinho, pintei de cores extravagantes, raspei… Cabelo cresce, e amanhã será outro dia.

O bilhete é algo recente, porém nada inédito. Em outras ocasiões, eu já ouvi que pessoas dizerem que tomariam determinadas atitudes se tivessem “coragem”: deixar de comer carne, largar um emprego público, abrir o relacionamento, sair da casa dos pais e morar em outra cidade. São decisões que tomei e que me contemplam, mas não são modelos de uma vida mais interessante.

Sinto-me muito estranho quando alguém me parabeniza por essa suposta bravura. Eu sou confuso, medroso e do tipo que tem insônia por lembrar de um vacilo que dei em 1996. A diferença é que algumas das minhas escolhas são incomuns, por assim dizer. Recebo muito mais olhares de desaprovação ou repulsa do que tapinhas nas costas amigáveis.

Longe de ser um exemplo de autenticidade, eu deixo migalhas de pão pelo caminho pra saber como voltar. Acredito que uma pessoa corajosa mesmo não faça isso. Contudo, eu tenho é medo de uma vida baseada no futuro do pretérito, daquele assombroso arrepender de não ter feito. Por acreditar que só se vive uma vez, a melhor hora é agora.

Então, não vou dizer que todo mundo deveria ter um moicano verde limão. Cada pessoa tem suas vontades e conhece seus limites. Só me arrisco a sugerir que tenham coragem, ou mais coragem. Nem sempre a grama do vizinho é mais verde e não há nada de errado com uma grama desbotada.

horizontal

Se você quiser segurar minha mão
Para não temer enquanto caminhamos

Venha, segure

Eu não vou te puxar, eu não vou te empurrar
Eu não vou te forçar a nada
Você só precisa querer caminhar comigo

E o fazer

Não posso te obrigar a pensar como eu penso
A agir na mesma urgência

Posso apenas te convidar, como se fosse uma dança
Se você para, eu vou tropeço
Se você desiste, eu posso cair

Se você me soltar, tudo bem
Eu posso continuar

Repare na minha respiração bagunçada
Eu corri e ralei para estar aqui

Algumas ondas pareciam altas demais para mim
Eu continuei, mesmo assim
Tomei uns caldos, tive medo
Pensei em pegar carona em um barco
O barulho do motor não me deixava dormir

E, se eu caísse, poderia até me matar
A única ajuda que eu poderia ter
-e tive-
foi de quem nadava comigo
e se dispôs a me ensinar

Se você quiser, eu te ensino
Eu não vou te soltar

Só não garanto que possa te carregar

].[

Mesmo eu, que amo a liberdade,
[e não conheço outra forma de viver, não consigo entender, não aguentaria]
tenho minhas prisões.

Pode ser falta de coragem, eu disse. Talvez seja pior.

Quem sabe, daqui a dois ou três anos, o ponto de partida seja outro. Seja aquela pensão tosca de beira de praia. Seja o desconhecido esperando para ser mais lugar do rastro que farei.
[ou faremos]
[ou fará]

Só não consigo imaginar como será quando o cansaço surgir, a saudade bater. São essas as minhas prisões.

Mesmo livres, as pessoas precisam chegar e sair; por enquanto, sou apenas os pontos.

[novembro, 2010]

Em mim

Há fúria, há medo.

Minha alegria cresce ao lado do meu ódio e meus sonhos morrem de mãos dadas com a minha esperança.

Há algo em mim que grita sem cessar e que não sei exteriorizar. Criam-se demônios em mim; cria-se um eu-monstro que ataca, nega.

(me ataca e me nega)

Há muitos eus dentro de mim, impedindo que eu descubra tudo o que é possível. Quando eu descobrir quem sou de verdade, serei essa pessoa que escreve agora?

Não há respostas. Não há fim em mim.

[outubro, 2010]

 

aleatoriedades III

A cabeça voa, mas os pés estão no chão. Tudo roda, machuca. De dentro para fora e vice-versa.

A cabeça não produz como eu gostaria, e eu a iludo. São líquidos psicodélicos, o cálice da coragem. Nada é suficiente, contudo.

Eu me sinto ferido e sinto que [te] feri também.

Finjo enganar. Digo coisas ruins, que você escuta pacientemente. Você não se machuca com as minhas palavras, mas com a insistência delas.

Machuca ainda mais não saber curar as feridas que abri.

A ilha está sob meus pés. O chão é firme, é necessário.

E não tenho medo de descobrir o que a floresta me trará. Eu sei que não terei.

[abril, 2010]

aleatoriedades II

Escrever. Todos os dias.
Desabafar.

Não por obrigação, pelo prazer da conversa.

O papel é meu amigo.

Ontem, me contava sobre um escritor querido. Hoje, me falou sobre um romance que não termina após a morte e sobre robôs.

Não há julgamentos ou interrupções. O papel devolve conforme me ofereço.
Há dores e expectativas frustradas que não merecem ser mencionadas.

Como estará esse caderno daqui… seis meses? Como estarei eu?

[11/05/15]