Mudei de assunto e salvei meu cachorro

Poucos dias são tão agradáveis quanto aquele. O sol coloria a grama de dourado, então o chão parecia feito de ouro dançante – o tipo de coisa que só acontece quando se mora num sítio. Eu não sei qual era a celebração, mas lembro de correr e brincar durante boa parte da manhã.

Ela veio para o almoço. A Pequena N., sempre cheia de recursos para se destacar. Os cabelos arrumados, tão claros que machucavam os olhos, caíam em cachos definidos sobre a camisa branca. A calça jeans e os sapatos eram novos, uma péssima escolha para quem passaria a tarde no meio do mato.

Toda a pompa da Pequena N. me deixou apreensivo. Tudo era tão falso nela – seu sorriso, seu jeito de caminhar, seu interesse em mim – que ela parecia fora do lugar, como os efeitos especiais de Chaves. Pra piorar, ela me deu um presente, uma pequena bolsinha de papel com um duende de plástico dentro. Assim que eu agradeci, uma das pernas do duende se soltou.

Comemos, conversamos, caminhamos. Durante todo o tempo, a Pequena N. se desmanchava em elogios para mim. Vai ver, ela era legal e tudo não passava de desconfiança boba, certo? Nem toda história precisa de uma vilã, afinal. Acho que quando estou de estômago cheio, as pessoas parecem menos desagradáveis.

Foi apenas no dia seguinte que notamos: Juninho, nosso cachorro, não estava comendo. Nem as sobras do churrasco que meu pai oferecia eram capazes de animá-lo. Com dificuldade, ele engolia a água que minha forçava com uma seringa. Não havia fratura, não encontramos ferimentos, nenhum pingo de sangue pelo chão. Picada de cobra? Gastrite (cachorro tem gastrite?)?

Juninho, um cachorro branco de orelhas marrons, deitado ao sol.

“Meu melhor amigo canino está morrendo”, eu pensei. Me senti horrível, assustado, um pequeno grande inútil. Nenhuma criança deveria ver seu cachorro ser carregado, mole e fraco, por não conseguir andar nem para salvar a própria vida – no caso, o Juninho estava na garagem, encolhido BEM na frente de uns dos pneus do carro.

Por alguma razão, eu liguei o repentino mal estar do cachorro às palavras carinhosas que a Pequena N. gastou comigo. As duas situações pareciam Photoshop Disasters da minha vida, um jogo dos sete erros descarado. Pensei em ligar para a Pequena N. e dizer que sabia de tudo (“descobri que você é uma bruxa maligna e que enfeitiçou meu cão”), só que essa não era uma ideia muito efetiva. Salvar meu amigo era mais importante do que condenar a malvada.

Foi aí que eu fiz o que precisava ser feito: engoli a dor e o medo, me aconcheguei ao lado do Juninho e contei uma piada. Uma vez que piada não é o meu forte, mudei para histórias engraçadas da minha vida, coisas que me divertiam, toda e qualquer lembrança minimamente prazerosa. Enquanto fiquei ali, entendi que nada é mais difícil do que fabricar um sorriso quando toda a matéria-prima é de lágrimas. Mas eu tinha que fazer. Por ele.

A conversa terminou tarde. Mantive o sorriso na marra, até a hora de dormir. Eu sabia que chorar significaria assumir a derrota. Aquela poderia ter sido nossa última noite de papo, então eu mudei de assunto e fiz com que fosse um dos nossos melhores momentos.

No outro dia, bem cedinho, acordei pra ir pra escola. Meus pais observavam Juninho comer, beber, andar até o pequeno pedaço de gramado já alcançado pela luz do sol. Vencemos a Pequena N., e ela nunca mais nos visitou.

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O texto foi publicado anteriormente na minha newsletter, a Pequena Bagunça. É só clicar e assinar 😉

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