shoo-shoo

queria te dizer uma coisa menos óbvia
do que:
“eu gosto de quando sua saia gira”
faz um balanço como os cachos do seu cabelo
acho até que nunca te vi de calça comprida

queria dizer que você é linda
linda, linda
o que também é óbvio
e eu queria te dizer algo além disso

dizer o quanto gosto da mistura que é sua voz
raiva com ternura
força com doçura
talvez seja seu sotaque
a companhia dos pássaros que se apaixonam por você
por todos os lugares bonitos onde você passa

eu ainda guardo seus pedaços
uma travessura
os cachos mais curtos, o sorriso tímido
a sua demora em se revelar
(eu sei, agora)
era para me preservar
eu não estava preparado para você
para toda a poesia que há em você

eu queria te mostrar algo bonito
onde não há nada bonito para se ver
não do tipo que te satifaz
eu não soube o que fazer
nada seria suficiente
eu não saberia escolher
ver
a mesma beleza que você

Anúncios

Depois do túnel do tempo

Gif de um relógio marcando 00:00 repetidamente

Olá,

Não repare nas olheiras, eu acabei de voltar de viagem. Deu pra notar que foi bem cansativa, né? Pois é, o desgaste emocional pode ser mais devastador do que o físico, às vezes. E pensar que eu me voluntariei pra viajar.

Eu nem sei direito como começar meu relato. Afinal, o que me chocou pode soar como canção de ninar para você. Mas fica difícil de entender o que nossas Conselheiras querem dizer com “o passado é o melhor professor” depois de tudo o que vi e passei.

Mais complicado ainda é acreditar que chegamos até aqui tão bem e criamos nossa essa noção de comunidade: nos respeitamos, nos cuidamos, nos ouvimos.

Fui para o século XXI, logo no comecinho, antes dos primeiros 20 anos. Que bagunça! Acho que sobrevivemos por teimosia – é a única explicação que encontro. Para todos os lados que olhava, eu via pessoas tristes, cansadas, reclamonas; instantes depois, essas mesmas pessoas ganhavam uma energia enorme para agredir quem não concordasse com elas. Como se discordar fosse razão para se iniciar uma guerra!

Guerras aconteceram, nós aprendemos isso nas aulas de História. Ir para aquela época e ver tudo de perto é assustador. Principalmente, porque só ficamos sabendo de parte dos conflitos. Essas micro-tretas entre indivíduos ou grupos de indivíduos também machucavam, deixavam feridas de complexa cicatrização e podiam levar à morte. Bastava usar a cor de camiseta errada.

Em algumas ocasiões, senti que estava dentro daquele livro que lemos na aula de Literatura, qual o nome mesmo? Ah sim! 1984. Os “inimigos” surgiam e eram trocados depressa; logo, ninguém mais sabia por que estava brigando, nem contra quem. O importante era brigar e manter assustadas as pessoas que não sabiam o que fazer ou não tinham pra onde ir. O essencial era provar que estava certo, isoladamente certo.

Até o lazer parecia ser proibido. Muita gente se divertia ao ridicularizar outras pessoas por causa de jeito, tipo físico, orientação sexual, cor, preferência musical, gênero. Uma vez que não existia um argumento de verdade, tudo virava piada. Um dado curioso é que rir ou expor não melhorava em nada a existência de quem o fazia. Era só para maquiar a mediocridade mesmo.

Uma coisa interessante: todo mundo estava sempre coberto de certeza, mas ninguém assumia a responsabilidade pelo que dizia ou fazia. Era sempre culpa de terceiros ou estava nas mãos de um salvador invisível que nunca chegava e passava um pano monstro pros erros humanos.

O mais perturbador, de fato, era que nós não poderíamos existir. Pessoas como nós eram assassinadas aos montes ou humilhadas até não suportarem mais viver. A nossa capacidade de resistir para chegar até aqui, construir nossas comunidades, compartilhar nosso conhecimento (entre nós e entre viajantes do espaço), nosso alimento, espalhar e basear nossas vidas em respeito é algo quase mágico.

Que bom que estamos aqui. Nossa resistência é a nossa existência.

As leituras de 2016 e os preparativos pra 2017

Óculos sobre livros antigos empilhados e a legenda "as leituras de 2016)

Em 2016, fiz uma lista absurda de leitura. Misturei desafios literários e terminei com um desafio de mais de 70 livros – totalmente influenciado e empolgado com os resultados do ano anterior.

Na preparação do lista, eu não considerei alguns detalhes: lançamentos de pessoas queridas, indicações imperdíveis de quem tem bom gosto (sempre confiro resenhas e avaliações no Momentum Saga e n’O Drone Saltitante) e livros inesperados que me convidam pra uma conversa antes de dormir. Acabei me perdendo aqui, me enrolando ali, e o saldo do ano foi de 80 livros lidos (17.416 páginas).

Pequeno avatar meu segurando uma caneca do Trainspotting, com a legenda "Julian já leu 80 de 108 livros" e uma barra de progresso indicando 74%.

Embora a meta de livros não tenha sido alcançada, em 2016 eu li muito, mas muito mais do que em anos anteriores. Passei a acompanhar novas newsletters, li mais blogs e descobri muita coisa boa no Wattpad. Outras leituras não contabilizadas no Skoob incluem pesquisas, beta reading, apostilas… De qualquer forma, termino o ano satisfeito com a minha bagunça literária e com o lembrete de que metas de leitura, páginas lidas etc. são desafios pessoais. Isso não me torna uma pessoa melhor ou algo do tipo.

Leia mulheres

Algumas (eu disse ALGUMAS) autoras que li em 2016:

  • Anna Schermak – Sentimentos à Flor da Pele
  • Bárbara Morais – A Ameaça Invisível
  • Becky Chambers – The Long Way to a Small Angry Planet
  • Caitlín R. Kiernan – A Menina Submersa
  • Camila Fernandes – Reino das Névoas
  • Cecília Garcia Marcon – Sentimentos à Flor da Pele
  • Dani Costa Russo – Beijos no Chão
  • Domenica Mendes – Sentimentos à Flor da Pele
  • Finisia Fidelli – Páginas do Futuro: Contos Brasileiros de Ficção Científica
  • Germana Viana – Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço (#1 e #2)
  • Isabel Allende – Paula
  • J. K. Rowling – Harry Potter (os 7 livros \o/)
  • Jaqueline Gomes de Jesus – Transfeminismo: Teorias & Práticas
  • Laís Manfrini – Não-Heroína
  • Lygia Fagundes Telles – Os Melhores Contos de Ficção Científica: Fronteiras
  • Margaret Atwood – O Conto da Aia
  • Mary C. Müller – Mixtapes
  • Melissa de Sá – Metrópole: Despertar
  • Octavia E. Butler – Bloodchild
  • Rachel de Queiroz – Páginas do Futuro: Contos Brasileiros de Ficção Científica
  • Soraya Coelho – Canções: A Diáspora das Fadas e Alice no Fim do Mundo
  • Sylvia Plath – A Redoma de Vidro
  • viviane v. – Transfeminismo: Teorias & Práticas

E teve também duas pessoas genderqueer/não-binária: Paul B. Preciado (Manifesto Contrassexual) e Leslie Feinberg (Stone Butch Blues).

Autoras(es) nacionais

Além das mulheres já citadas, li também: André Monsev, Antonio Candido, Eric Novello, Fábio Kabral, Felipe Castilho, Ivan Mizanzuk, Jim Anotsu, Lima Barreto, Lucas Kircher, Marcos Bagno, entre outros.

Procurei ler mais autoras(es) do Brasil e da América Latina, de ficção e não-ficção, pois não vi essa preocupação durante a graduação. Tem muita gente boa escrevendo boas histórias na e da região.

__________

Rapaz de mochila caminha entre corredores de uma biblioteca

Ano novo, livros velhos

Não vou comprar mais livros até ler todos os que tenho. Ok, eu já disse isso antes e não cumpri. E eu não sou um completo descontrolado consumista: compro livros de escritoras que conheço, ajudo projetos literários no Catarse. O que tenho feito agora é me organizar, ou trocar uma lista imensa e aleatória por prioridades.

Livros físicos: Organizei de um jeito bem simples, com etiquetas de duas cores. Uma significa os livros que vou ler primeiro, seja porque curioso ou por estar há muito tempo na estante.

A outra cor marca os livros que eu não tenho pressa/vontade de ler ou que vou reler por não me lembrar mais da história. Essa etiqueta também serve pra eu ter noção do que estou guardando por guardar – talvez seja a hora de colocar os livros para troca ou doação.

Livros digitais: O Kindle é um universo de leitura que nunca serei capaz de zerar. Pra me ajeitar, criei 3 coleções: 1, 1.2 e 2.

Na primeira pasta, tenho apenas 6 livros. Foi um bom tempo de filtro pra chegar a esse número. São os livros que me comprometi a ler primeiro, aconteça o que acontecer. Os livros da repescagem estão na pasta 1.2, e é daí que vou selecionar o que sobe de divisão (quando já tiver lido tudo da pasta 1).

Logicamente, a pasta 2 é a dos livros em espera infinita. São tantos que talvez eu nem tenha tempo de vida pra ler tudo. A separação foi o modo que encontrei para não me gastar tempo só olhando para os livros e pensando “ah, não tenho nada para ler…”.

É isso! Um 2017 de boas leituras pra todo mundo!

Nossa história

Mesa com caneta, relógio, uma xícara e uma colher. Em destaque, um livro de capa vere=melha, com os dizeres "Be brave, Be bold, Be beautiful, Be you" em preto. Um lápis preto sobre o livro.

Quando nos encontramos, as primeiras palavras eram desconhecidas. Mas o texto flui, e precisávamos descobrir como.

Caminhamos – linha por linha – página por página – e nos divertimos. Não sabemos o final. Existe um final?

Às vezes, precisamos de uma vírgula ou outra para evitar um ponto final. Olhamos para trás, procuramos por um trecho da história que não entendemos. Ou por aquela página em branco que pulamos da primeira vez.

Não sabemos o que vem depois. O vilão desmascarado ou o assassino improvável. Um pacote de personagens e situações a serem desvendados. E nós, enquanto escrevemos, criamos nomes, palavras, damos vida aos seres. Fadas e ogros e dragões. Robôs. Uma pessoa humana legal, quem sabe?

Você & eu. Nós temos o poder de escrever nossa(s) história(s).

Sou o que sobra

O lado dela está vazio. Antes de conhecê-la, gostava de me esparramar pelo meio da cama. Não sei que horas são, só sei que é madrugada. Faz anos que não tenho rádio-relógio, presente de casamento. Não quero pegar o celular. Tenho medo de receber um whats ou uma notificação dela, ou de algum amigo em comum, e então saber, de vez, que tudo acabou. Perdi o emprego, perdi o cachorro – o Sansão –, perdi o amor da minha vida e, nisso tudo, me perdi também. É, meu pai tinha razão: nunca conseguiria manter nada nessa vida.

Levantei meio tonto de solidão e fui até a cozinha, em busca de qualquer coisa que enchesse o estômago e trouxesse distração. Os pés descalços pareciam estranhar o vazio do apartamento e me arrastavam sem confiança. Há quanto eu fiz daquele espaço meu lar? Já não importa, tenho que aprender tudo do zero mais uma vez.

Na geladeira, alguma coisa cheirava tão mal quanto meu ânimo. Ela tinha partido algumas horas atrás e eu já contagiava a casa com meu azedume de azar. Nem sei se posso chamar assim ou se é muita pretensão. Abandonei os planos de comer e me contentei com um copo d’água. A intenção de me distrair não funcionou como eu esperava, então o melhor a fazer era voltar pra cama antes que eu estragasse mais alguma coisa. Será que o dia 13 do meu nascimento fora uma sexta-feira?

Na volta, ainda na cozinha, senti que pisava em algo estranho. Um misto de raiva e nojo me tomou, embora eu soubesse que se a barata não tivesse morrido sob meus pés, ela teria se envenenado com a minha comida. Pedi um perdão silencioso e retomei o caminho. Mais um passo e uma dor maligna subia pela minha perna direita. Algum brinquedo do Sansão que ficou pra trás, imaginei.

Pulei para tentar alcançar o interruptor, torcendo para não escorregar com os restos de barata grudados no meu pé. Senti algo me cortar e chutei o que deveria ser uma pedra, até conseguir acender a luz.

Por todo o corredor, pedaços de mim estavam espalhados, formando um macabro resumo da minha vida. A pedra era, na verdade, o sonho infantil de ser um astronauta. Ao lado, estava a folha em que cortei: o comprovante de trancamento de matrícula da graduação; escolha que tomei mais por desgosto do que por qualquer desculpa decente que inventei para mim mesmo na época.

Não precisei me esforçar muito para descobrir que nenhum brinquedo de cachorro foi esquecido. Era ela, saída do chão como numa ponta, um prego abandonado. Acreditei que bastava esse tal de amor para construir nossa vida de todas as maneiras que encontrássemos, mas nosso casamento enferrujou e ela se foi, antes de ser tomada pelo tétano.

Larguei o que restava de mim no chão sujo, enquanto as feridas abertas do passado me obrigavam a encarar sua existência. Tenho medo de chorar, por não saber que formas e dores as lágrimas terão. Eu não sei quem sou, mas prefiro me agarrar à dúvida a perder todas as chances.

Na cozinha, fora do meu campo de visão, jaz o corpo de um homem que, um dia, acordara transformado num inseto. Eu o matei por acidente, o último acidente da minha vida.

.*.*.*.*.*.

Texto para a Oficina Colaborativa do Mundo Estranho, do Eric Novello.

Cócegas

O sorriso do jornaleiro não é igual ao que ele me ofereceu pela manhã, porque agora ele sabe. No fundo, o bairro todo sabe. Meu jeito de segurar a bolsa, meus passos rápidos, o suor que faz as chaves fugirem pro chão.

Percorro o conhecido caminho dos santos juízes. Sou declarada culpada assim que ele saí das sombras e toca meu braço. Assustada, olho para uma janela e vejo a vizinha curiosa me dirigir um olhar de reprovação e fechar as cortinas. Sobram as luzes azuladas das televisões e ele. E sobra você.

Mas isso não é sobre você.

Fecho os olhos para dormir e sou atormentada pela imagem da vizinha. Ela sabe como serão todos os meus sonhos a partir desta tarde. Mesmo que você não passe de um monte de nada sem forma, eu sei que carrega o rosto dele. É somente a ele que você pertence.

Ando apressada pela noite porque assim me ensinaram que deveria fazer. Nunca a temi, para dizer a verdade. Aposto que se você tivesse qualquer coisa minha, também veria na noite uma amiga agradável e acolhedora. Até que ele chegou e nos obrigou a sermos uma só carne. Foi assim que você tornou-se dele, única e exclusivamente, e eu passei a chegar em casa mais cedo. Mudei o horário de trabalho, mudei meu caminho, minha vida toda mudou.

Você entende que eu não poderia continuar, não? Mal posso cuidar de mim mesma. Se você continuasse comigo, as coisas ficariam mais e mais complicadas. Pode me chamar de covarde ou criminosa, eu não me importo. Tive de me livrar de você, antes de te ver, para não ter que vê-lo de novo. Só a ideia de ter o rosto dele nas minhas entranhas me machuca.

Troquei algumas horas de hoje para anular os minutos daquela noite. Deixei de viver por alguns momentos, pendurada a um cabide de sangue, para evitar que você visse a luz do sol. E te deixei pra trás assim que minhas pernas voltaram a me obedecer.

Chego em casa, recupero as chaves caídas, encaro a porta. E se a polícia estiver me esperando aí dentro? Algo me diz que a vizinha me denunciou. Basta o jornaleiro para apontar o caminho de onde moro. Todo mundo aqui me conhece e sabe que vivo sozinha, que respeito as leis e que não sirvo nem para ser assunto. Tenho vários pecados e apenas um crime – o confesso sem dizer uma só palavra.

Vou te esquecer assim como tento esquecê-lo. Entro em casa sem sua companhia, da mesma maneira que saí. Você nunca existiu e ninguém jamais saberá de você. Largo a bolsa no sofá e sorrio satisfeita pelo peso de que me livrei. Você era um monte de nada que pesava tanto quanto o corpo dele sobre o meu. A dor de te sangrar e te deixar morrer me fez cócegas, como se uma pena fosse esfregada na minha barriga.

Quanto ao sei pai, nada sei dele. Voltou para as sombras de onde surgiu e quase nada me lembro do rosto dele. Só sei que era idêntico ao seu.

.*.*.*.*.*.

Texto para a Oficina Colaborativa do Estranho Mundo, do Eric Novello.

Mudei de assunto e salvei meu cachorro

Poucos dias são tão agradáveis quanto aquele. O sol coloria a grama de dourado, então o chão parecia feito de ouro dançante – o tipo de coisa que só acontece quando se mora num sítio. Eu não sei qual era a celebração, mas lembro de correr e brincar durante boa parte da manhã.

Ela veio para o almoço. A Pequena N., sempre cheia de recursos para se destacar. Os cabelos arrumados, tão claros que machucavam os olhos, caíam em cachos definidos sobre a camisa branca. A calça jeans e os sapatos eram novos, uma péssima escolha para quem passaria a tarde no meio do mato.

Toda a pompa da Pequena N. me deixou apreensivo. Tudo era tão falso nela – seu sorriso, seu jeito de caminhar, seu interesse em mim – que ela parecia fora do lugar, como os efeitos especiais de Chaves. Pra piorar, ela me deu um presente, uma pequena bolsinha de papel com um duende de plástico dentro. Assim que eu agradeci, uma das pernas do duende se soltou.

Comemos, conversamos, caminhamos. Durante todo o tempo, a Pequena N. se desmanchava em elogios para mim. Vai ver, ela era legal e tudo não passava de desconfiança boba, certo? Nem toda história precisa de uma vilã, afinal. Acho que quando estou de estômago cheio, as pessoas parecem menos desagradáveis.

Foi apenas no dia seguinte que notamos: Juninho, nosso cachorro, não estava comendo. Nem as sobras do churrasco que meu pai oferecia eram capazes de animá-lo. Com dificuldade, ele engolia a água que minha forçava com uma seringa. Não havia fratura, não encontramos ferimentos, nenhum pingo de sangue pelo chão. Picada de cobra? Gastrite (cachorro tem gastrite?)?

Juninho, um cachorro branco de orelhas marrons, deitado ao sol.

“Meu melhor amigo canino está morrendo”, eu pensei. Me senti horrível, assustado, um pequeno grande inútil. Nenhuma criança deveria ver seu cachorro ser carregado, mole e fraco, por não conseguir andar nem para salvar a própria vida – no caso, o Juninho estava na garagem, encolhido BEM na frente de uns dos pneus do carro.

Por alguma razão, eu liguei o repentino mal estar do cachorro às palavras carinhosas que a Pequena N. gastou comigo. As duas situações pareciam Photoshop Disasters da minha vida, um jogo dos sete erros descarado. Pensei em ligar para a Pequena N. e dizer que sabia de tudo (“descobri que você é uma bruxa maligna e que enfeitiçou meu cão”), só que essa não era uma ideia muito efetiva. Salvar meu amigo era mais importante do que condenar a malvada.

Foi aí que eu fiz o que precisava ser feito: engoli a dor e o medo, me aconcheguei ao lado do Juninho e contei uma piada. Uma vez que piada não é o meu forte, mudei para histórias engraçadas da minha vida, coisas que me divertiam, toda e qualquer lembrança minimamente prazerosa. Enquanto fiquei ali, entendi que nada é mais difícil do que fabricar um sorriso quando toda a matéria-prima é de lágrimas. Mas eu tinha que fazer. Por ele.

A conversa terminou tarde. Mantive o sorriso na marra, até a hora de dormir. Eu sabia que chorar significaria assumir a derrota. Aquela poderia ter sido nossa última noite de papo, então eu mudei de assunto e fiz com que fosse um dos nossos melhores momentos.

No outro dia, bem cedinho, acordei pra ir pra escola. Meus pais observavam Juninho comer, beber, andar até o pequeno pedaço de gramado já alcançado pela luz do sol. Vencemos a Pequena N., e ela nunca mais nos visitou.

.*.*.*.*.*.

O texto foi publicado anteriormente na minha newsletter, a Pequena Bagunça. É só clicar e assinar 😉

TAG: 10 perguntas literárias

O louco das TAGs voltou! Vi lá no blog da M.M Drack.

parte superior de vários livros enfileirados

1. Qual a capa mais bonita da sua estante?

Rani e o Sino da Divisão, do Jim Anotsu. É roxa, meio macabra e roxa roxa roxa.

2. Se pudesse trazer 1 personagem para a realidade, qual seria?

Lisbeth Salander, da série Millenium.

3. Se pudesse entrevistar um autor(a), qual seria?
 O Neil Gaiman, eu acho.
4. Um livro que não lerá de novo? Por quê?
Vários que li na graduação. O Romantismo brasileiro, basicamente.
5. Um história confusa?
Cyberstorm, de Matthew Matter. Foi difícil terminar, me arrependo de ter começado.
6. Um casal?
Jenks e Lovey, de The Long Way to a Small Angry Planet (Becky Chambers). Que fofura.
7. Dois vilões. (Pode ser tanto 2 vilões que goste, como 2 vilões que não goste).
A Capeta, de Lizzie Bordello (Germana Viana) e o Mulo, da série Fundação (Isaac Asimov). Eu me diverti muito com ambos.
8. Uma personagem que você mataria (ou tiraria do livro)?
Eu tenho sérios problemas com o Peeta Mellark, de Jogos Vorazes (Suzanne Collins). Ele é chato, grudento, um porre.
9. Se pudesse viver num livro, qual seria?
Neuromancer, do Willian Gibson. Nada muito pior do que nosso cotidiano, eu imagino. O lado otimista escolhe The Long Way to a Small Angry Planet.
10. Qual o seu maior livro e o menor? (Em termos de páginas).
O maior deve ser Musashi, de Eiji Yoshikawa. Morro de vontade de reler, só falta a coragem de encarar 2709 páginas (soma dos dois volumes). O menor é Nós Somos Todos Iguais?, de adolescentes abrigados na Casa das Expedições.

Hoje é um daqueles dias.

Eu sentia que aconteceria, consegui perceber. Só não consegui evitar. Foi uma noite difícil e, quando acordei, o sol já estava alto. Era mais cedo do que eu imaginava, no entanto, o contentamento foi breve. Algo na minha cabeça teimava em reclamar e mostrar erros, culpas. A angústia dominava e eu permanecia na cama, analisando o que aconteceria se eu não saísse dali.

Por isso, escrevo. Porque disse que voltaria a escrever, quando nem sei mais a senha do blog. Disse que colocaria no papel tudo que me afetasse, quando morro devagar, olhando para o nada; prometi não acumular tarefas para não sentir qualquer pressão, mas não sei por onde começar e acabo fazendo nada.

Escrever sobre isso já é alguma coisa, aparentemente.

[15/01/15]

Algumas ideias para ajudar sobreviventes de agressão*

O texto a seguir foi traduzido e adaptado para o uso de um coletivo feminista interseccional. As zines originais podem ser compradas aqui.

*Usamos sobreviventes por entender que situações de assédio colocam vidas em risco e buscar ajuda é uma maneira de enfrentar e SOBREviver. Por agressão, reconhecemos suas diversas formas: física, emocional, psicológica, moral, financeira, sexual.

Mulher de costas, olhando para o mar.

Se você quer ajudar uma pessoa sobrevivente de violência, saiba que não há uma maneira única de agir… apenas seja você mesmo. O processo de recuperação não segue um “programa de doze passos”. Esses processos são únicos como para cada indivíduo, porque estão inseridos num contexto também único de vivências.

A seguir, apresentamos algumas ações que esperamos que as pessoas fizessem (ou não!) para serem solidárias nos estágios iniciais dos processos de recuperação após agressões. Estamos falando sobre nossas experiências e necessidades pessoais, e não afirmando que toda sobrevivente vai desejar as mesmas coisas.

Provenha um espaço seguro para eu conversar sobre a agressão sem pressa nem distrações.

Quando eu falar sobre a agressão, acredite em mim! Não ser acreditada – especialmente quando a agressão foi cometida por alguém conhecido – é um dos maiores medos das sobreviventes.

Deixe-me expressar todo meu pacote de emoções sobre a agressão: raiva, tristeza, medo etc. Escute em silêncio, não interrompa, não grite ou não interponha seus sentimentos – deixe-me ter o espaço para contar a história.

Deixe-me usar os termos que considerar mais apropriados para descrever a agressão, por exemplo, deixe-me usar “estupro” para explicar a gravidade do assédio mesmo que não tenha acontecido “penetração vaginal”.

Deixe que eu defina o que na agressão foi mais doloroso; Não pressuponha que um aspecto foi “pior” do que outro. Isso inclui não dizer coisas como “Isso é horrível!” quando eu disser o que aconteceu especificamente. O que você considerar que     foi horrível pode não ter sido grande coisa pra mim. Ou algo que você achar que “não foi tudo isso” pode ter sido o que mais me     feriu. Deixe que eu decida isso.

Não diminua o assédio. Deixe-me definir o que aconteceu com minhas próprias palavras.

Seja paciente. Não me peça para dar detalhes que não me sinto confortável em dizer.

Mantenha a culpa com quem ela pertence: o agressor. Não pergunte coisas do tipo “Por que você estava lá/naquela situação?” ou “Você estava bebendo?” ou “Você não sabia que era perigoso?”. Esse tipo de pergunta implica que eu, de alguma forma, fui responsável pela agressão. Além disso, por que eu estava onde estava não é a questão.

Não subjugue meus sentimentos de medo, mas considere situações que sejam assustadoras – voltar para casa por um lugar escuro, voltar ao lugar da agressão por um motivo qualquer. Ofereça sua companhia porque eu gostaria disso, não porque vai me proteger.

Foque em coisas positivas. Ajude-me a perceber tudo o que fiz para permanecer em segurança, e tudo o que fiz para sair/terminar a agressão ao invés de se focar no que o agressor fez para mim. Pergunte do que preciso – companhia, segurança, boas refeições etc.

Deixe-me saber que tenho sua ajuda contínua e ativa. Se você quer ajudar, saiba que posso te procurar no futuro pelo seu apoio. Sabendo disso, crie um ambiente onde eu possa falar do assunto se eu quiser. Por exemplo, uma lanchonete tranquila é mais adequada do que uma festa ou um show.

Permita que eu tenha todo o tempo para ficar bem – não me apresse. A melhora vem em ciclos, então posso me sentir bem por um tempo e depois me sentir não muito bem depois. Aceite essa variação e não pense que eu “já” deveria ter superado.

Consinta que eu fique só se precisar.

Trabalhe no que possa trazer melhoras. Foque em qualquer coisa que vá me fazer sentir melhor. Ofereça sua ajuda para trazer alívio. Existem diversos modos de fazer isso: aconselhar a deixar um trampo que é estressante e perigoso, procurar vias legais etc.

Ofereça me ajudar a encontrar recursos que irão me auxiliar a lidar com o assédio, como grupos de apoio, livros, sites ou outros recursos de informação, aulas de auto defesa etc.. Contudo, por favor, deixe que eu escolher quais recursos usarei (ou seja, não me diga o que fazer).

Ofereça seu auxílio se e quando eu quiser confrontar o agressor, mas não comece isso!

Não enfrente o agressor sem minha permissão!

Não comente o que eu disse sem minha permissão. Por favor, respeite minha privacidade, a menos que você esteja pedindo conselhos sobre como minha história te afetou ou para ter recomendações de como ajudar.

Permita que eu comece o contato físico por um tempo. Não assuma que contato físico, abraços etc., serão reconfortantes. Pode ser que eu prefira evitar sexo ou qualquer toque, mesmo de quem eu conheço e amo.

Entenda bem minhas dicas não-verbais. Se você me sentir distante, me deixe descobrir o que estou sentindo/o que quero.

Seja paciente. Ser paciente se aplica a diversas situações e interações. Peça explicação se não entender minhas atitudes.