Depois do túnel do tempo

Gif de um relógio marcando 00:00 repetidamente

Olá,

Não repare nas olheiras, eu acabei de voltar de viagem. Deu pra notar que foi bem cansativa, né? Pois é, o desgaste emocional pode ser mais devastador do que o físico, às vezes. E pensar que eu me voluntariei pra viajar.

Eu nem sei direito como começar meu relato. Afinal, o que me chocou pode soar como canção de ninar para você. Mas fica difícil de entender o que nossas Conselheiras querem dizer com “o passado é o melhor professor” depois de tudo o que vi e passei.

Mais complicado ainda é acreditar que chegamos até aqui tão bem e criamos nossa essa noção de comunidade: nos respeitamos, nos cuidamos, nos ouvimos.

Fui para o século XXI, logo no comecinho, antes dos primeiros 20 anos. Que bagunça! Acho que sobrevivemos por teimosia – é a única explicação que encontro. Para todos os lados que olhava, eu via pessoas tristes, cansadas, reclamonas; instantes depois, essas mesmas pessoas ganhavam uma energia enorme para agredir quem não concordasse com elas. Como se discordar fosse razão para se iniciar uma guerra!

Guerras aconteceram, nós aprendemos isso nas aulas de História. Ir para aquela época e ver tudo de perto é assustador. Principalmente, porque só ficamos sabendo de parte dos conflitos. Essas micro-tretas entre indivíduos ou grupos de indivíduos também machucavam, deixavam feridas de complexa cicatrização e podiam levar à morte. Bastava usar a cor de camiseta errada.

Em algumas ocasiões, senti que estava dentro daquele livro que lemos na aula de Literatura, qual o nome mesmo? Ah sim! 1984. Os “inimigos” surgiam e eram trocados depressa; logo, ninguém mais sabia por que estava brigando, nem contra quem. O importante era brigar e manter assustadas as pessoas que não sabiam o que fazer ou não tinham pra onde ir. O essencial era provar que estava certo, isoladamente certo.

Até o lazer parecia ser proibido. Muita gente se divertia ao ridicularizar outras pessoas por causa de jeito, tipo físico, orientação sexual, cor, preferência musical, gênero. Uma vez que não existia um argumento de verdade, tudo virava piada. Um dado curioso é que rir ou expor não melhorava em nada a existência de quem o fazia. Era só para maquiar a mediocridade mesmo.

Uma coisa interessante: todo mundo estava sempre coberto de certeza, mas ninguém assumia a responsabilidade pelo que dizia ou fazia. Era sempre culpa de terceiros ou estava nas mãos de um salvador invisível que nunca chegava e passava um pano monstro pros erros humanos.

O mais perturbador, de fato, era que nós não poderíamos existir. Pessoas como nós eram assassinadas aos montes ou humilhadas até não suportarem mais viver. A nossa capacidade de resistir para chegar até aqui, construir nossas comunidades, compartilhar nosso conhecimento (entre nós e entre viajantes do espaço), nosso alimento, espalhar e basear nossas vidas em respeito é algo quase mágico.

Que bom que estamos aqui. Nossa resistência é a nossa existência.

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Sou o que sobra

O lado dela está vazio. Antes de conhecê-la, gostava de me esparramar pelo meio da cama. Não sei que horas são, só sei que é madrugada. Faz anos que não tenho rádio-relógio, presente de casamento. Não quero pegar o celular. Tenho medo de receber um whats ou uma notificação dela, ou de algum amigo em comum, e então saber, de vez, que tudo acabou. Perdi o emprego, perdi o cachorro – o Sansão –, perdi o amor da minha vida e, nisso tudo, me perdi também. É, meu pai tinha razão: nunca conseguiria manter nada nessa vida.

Levantei meio tonto de solidão e fui até a cozinha, em busca de qualquer coisa que enchesse o estômago e trouxesse distração. Os pés descalços pareciam estranhar o vazio do apartamento e me arrastavam sem confiança. Há quanto eu fiz daquele espaço meu lar? Já não importa, tenho que aprender tudo do zero mais uma vez.

Na geladeira, alguma coisa cheirava tão mal quanto meu ânimo. Ela tinha partido algumas horas atrás e eu já contagiava a casa com meu azedume de azar. Nem sei se posso chamar assim ou se é muita pretensão. Abandonei os planos de comer e me contentei com um copo d’água. A intenção de me distrair não funcionou como eu esperava, então o melhor a fazer era voltar pra cama antes que eu estragasse mais alguma coisa. Será que o dia 13 do meu nascimento fora uma sexta-feira?

Na volta, ainda na cozinha, senti que pisava em algo estranho. Um misto de raiva e nojo me tomou, embora eu soubesse que se a barata não tivesse morrido sob meus pés, ela teria se envenenado com a minha comida. Pedi um perdão silencioso e retomei o caminho. Mais um passo e uma dor maligna subia pela minha perna direita. Algum brinquedo do Sansão que ficou pra trás, imaginei.

Pulei para tentar alcançar o interruptor, torcendo para não escorregar com os restos de barata grudados no meu pé. Senti algo me cortar e chutei o que deveria ser uma pedra, até conseguir acender a luz.

Por todo o corredor, pedaços de mim estavam espalhados, formando um macabro resumo da minha vida. A pedra era, na verdade, o sonho infantil de ser um astronauta. Ao lado, estava a folha em que cortei: o comprovante de trancamento de matrícula da graduação; escolha que tomei mais por desgosto do que por qualquer desculpa decente que inventei para mim mesmo na época.

Não precisei me esforçar muito para descobrir que nenhum brinquedo de cachorro foi esquecido. Era ela, saída do chão como numa ponta, um prego abandonado. Acreditei que bastava esse tal de amor para construir nossa vida de todas as maneiras que encontrássemos, mas nosso casamento enferrujou e ela se foi, antes de ser tomada pelo tétano.

Larguei o que restava de mim no chão sujo, enquanto as feridas abertas do passado me obrigavam a encarar sua existência. Tenho medo de chorar, por não saber que formas e dores as lágrimas terão. Eu não sei quem sou, mas prefiro me agarrar à dúvida a perder todas as chances.

Na cozinha, fora do meu campo de visão, jaz o corpo de um homem que, um dia, acordara transformado num inseto. Eu o matei por acidente, o último acidente da minha vida.

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Texto para a Oficina Colaborativa do Mundo Estranho, do Eric Novello.

Cócegas

O sorriso do jornaleiro não é igual ao que ele me ofereceu pela manhã, porque agora ele sabe. No fundo, o bairro todo sabe. Meu jeito de segurar a bolsa, meus passos rápidos, o suor que faz as chaves fugirem pro chão.

Percorro o conhecido caminho dos santos juízes. Sou declarada culpada assim que ele saí das sombras e toca meu braço. Assustada, olho para uma janela e vejo a vizinha curiosa me dirigir um olhar de reprovação e fechar as cortinas. Sobram as luzes azuladas das televisões e ele. E sobra você.

Mas isso não é sobre você.

Fecho os olhos para dormir e sou atormentada pela imagem da vizinha. Ela sabe como serão todos os meus sonhos a partir desta tarde. Mesmo que você não passe de um monte de nada sem forma, eu sei que carrega o rosto dele. É somente a ele que você pertence.

Ando apressada pela noite porque assim me ensinaram que deveria fazer. Nunca a temi, para dizer a verdade. Aposto que se você tivesse qualquer coisa minha, também veria na noite uma amiga agradável e acolhedora. Até que ele chegou e nos obrigou a sermos uma só carne. Foi assim que você tornou-se dele, única e exclusivamente, e eu passei a chegar em casa mais cedo. Mudei o horário de trabalho, mudei meu caminho, minha vida toda mudou.

Você entende que eu não poderia continuar, não? Mal posso cuidar de mim mesma. Se você continuasse comigo, as coisas ficariam mais e mais complicadas. Pode me chamar de covarde ou criminosa, eu não me importo. Tive de me livrar de você, antes de te ver, para não ter que vê-lo de novo. Só a ideia de ter o rosto dele nas minhas entranhas me machuca.

Troquei algumas horas de hoje para anular os minutos daquela noite. Deixei de viver por alguns momentos, pendurada a um cabide de sangue, para evitar que você visse a luz do sol. E te deixei pra trás assim que minhas pernas voltaram a me obedecer.

Chego em casa, recupero as chaves caídas, encaro a porta. E se a polícia estiver me esperando aí dentro? Algo me diz que a vizinha me denunciou. Basta o jornaleiro para apontar o caminho de onde moro. Todo mundo aqui me conhece e sabe que vivo sozinha, que respeito as leis e que não sirvo nem para ser assunto. Tenho vários pecados e apenas um crime – o confesso sem dizer uma só palavra.

Vou te esquecer assim como tento esquecê-lo. Entro em casa sem sua companhia, da mesma maneira que saí. Você nunca existiu e ninguém jamais saberá de você. Largo a bolsa no sofá e sorrio satisfeita pelo peso de que me livrei. Você era um monte de nada que pesava tanto quanto o corpo dele sobre o meu. A dor de te sangrar e te deixar morrer me fez cócegas, como se uma pena fosse esfregada na minha barriga.

Quanto ao sei pai, nada sei dele. Voltou para as sombras de onde surgiu e quase nada me lembro do rosto dele. Só sei que era idêntico ao seu.

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Texto para a Oficina Colaborativa do Estranho Mundo, do Eric Novello.

Mudei de assunto e salvei meu cachorro

Poucos dias são tão agradáveis quanto aquele. O sol coloria a grama de dourado, então o chão parecia feito de ouro dançante – o tipo de coisa que só acontece quando se mora num sítio. Eu não sei qual era a celebração, mas lembro de correr e brincar durante boa parte da manhã.

Ela veio para o almoço. A Pequena N., sempre cheia de recursos para se destacar. Os cabelos arrumados, tão claros que machucavam os olhos, caíam em cachos definidos sobre a camisa branca. A calça jeans e os sapatos eram novos, uma péssima escolha para quem passaria a tarde no meio do mato.

Toda a pompa da Pequena N. me deixou apreensivo. Tudo era tão falso nela – seu sorriso, seu jeito de caminhar, seu interesse em mim – que ela parecia fora do lugar, como os efeitos especiais de Chaves. Pra piorar, ela me deu um presente, uma pequena bolsinha de papel com um duende de plástico dentro. Assim que eu agradeci, uma das pernas do duende se soltou.

Comemos, conversamos, caminhamos. Durante todo o tempo, a Pequena N. se desmanchava em elogios para mim. Vai ver, ela era legal e tudo não passava de desconfiança boba, certo? Nem toda história precisa de uma vilã, afinal. Acho que quando estou de estômago cheio, as pessoas parecem menos desagradáveis.

Foi apenas no dia seguinte que notamos: Juninho, nosso cachorro, não estava comendo. Nem as sobras do churrasco que meu pai oferecia eram capazes de animá-lo. Com dificuldade, ele engolia a água que minha forçava com uma seringa. Não havia fratura, não encontramos ferimentos, nenhum pingo de sangue pelo chão. Picada de cobra? Gastrite (cachorro tem gastrite?)?

Juninho, um cachorro branco de orelhas marrons, deitado ao sol.

“Meu melhor amigo canino está morrendo”, eu pensei. Me senti horrível, assustado, um pequeno grande inútil. Nenhuma criança deveria ver seu cachorro ser carregado, mole e fraco, por não conseguir andar nem para salvar a própria vida – no caso, o Juninho estava na garagem, encolhido BEM na frente de uns dos pneus do carro.

Por alguma razão, eu liguei o repentino mal estar do cachorro às palavras carinhosas que a Pequena N. gastou comigo. As duas situações pareciam Photoshop Disasters da minha vida, um jogo dos sete erros descarado. Pensei em ligar para a Pequena N. e dizer que sabia de tudo (“descobri que você é uma bruxa maligna e que enfeitiçou meu cão”), só que essa não era uma ideia muito efetiva. Salvar meu amigo era mais importante do que condenar a malvada.

Foi aí que eu fiz o que precisava ser feito: engoli a dor e o medo, me aconcheguei ao lado do Juninho e contei uma piada. Uma vez que piada não é o meu forte, mudei para histórias engraçadas da minha vida, coisas que me divertiam, toda e qualquer lembrança minimamente prazerosa. Enquanto fiquei ali, entendi que nada é mais difícil do que fabricar um sorriso quando toda a matéria-prima é de lágrimas. Mas eu tinha que fazer. Por ele.

A conversa terminou tarde. Mantive o sorriso na marra, até a hora de dormir. Eu sabia que chorar significaria assumir a derrota. Aquela poderia ter sido nossa última noite de papo, então eu mudei de assunto e fiz com que fosse um dos nossos melhores momentos.

No outro dia, bem cedinho, acordei pra ir pra escola. Meus pais observavam Juninho comer, beber, andar até o pequeno pedaço de gramado já alcançado pela luz do sol. Vencemos a Pequena N., e ela nunca mais nos visitou.

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O texto foi publicado anteriormente na minha newsletter, a Pequena Bagunça. É só clicar e assinar 😉

Para sempre

Sempre ouço sua voz nas noites difíceis. Com atenção, posso até sentir seus dedos nos meus cabelos, cachos formados e desfeitos por suas mãos. Exatamente como você fazia quando queria me acalmar e me fazer acreditar que toda tempestade era passageira.

…Aquela não foi…

Uma noite como todas as outras. Cada passo seu soava como tempos de paz. Eu me deixei levar por sua certeza, todos nós o fizemos. Até que os sons lá de fora ficaram tão altos que seu sorriso não foi capaz de abafá-los.

Eu pisquei e se fez o silêncio. Como desejei aquele silêncio. Mas eu nunca mais ouvi seu riso, nem quando você me visita e me acalenta. Após uma fração de segundo, ou qualquer outro tempo curto demais para que eu pudesse te alcançar, nossos mundos se desalinharam para sempre. Porque é para sempre, enquanto eu viver, que me lembrarei do seu corpo caído, banhado em sangue.

Seu semblante manteve a candura e a força que te definiam, e é assim que você me visita. É assim que me lembro de você quando ouço a sua voz.

Falar antes de gritar

Eu tateava o quarto escuro à procura da minha voz. Por vezes, minha mão esbarrava em chaves falsas e pesados potes vazios. Nada. Devo ter me cortado numa porção de momentos, sem chegar a sangrar.

Aos poucos, meus olhos se acostumaram e pude distinguir umas sombras. Vi as paredes e as janelas, mas não encontrei nenhuma porta. Uns fiapos de lua escapavam, provocando danças macabras com minha rotina. Nada que pudesse me ajudar a reconhecer os rostos nas fotografias que escrevi.

Rastejei para fora da cama, os joelhos preguiçosos demais para me sustentarem. Eu sabia que de nada adiantaria o pânico, já que gritar era impossível. Eu precisava encontrar minha voz. E ela estava perdida ali.

Em certa altura, pensei em um bom lugar para se guardar a voz. Não como uma lembrança, mais para a imaginação. Se eu não via o quarto com nitidez, poderia recriá-lo em minha cabeça até conhecer o melhor esconderijo.

Esconderijo! É isso.

O quarto estava escuro porque minha voz estava escondida, não só perdida. Continuei rastejando e dando cabeçadas em tudo o que bloqueava meu caminho sem que eu pudesse desviar. Estava, em especial, sem a certeza do acontecido: quem escondeu minha voz? Fui eu? Foi alguém com interesses em me calar? A própria voz teria entrado numa brincadeira de pique-esconde sem saber a saída?

Minhas mãos descobriram puxadores e eu abri gavetas. Algumas escaparam e me empurraram para trás; outras, emperradas, não cederam além da metade. Foi ali que me enfiei.

Senti coisas tão antigas, que se desfizeram instantaneamente. Outras eram pesadas, estavam trancadas e eu me arrependi de ter deixado as chaves do lado de fora. Precisei segurar a respiração para não me afogar no mofo e na poeira. Assim que as luzes se acendessem, eu faria uma faxina no lugar.

Devo ter procurado por muito tempo. Sequer percebi que já engatinhava e que sol ia alto. Demorei mais para tirar a noite dos olhos do que do quarto.

Há luz, há voz, pensei. Tentei falar, sem ainda emitir qualquer som. Escorei o corpo confuso e pousei as mãos cansadas no colo. Correu, morreu, fugiu, foi roubada. De certo, foi esmagada sob a velharia de medo e remorsos que acumulei ao longo dos anos e pifou.

Foi quando percebi um movimento no espelho. Era eu, mas não me reconheci. Acenei, mas não me vi.

O quarto parecia arrumado e eu conversava com meu reflexo, os dois lados confiantes. Estava ali o tempo todo.

Aquele que sou

Conheci meu irmão na guerra. Não é o melhor dos cenários para se conhecer alguém, mas não foi escolha nossa. Nunca é.

Eu não sei quem eram os oponentes, meu irmão nunca me contou. Nem ele sabia, eu acho, Éramos duas crianças, ele pouca coisa mais velho. A única certeza era da brevidade dos nossos encontros, das palavras (apenas as essenciais) ditas com muita pressa.

Ele me estendeu a mão, e caminhamos.

Tenho a rua dele bem nítida na memória. Queria saber desenhar para retratá-a, pois qualquer tentativa de descrição verbal não é suficiente. Uma rua com casinhas pequenas e idênticas no meio do nada, como se a imaginação as tivesse criado, apenas elas. Sem cercas visíveis. Tudo calmo demais.

Por conta da guerra, talvez, a rua estava vazia. O único destaque era a marca de pneus no chão. Todo o resto era neve ou cinzas, eu não sei precisar a diferença. Uma palidez fria e silenciosa envolvia as casinhas, como se aquele espaço fosse um pedaço esquecido num livro de colorir.

A casa dele era a primeira à esquerda. Um cubo mínimo de paredes sem acabamento e papelão nas janelas. Apesar do cenário desolador, meu irmão sorria.

Ele bateu à porta. Um casal amedrontado abriu uma fresta para conferir quem visitava. Sorriram para meu irmão e mostraram-se de corpo inteiro.

“São meus pais.”, ele disse.

“Entre, filho. Você sabe que não pode ficar andando por aí, é perigoso.”

“Eu já vou. Vejam quem eu encontrei!”

Fugi.
__________

Conheci meu irmão na guerra.

Perguntei como era possível ele ser meu irmão, se nossos pais não eram as mesmas pessoas. “Eu não sei, mas somos irmãos. Irmãos gêmeos.”

Eu tinha quatro ou cinco anos, longos cabelos cacheados e uma grande tendência ao sobrepeso. Era grande para a minha idade, chorava à toa e não levava jeito pra coisa alguma.

Meu irmão era mais velho (devia ter uns 11 anos) e mais alto. Ele tinha a pele de um branco tão pálido quanto o da rua, cabelos negros, lisos e bem cortados. Era magro e irradiava segurança. Muito parecido com o pai dele.

Na minha cabeça, não era daquele jeito que irmãos existiam: em casas diferentes, com pais diferentes. Gêmeos tão distantes. Apenas nossos nomes eram iguais e foi por isso, creio eu, que eu confiei nele e na sua história.

“Eu fui ‘morrido’ pela polícia ‘minitar’, mas voltei pra te encontrar. Eu preciso cuidar de você.”

Foi o que ele me contou. Ou foi o que eu entendi, assim mesmo, errado. Mas fez sentido.
__________

Depois dos anos iniciais, fiquei um tempo sem meu irmão. Pensei que ele tivesse virado uma história do passado, páginas amareladas da minha vida que eu não visito mais. Invenção infantil para compensar a solidão.

Eu estava enganado.

Meu irmão sempre esteve comigo durante a guerra. Sempre está. Ele repete o gesto de segurar minha mão e caminhar comigo durante as batalhas mais inesperadas. A leveza com que ele encara as lutas me acalma e me faz continuar.

Conheci meu irmão na guerra porque era o único cenário possível para o nosso encontro. Uma rua sem som e sem cor, nossas mãos grudadas e um sorriso, a maneira que ele encontrou para me dizer que eu precisava preencher tudo aquilo e que ele me ajudaria, mesmo que sangrasse.

E nós permanecemos juntos. Eu existo.

Aurora

A Madrugada soltava seus tentáculos e assustava os desprevenidos. Quanto mais dominava o espaço, mais poderosa se sentia. Crescia rapidamente, faminta de toda luz que pudesse engolir.

-É preciso fazer alguma coisa. Estamos nos encaminhando para uma Era Fria.

-Não podemos interferir. A Madrugada é tão necessária quanto qualquer um de nós. Ela deve parar sozinha.

-E vamos esperar que ela se alimente a seu bel prazer? Nada restará até o fim da Madrugada.

Enquanto isso, jovens desavisados ou aventureiros arriscavam-se à sombra. Sozinhos ou em grupo, com ferramentas ou com as mãos livres, enfrentavam o desconhecido. Poucos eram aqueles que, pegos de surpresa, cobriam-se com o manto do sono e fingiam dormir para salvarem suas almas. Desses, quase nenhum acordava.

A Noite reclamava resistência. Não mais acreditava em vilões ou mocinhos, mas sabia que agir era crucial naquele momento. Temia não poder acalmar corações e inspirar canções com sua face estrelada e seu pingente de lua. Havia espaço para todos os tempos e tempo para todas as fases; quando somente um dominava, tudo era consumido até o caos desigual.

Seus Guerreiros surgiam de todos os cantos, excitados com a sua chegada. Defendiam seu território para que os outros pudessem descansar. Ato contínuo, a Noite liberava seu abraço e as pessoas entregavam-se aos sonhos.

Os desesperados, entregues à sua sobriedade, passavam a acreditar que talvez houvesse um caminho para a solução. No entanto, era a Noite quem agora se via num conflito violento, cuja resolução dependia de uma luta dolorosa. Um embate batia à porta e nada a convenceria a recusá-lo. Sua perigosa irmã, que também era uma parte sua, precisava ser contida.

O Crepúsculo tentava manter sua convicção, apesar do crescente desejo de abandonar a discussão. Entre duas Grandes Irmãs, sentia-se esmagado; a crise acentuava seu esgotamento.

-Eu penso em desistir. Já tivemos conversas, fizemos ameaças…

-Você não pode desistir. Falta-nos encontrar uma forma de equilíbrio.

-Não há equilíbrio com a Madrugada! Ela tem uma sede viciada, cumulativa. Só quer mais, mais e mais. A boca mastiga a cauda, se assim a alimentar em dobro!

No fundo, o Crepúsculo sabia de sua importância. Ajudava os olhos a se adaptarem à chegada da Noite e, a seu modo, mantinha os ânimos apaixonados. Existia como o sorriso que ligava os extremos da face do tempo, a transição suave que embeleza e matura os seres.

Sua juventude era um breve espetáculo de esperança. Em sua confusão e singularidade, cores apareciam sem início nem fim definidos. Aceitaria, contudo, ceder seu momento à Madrugada, se assim fosse preciso. Tudo o que desejava era evitar mais ferimentos para sua fusão.

A Tarde vinha quente mais uma vez. Sua presença exuberante quase sufocava; teimava em distribuir calor e luz, mesmo quando não era solicitada. Sentia que sua rejeição era causada, em parte, pelo poder de influência da Madrugada.

Por vezes, levantava a voz para acalmar a Noite, quase a ponto de anular o Crepúsculo. Permanecia mais do o esperado, teimosa, intensa. Beirava o insuportável. No auge de sua irritação, quando o sangue fervia quase sem controle, derramava pesadas lágrimas para limpar as feridas que causou e devastar o que não conseguia resolver.

Não era fácil para a Tarde enfrentar a Madrugada, sua gêmea oposta e perfeita. Armava uma estratégia cautelosa, baseada na coexistência. Afinal, sem o frio, ninguém entenderia a importância do calor. Impor um limite e esconder a Madrugada com luzes artificiais não seria benéfico.

A Manhã chegava preguiçosa, bem devagar. Parecia sonolenta, talvez de ressaca. Ficava cada vez mais fraca, após os usos abusivos a que era condenada. Sua energia era famosa e trazia benefícios bem reconhecido para os que tinham medo da Madrugada. Algumas pessoas ambiciosas, no entanto, sintetizavam a Manhã em pequenas cápsulas, quase vazias de significado. Eram vendidas como a cura mágica para um problema pouco compreendido.

O que acontecia, de fato, era o torpor. Com os corpos relaxados e pouco resistentes, as pessoas não percebiam o perigo se aproximar. Quando o efeito passava, procuravam por outra dose, qualquer que fosse o preço. Deixavam de ser alvos atraentes porque já não eram de verdade, integrais.

Sem defesas, a Manhã via seu tempo escorrer dia após dia. Mal conseguia oferecer resistência e recorria com frequência à Tarde, em busca de empréstimos e ajuda. Jamais abandonava a esperança, embora parecesse tão anestesiada quanto quem a usava sem critério. Seu maior medo era não aguentar mais, condenando uma parte do dia às garras da Madrugada.

-Ela é nossa melhor arma.

-Isso não é uma guerra. Não podemos usá-la desse modo.

-Deixemos que ela decida sozinha!

Aurora ouvia a discussão ao longe, enquanto mantinha os olhos cerrados. Parecia frágil demais até para argumentar. Tinha permanecido intocada até o momento, entre muita especulação e pouca explicação.

Mesmo quando a Madrugada atacava com toda força, saqueando as fontes de calor que encontrava, a Aurora trazia um dia novo. Seus pequenos passos, quase imperceptíveis diante da Irmã poderosa, eram confiantes. Sem esforço, ela deixava o espaço livre para a Manhã.

Após alguns momentos de expectativa silenciosa, levantou-se.

-Eu vou.

E quando a Madrugada alcançou o local da discussão, sentindo-se vitoriosa, Aurora saiu, carregando apenas a certeza de que o amanhã precisa acontecer.

Um nome

Eu ainda não entendia bem o que tinha acontecido, quando me entregaram papel e caneta. “Perdão, doutora, é o que temos.” Doutora? Minha memória falhava, tudo aquilo parecia um engano e eu não escrevi.

O sono vinha com frequência. e desconfiei que me dopavam. Eu não sabia de onde vinham aquelas conclusões, como se uma parte das explicações estivesse bloqueada. Eu apenas sabia e teria que me virar com aquilo. Enquanto acordada, meu corpo era só dor.

Não sei precisar quantos dias tinham se passado até chegar o médico. Um homem alto, claro, com olheiras profundas e cabelos grisalhos. Eu não sei por que o chamei de médico – talvez sejam esses padrões de beleza que nos fazem respeitar mais um tipo de gente do que outro. De qualquer forma, eu queria saber onde estava e o que fazia minha garganta doer tanto. Segurei a caneta para chamar sua atenção.

Olá, doutora. Sente-se bem para conversar?”

Eu o olhava sem entender. Tinha muitas perguntas e não conseguia escolher a primeira.

Estou doente?”. Foi o que considerei mais importante no momento.

O suposto médico deu um sorriso que transformou todo o seu rosto em uma máscara de abatimento. Co delicadeza, ele se sentou aos pés do leito em que eu estava e colocou as mãos sobre os próprios joelhos, sem desviar os olhos dos meus.

Você não está doente, mas precisa de cuidados. Vamos falar sobre isso depois, pode ser? Agora, seria bom que você escrevesse seu nome para mim.”

Meu nome. Nem pensei em tentar lembrar.

Se tiver dificuldade, podemos deixar para outro dia.” O médico ensaiava me deixar, decepcionado com o meu silêncio e minha confusão. Espere. Sim, eu sabia meu nome. O fato é que, se aquela pergunta era posta, meu estava deveria ser bastante grave.

Trêmulas, as letras surgiram: AGATHA. Por alguma razão, ver meu nome escrito foi como deixar um mergulho no último momento de fôlego. Eu existia e não me lembrava.

O que tenho lido

Alguns minutos antes da Virada pra 2016, eu estava montando minha lista de Desafio Literário. Peguei ideias aqui e ali e contei 62 itens. Seria fácil de completar se tantas surpresas não tivessem surgido na minha vida nesses primeiros cinco meses do ano.

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Por falta de tempo e concentração e por ainda sofrer de ressaca pós-Trilogia Millenium, acabei me cercando de contos. Busquei indicações, desenterrei leituras atrasadas, descobri muita gente boa. O legal do conto é que consigo terminar de ler no percurso casa-trabalho-casa e facilita o trabalho de manter o foco.

Nesse sentido, o Wattpad ajuda – e muito! Eu recuperei minha lista de leitura de lá (tava esquecida, tadinha) e encontrei muita coisa bacana. E dá pra ler offline também, que é pra não ter desculpas mesmo.

Quando Fadas Morrem foi minha leitura mais recente. A Daniele levou problemas do nosso mundo para uma realidade com fadas e trabalhou a relação desses seres com os humanos. O conto confirma minha teoria de que a culpa é nossa e sempre será. Achei lindo, muito envolvente.

Um pouco antes, li Mixtapes Vol. I, da Mary. Trata-se de uma breve coletânea de contos inspirados em músicas diversas. Cara, que coisa linda. A Mary tem um jeito incrível de escrever sobre adolescentes, faz a fase parecer bem mais agradável e otimista do que eu me lembro. Tive que ler alguns mais de uma vez, de tão encantado que fiquei.

Falando em encantamento, Alice no Fim do Mundo é o conto que eu passei a recomendar pra todo mundo que conheço. A Soraya escreve de uma maneira tão leve e segura. Não é a primeira vez que cito o conto dela por aqui – e não será a última! Apenas leiam, aproveitem, divirtam-se!

Pausa rápida: repararam que só indiquei mulheres até agora? 🙂

Bem, continuando. Parei de enrolar e comecei a ler a Trasgo, uma revista nacional que publica contos de fantasia e ficção científica. Pirei! Estou lendo em ordem aleatória e (re)descobrindo muita gente boa. Grande parte dos meus momentos criativos dos últimos tempos surgiu após ler a revista – são tantas vozes e estilos inspiradores!

Multiplicidade encontrei também em Neon Azul, do Eric. O livro é construído com várias histórias que dialogam e se entrelaçam. Acaba virando um romance com diferentes protagonistas, depende de que parte você está lendo e em quem vai acreditar. A junção real-fantástico é menor do que em EADB, então recomendo para quem não está sabe por onde começar a ler fantasia.

Pra finalizar as recomendações de contos, indico Inapto, do Pôlo. Já li, reli, re-reli e ninjas cortadores de cebola me acompanharam em todas as vezes. O estilo é direto e a história se desenvolve sem segredos; saber que a ficção denuncia a realidade não faz da segunda um lugar mais agradável. Além de amigo, crítico e membro do Clube de Vegetarianos Fãs de FC (ou seriam Fãs de FC Vegetarianos?), Pôlo está na lista de escritores que me deixam sem palavras.

Por causa da fluidez do gênero, também li poemas. Pra ser preciso, li Poemas Completos de Alberto Caeiro em dois dias. É fascinante! Não é à toa que Fernando Pessoa encontrou em Caeiro seu Mestre.

Comecei a ler três romances, que é pra ver se a ressaca me abandona: Paula (Isabel Allende), Snow Crash (Neal Stephenson) e The Long Way to a Small Angry Planet (Becky Chambers). Ainda estou muito no início, mas acho que agora vai.