Cócegas

O sorriso do jornaleiro não é igual ao que ele me ofereceu pela manhã, porque agora ele sabe. No fundo, o bairro todo sabe. Meu jeito de segurar a bolsa, meus passos rápidos, o suor que faz as chaves fugirem pro chão.

Percorro o conhecido caminho dos santos juízes. Sou declarada culpada assim que ele saí das sombras e toca meu braço. Assustada, olho para uma janela e vejo a vizinha curiosa me dirigir um olhar de reprovação e fechar as cortinas. Sobram as luzes azuladas das televisões e ele. E sobra você.

Mas isso não é sobre você.

Fecho os olhos para dormir e sou atormentada pela imagem da vizinha. Ela sabe como serão todos os meus sonhos a partir desta tarde. Mesmo que você não passe de um monte de nada sem forma, eu sei que carrega o rosto dele. É somente a ele que você pertence.

Ando apressada pela noite porque assim me ensinaram que deveria fazer. Nunca a temi, para dizer a verdade. Aposto que se você tivesse qualquer coisa minha, também veria na noite uma amiga agradável e acolhedora. Até que ele chegou e nos obrigou a sermos uma só carne. Foi assim que você tornou-se dele, única e exclusivamente, e eu passei a chegar em casa mais cedo. Mudei o horário de trabalho, mudei meu caminho, minha vida toda mudou.

Você entende que eu não poderia continuar, não? Mal posso cuidar de mim mesma. Se você continuasse comigo, as coisas ficariam mais e mais complicadas. Pode me chamar de covarde ou criminosa, eu não me importo. Tive de me livrar de você, antes de te ver, para não ter que vê-lo de novo. Só a ideia de ter o rosto dele nas minhas entranhas me machuca.

Troquei algumas horas de hoje para anular os minutos daquela noite. Deixei de viver por alguns momentos, pendurada a um cabide de sangue, para evitar que você visse a luz do sol. E te deixei pra trás assim que minhas pernas voltaram a me obedecer.

Chego em casa, recupero as chaves caídas, encaro a porta. E se a polícia estiver me esperando aí dentro? Algo me diz que a vizinha me denunciou. Basta o jornaleiro para apontar o caminho de onde moro. Todo mundo aqui me conhece e sabe que vivo sozinha, que respeito as leis e que não sirvo nem para ser assunto. Tenho vários pecados e apenas um crime – o confesso sem dizer uma só palavra.

Vou te esquecer assim como tento esquecê-lo. Entro em casa sem sua companhia, da mesma maneira que saí. Você nunca existiu e ninguém jamais saberá de você. Largo a bolsa no sofá e sorrio satisfeita pelo peso de que me livrei. Você era um monte de nada que pesava tanto quanto o corpo dele sobre o meu. A dor de te sangrar e te deixar morrer me fez cócegas, como se uma pena fosse esfregada na minha barriga.

Quanto ao sei pai, nada sei dele. Voltou para as sombras de onde surgiu e quase nada me lembro do rosto dele. Só sei que era idêntico ao seu.

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Texto para a Oficina Colaborativa do Estranho Mundo, do Eric Novello.

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