Somos todos… ?

Enquanto andava, a dor nas costas o consumia. Ele sentia que carregava o peso de todas as estrelas.

De grande que era, chamava a atenção. Ninguém desviava os olhos quando ele chegava ou passava, onde quer que fosse. Logo, os cochichos surgiam, os risos, os dedos incriminatórios.

Ele se olhava, quase sem se mover. Procurava o que poderia estar errado. Não encontrava. Era sempre a visão dos outros.

No ônibus, apesar de adorar os lugares altos, procurava um assento no fundo para não ser notado. Contudo, antes do primeiro farol, alguém o via e o culpava de ter fechado as janelas ou ter causado o trânsito. Envergonhado, tentava se esconder atrás do celular, mas as vozes cresciam e entravam até na rede. Amanhã, escolheria o trem – cheio – ou o carro – mais trânsito – ou a bicicleta – é lazer, não para transporte.

Arrependeu-se da ideia de ficar em casa, antes mesmo de seu surgimento.

As coisas não estavam boas no trabalho também. A dor na coluna era, em parte, culpa da cadeira que usava. Poderia gastar com academia? Melhor não arriscar. Havia uma crise no país e, segundo diziam especialistas e populares, ele era o responsável. Concentrou-se nas tarefas do dia.

Voltava a pé para casa, depois de o sol ter se despedido. Mal podia ver onde pisava. Em uma ou duas ocasiões, tropeçou e praguejou. A cada passo que dava, mancando e irritado, buzinadas surgiam para lembrá-lo quem era o culpado. De nada adiantava reclamar, ele nunca seria esquecido.

Pensou em mudar, se refazer por completo. Enxugou o suor que escorria pelas costas, limpou suas pegadas, planejou uma revolução. Por um breve período, deu certo. Ganhou adeptos, mas acumulou inimigos. Logo, já não os reconhecia. Aliás, não podia nem dizer se reconhecia a si mesmo, tantas foram suas mudanças, influências e contradições.

O único fato imutável era que os comentários não findavam. Na verdade, pareciam até mais raivosos.

Em desespero, deu um soco no espelho para evitar ver a imagem dos problemas. O resultado foi seu rosto, o retrato do erro, multiplicado e ainda o encarando. O povo não pode fingir não ser o povo.

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Beijos no Chão

Capa de Beijos no Chão, de Dani Costa Russo

Na história da Cinderela, quando o Príncipe descobre que ela é a dona do sapatinho de cristal, caminhamos para o final feliz. Há um casamento e o tão conhecido “viveram felizes para sempre”, um resumão da suposta harmonia conjugal.Em Beijos no Chão, romance de estreia de Dani Costa Russo, a protagonista não tem nome, mas sua história poderia ser a continuação de Cinderela. Uma jovem estudante de jornalismo é surpreendida pela paixão de um homem rico e solitário. O relacionamento segue sem grandes pretensões por parte dela, até que uma gravidez inesperada leva ao casamento. Mas o conto de fadas não se confirma.

Desde o início do livro, a violência doméstica está explícita. Ou melhor, as violências: agressões físicas, verbais, psicológicas, morais. A protagonista cria rituais para se defender, nem sempre com sucesso. A brutalidade cíclica, marca de relacionamentos abusivos, aprisiona a vítima ao seu carrasco.

A narrativa não segue uma cronologia linear, o que deixa tudo mais perturbador. Alguns episódios de violência chegam a acontecer em público, sem que as testemunhas impeçam. O ditado “em briga de marido e mulher, não se mete a colher”, além dos privilégios na amizade com o agressor, cria cúmplices apáticos. Importante ressaltar que o feminicídio e a violência doméstica são, muitas vezes, diminuídos e disfarçados, como documenta Amelinha Teles em seu livro Breve História do feminismo no Brasil:

“No Brasil, fazia-se crer que somente os homens negros e pobres espancavam as mulheres, devido ao alcoolismo ou à extrema pobreza.”

Eu me incomodei um pouco com a estrutura dos diálogos e pensamentos das personagens. Por mais que o livro retrate uma classe média alta, alguns trechos ficaram pouco naturais ou muito quebrados por verbos declarativos. ou eu sou chato pra caramba pra reparar nesse tipo de coisa

Retângulo roxo com espirais em preto e a pergunta "Por que ler?"

As palavras têm poder, e Beijos no Chão é uma ótima amostra disso. Desde que conheci a Dani, no Clube de Escrita mediado pela Jarid Arraes (outra autora incrível), me encantei pela sua escrita – e pela pessoa alegre e articulada também. Seus textos para a oficina sempre me passaram o sentimento de ler um clássico, e seu livro me causa a mesma sensação. É uma voz literária marcante e agradável.

Embora o tema não seja fácil, a violência na história não é banalizada; tudo é trabalhado com cuidado e respeito. De qualquer forma, é válido avisar que a leitura pode despertar gatilhos (eu mesmo tive mal estar).

Beijos no Chão é uma publicação independente, resultado do esforço coletivo de uma galera muito firmeza que acreditou na Dani e na importância da obra. Leia mulheres para que mais mulheres escrevam e protagonizem histórias.

Mulher ajoelhada arrumando as franjas de um tapete

Site da autora
Página do Facebook
Ligue 180 – Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres

Para sempre

Sempre ouço sua voz nas noites difíceis. Com atenção, posso até sentir seus dedos nos meus cabelos, cachos formados e desfeitos por suas mãos. Exatamente como você fazia quando queria me acalmar e me fazer acreditar que toda tempestade era passageira.

…Aquela não foi…

Uma noite como todas as outras. Cada passo seu soava como tempos de paz. Eu me deixei levar por sua certeza, todos nós o fizemos. Até que os sons lá de fora ficaram tão altos que seu sorriso não foi capaz de abafá-los.

Eu pisquei e se fez o silêncio. Como desejei aquele silêncio. Mas eu nunca mais ouvi seu riso, nem quando você me visita e me acalenta. Após uma fração de segundo, ou qualquer outro tempo curto demais para que eu pudesse te alcançar, nossos mundos se desalinharam para sempre. Porque é para sempre, enquanto eu viver, que me lembrarei do seu corpo caído, banhado em sangue.

Seu semblante manteve a candura e a força que te definiam, e é assim que você me visita. É assim que me lembro de você quando ouço a sua voz.

Tenha coragem

pés soltos de alguém sentado no alto de um prédio

Cheguei ao trabalho com o cabelo pintado – nada de muito diferente, um ruivo desbotado – e ganhei um bilhetinho de uma colega: “Eu faria isso se tivesse coragem.” Foi a mesma coisa quando deixei bem curtinho, pintei de cores extravagantes, raspei… Cabelo cresce, e amanhã será outro dia.

O bilhete é algo recente, porém nada inédito. Em outras ocasiões, eu já ouvi que pessoas dizerem que tomariam determinadas atitudes se tivessem “coragem”: deixar de comer carne, largar um emprego público, abrir o relacionamento, sair da casa dos pais e morar em outra cidade. São decisões que tomei e que me contemplam, mas não são modelos de uma vida mais interessante.

Sinto-me muito estranho quando alguém me parabeniza por essa suposta bravura. Eu sou confuso, medroso e do tipo que tem insônia por lembrar de um vacilo que dei em 1996. A diferença é que algumas das minhas escolhas são incomuns, por assim dizer. Recebo muito mais olhares de desaprovação ou repulsa do que tapinhas nas costas amigáveis.

Longe de ser um exemplo de autenticidade, eu deixo migalhas de pão pelo caminho pra saber como voltar. Acredito que uma pessoa corajosa mesmo não faça isso. Contudo, eu tenho é medo de uma vida baseada no futuro do pretérito, daquele assombroso arrepender de não ter feito. Por acreditar que só se vive uma vez, a melhor hora é agora.

Então, não vou dizer que todo mundo deveria ter um moicano verde limão. Cada pessoa tem suas vontades e conhece seus limites. Só me arrisco a sugerir que tenham coragem, ou mais coragem. Nem sempre a grama do vizinho é mais verde e não há nada de errado com uma grama desbotada.

Coisas que me fazem feliz (e não são coisas)

Vi lá no Momentum Saga , pra variar, não resisti!

Duas mulheres deitadas e sorridentes sobre o capô de um carro antigo

  • Escrever
  • Ler
  • Brincar com o Tomaz (o gato que me adotou)
  • Estar perto de pessoas queridas
  • Abraços!
  • Descobrir uma série ou filme bacana
  • Tomar banho com as luzes apagadas
  • Mudar os móveis de lugar e não saber andar pela casa depois
  • Comer
  • Cozinhar
  • Colorir (a casa, o cabelo)
  • Ouvir música
  • Ver/saber que uma pessoa amada conquistou algo
  • Reencontrar amigos
  • Ser (positivamente) surpreendido
  • Dormir sem interrupções
  • Ganhar colo
  • Quando elogiam algo que fiz
  • Criar teorias da conspiração com o Thiago
  • Sentir que posso confiar em alguém
  • Passar um nível complicado de um jogo
  • Desbloquear conquistas de um jogo
  • Inventar pratos com a minha mãe
  • Ser abordado por gatos na rua

Falar antes de gritar

Eu tateava o quarto escuro à procura da minha voz. Por vezes, minha mão esbarrava em chaves falsas e pesados potes vazios. Nada. Devo ter me cortado numa porção de momentos, sem chegar a sangrar.

Aos poucos, meus olhos se acostumaram e pude distinguir umas sombras. Vi as paredes e as janelas, mas não encontrei nenhuma porta. Uns fiapos de lua escapavam, provocando danças macabras com minha rotina. Nada que pudesse me ajudar a reconhecer os rostos nas fotografias que escrevi.

Rastejei para fora da cama, os joelhos preguiçosos demais para me sustentarem. Eu sabia que de nada adiantaria o pânico, já que gritar era impossível. Eu precisava encontrar minha voz. E ela estava perdida ali.

Em certa altura, pensei em um bom lugar para se guardar a voz. Não como uma lembrança, mais para a imaginação. Se eu não via o quarto com nitidez, poderia recriá-lo em minha cabeça até conhecer o melhor esconderijo.

Esconderijo! É isso.

O quarto estava escuro porque minha voz estava escondida, não só perdida. Continuei rastejando e dando cabeçadas em tudo o que bloqueava meu caminho sem que eu pudesse desviar. Estava, em especial, sem a certeza do acontecido: quem escondeu minha voz? Fui eu? Foi alguém com interesses em me calar? A própria voz teria entrado numa brincadeira de pique-esconde sem saber a saída?

Minhas mãos descobriram puxadores e eu abri gavetas. Algumas escaparam e me empurraram para trás; outras, emperradas, não cederam além da metade. Foi ali que me enfiei.

Senti coisas tão antigas, que se desfizeram instantaneamente. Outras eram pesadas, estavam trancadas e eu me arrependi de ter deixado as chaves do lado de fora. Precisei segurar a respiração para não me afogar no mofo e na poeira. Assim que as luzes se acendessem, eu faria uma faxina no lugar.

Devo ter procurado por muito tempo. Sequer percebi que já engatinhava e que sol ia alto. Demorei mais para tirar a noite dos olhos do que do quarto.

Há luz, há voz, pensei. Tentei falar, sem ainda emitir qualquer som. Escorei o corpo confuso e pousei as mãos cansadas no colo. Correu, morreu, fugiu, foi roubada. De certo, foi esmagada sob a velharia de medo e remorsos que acumulei ao longo dos anos e pifou.

Foi quando percebi um movimento no espelho. Era eu, mas não me reconheci. Acenei, mas não me vi.

O quarto parecia arrumado e eu conversava com meu reflexo, os dois lados confiantes. Estava ali o tempo todo.

horizontal

Se você quiser segurar minha mão
Para não temer enquanto caminhamos

Venha, segure

Eu não vou te puxar, eu não vou te empurrar
Eu não vou te forçar a nada
Você só precisa querer caminhar comigo

E o fazer

Não posso te obrigar a pensar como eu penso
A agir na mesma urgência

Posso apenas te convidar, como se fosse uma dança
Se você para, eu vou tropeço
Se você desiste, eu posso cair

Se você me soltar, tudo bem
Eu posso continuar

Repare na minha respiração bagunçada
Eu corri e ralei para estar aqui

Algumas ondas pareciam altas demais para mim
Eu continuei, mesmo assim
Tomei uns caldos, tive medo
Pensei em pegar carona em um barco
O barulho do motor não me deixava dormir

E, se eu caísse, poderia até me matar
A única ajuda que eu poderia ter
-e tive-
foi de quem nadava comigo
e se dispôs a me ensinar

Se você quiser, eu te ensino
Eu não vou te soltar

Só não garanto que possa te carregar

].[

Mesmo eu, que amo a liberdade,
[e não conheço outra forma de viver, não consigo entender, não aguentaria]
tenho minhas prisões.

Pode ser falta de coragem, eu disse. Talvez seja pior.

Quem sabe, daqui a dois ou três anos, o ponto de partida seja outro. Seja aquela pensão tosca de beira de praia. Seja o desconhecido esperando para ser mais lugar do rastro que farei.
[ou faremos]
[ou fará]

Só não consigo imaginar como será quando o cansaço surgir, a saudade bater. São essas as minhas prisões.

Mesmo livres, as pessoas precisam chegar e sair; por enquanto, sou apenas os pontos.

[novembro, 2010]