Algumas ideias para ajudar sobreviventes de agressão*

O texto a seguir foi traduzido e adaptado para o uso de um coletivo feminista interseccional. As zines originais podem ser compradas aqui.

*Usamos sobreviventes por entender que situações de assédio colocam vidas em risco e buscar ajuda é uma maneira de enfrentar e SOBREviver. Por agressão, reconhecemos suas diversas formas: física, emocional, psicológica, moral, financeira, sexual.

Mulher de costas, olhando para o mar.

Se você quer ajudar uma pessoa sobrevivente de violência, saiba que não há uma maneira única de agir… apenas seja você mesmo. O processo de recuperação não segue um “programa de doze passos”. Esses processos são únicos como para cada indivíduo, porque estão inseridos num contexto também único de vivências.

A seguir, apresentamos algumas ações que esperamos que as pessoas fizessem (ou não!) para serem solidárias nos estágios iniciais dos processos de recuperação após agressões. Estamos falando sobre nossas experiências e necessidades pessoais, e não afirmando que toda sobrevivente vai desejar as mesmas coisas.

Provenha um espaço seguro para eu conversar sobre a agressão sem pressa nem distrações.

Quando eu falar sobre a agressão, acredite em mim! Não ser acreditada – especialmente quando a agressão foi cometida por alguém conhecido – é um dos maiores medos das sobreviventes.

Deixe-me expressar todo meu pacote de emoções sobre a agressão: raiva, tristeza, medo etc. Escute em silêncio, não interrompa, não grite ou não interponha seus sentimentos – deixe-me ter o espaço para contar a história.

Deixe-me usar os termos que considerar mais apropriados para descrever a agressão, por exemplo, deixe-me usar “estupro” para explicar a gravidade do assédio mesmo que não tenha acontecido “penetração vaginal”.

Deixe que eu defina o que na agressão foi mais doloroso; Não pressuponha que um aspecto foi “pior” do que outro. Isso inclui não dizer coisas como “Isso é horrível!” quando eu disser o que aconteceu especificamente. O que você considerar que     foi horrível pode não ter sido grande coisa pra mim. Ou algo que você achar que “não foi tudo isso” pode ter sido o que mais me     feriu. Deixe que eu decida isso.

Não diminua o assédio. Deixe-me definir o que aconteceu com minhas próprias palavras.

Seja paciente. Não me peça para dar detalhes que não me sinto confortável em dizer.

Mantenha a culpa com quem ela pertence: o agressor. Não pergunte coisas do tipo “Por que você estava lá/naquela situação?” ou “Você estava bebendo?” ou “Você não sabia que era perigoso?”. Esse tipo de pergunta implica que eu, de alguma forma, fui responsável pela agressão. Além disso, por que eu estava onde estava não é a questão.

Não subjugue meus sentimentos de medo, mas considere situações que sejam assustadoras – voltar para casa por um lugar escuro, voltar ao lugar da agressão por um motivo qualquer. Ofereça sua companhia porque eu gostaria disso, não porque vai me proteger.

Foque em coisas positivas. Ajude-me a perceber tudo o que fiz para permanecer em segurança, e tudo o que fiz para sair/terminar a agressão ao invés de se focar no que o agressor fez para mim. Pergunte do que preciso – companhia, segurança, boas refeições etc.

Deixe-me saber que tenho sua ajuda contínua e ativa. Se você quer ajudar, saiba que posso te procurar no futuro pelo seu apoio. Sabendo disso, crie um ambiente onde eu possa falar do assunto se eu quiser. Por exemplo, uma lanchonete tranquila é mais adequada do que uma festa ou um show.

Permita que eu tenha todo o tempo para ficar bem – não me apresse. A melhora vem em ciclos, então posso me sentir bem por um tempo e depois me sentir não muito bem depois. Aceite essa variação e não pense que eu “já” deveria ter superado.

Consinta que eu fique só se precisar.

Trabalhe no que possa trazer melhoras. Foque em qualquer coisa que vá me fazer sentir melhor. Ofereça sua ajuda para trazer alívio. Existem diversos modos de fazer isso: aconselhar a deixar um trampo que é estressante e perigoso, procurar vias legais etc.

Ofereça me ajudar a encontrar recursos que irão me auxiliar a lidar com o assédio, como grupos de apoio, livros, sites ou outros recursos de informação, aulas de auto defesa etc.. Contudo, por favor, deixe que eu escolher quais recursos usarei (ou seja, não me diga o que fazer).

Ofereça seu auxílio se e quando eu quiser confrontar o agressor, mas não comece isso!

Não enfrente o agressor sem minha permissão!

Não comente o que eu disse sem minha permissão. Por favor, respeite minha privacidade, a menos que você esteja pedindo conselhos sobre como minha história te afetou ou para ter recomendações de como ajudar.

Permita que eu comece o contato físico por um tempo. Não assuma que contato físico, abraços etc., serão reconfortantes. Pode ser que eu prefira evitar sexo ou qualquer toque, mesmo de quem eu conheço e amo.

Entenda bem minhas dicas não-verbais. Se você me sentir distante, me deixe descobrir o que estou sentindo/o que quero.

Seja paciente. Ser paciente se aplica a diversas situações e interações. Peça explicação se não entender minhas atitudes.

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Se você quiser segurar minha mão
Para não temer enquanto caminhamos

Venha, segure

Eu não vou te puxar, eu não vou te empurrar
Eu não vou te forçar a nada
Você só precisa querer caminhar comigo

E o fazer

Não posso te obrigar a pensar como eu penso
A agir na mesma urgência

Posso apenas te convidar, como se fosse uma dança
Se você para, eu vou tropeço
Se você desiste, eu posso cair

Se você me soltar, tudo bem
Eu posso continuar

Repare na minha respiração bagunçada
Eu corri e ralei para estar aqui

Algumas ondas pareciam altas demais para mim
Eu continuei, mesmo assim
Tomei uns caldos, tive medo
Pensei em pegar carona em um barco
O barulho do motor não me deixava dormir

E, se eu caísse, poderia até me matar
A única ajuda que eu poderia ter
-e tive-
foi de quem nadava comigo
e se dispôs a me ensinar

Se você quiser, eu te ensino
Eu não vou te soltar

Só não garanto que possa te carregar