Somos todos… ?

Enquanto andava, a dor nas costas o consumia. Ele sentia que carregava o peso de todas as estrelas.

De grande que era, chamava a atenção. Ninguém desviava os olhos quando ele chegava ou passava, onde quer que fosse. Logo, os cochichos surgiam, os risos, os dedos incriminatórios.

Ele se olhava, quase sem se mover. Procurava o que poderia estar errado. Não encontrava. Era sempre a visão dos outros.

No ônibus, apesar de adorar os lugares altos, procurava um assento no fundo para não ser notado. Contudo, antes do primeiro farol, alguém o via e o culpava de ter fechado as janelas ou ter causado o trânsito. Envergonhado, tentava se esconder atrás do celular, mas as vozes cresciam e entravam até na rede. Amanhã, escolheria o trem – cheio – ou o carro – mais trânsito – ou a bicicleta – é lazer, não para transporte.

Arrependeu-se da ideia de ficar em casa, antes mesmo de seu surgimento.

As coisas não estavam boas no trabalho também. A dor na coluna era, em parte, culpa da cadeira que usava. Poderia gastar com academia? Melhor não arriscar. Havia uma crise no país e, segundo diziam especialistas e populares, ele era o responsável. Concentrou-se nas tarefas do dia.

Voltava a pé para casa, depois de o sol ter se despedido. Mal podia ver onde pisava. Em uma ou duas ocasiões, tropeçou e praguejou. A cada passo que dava, mancando e irritado, buzinadas surgiam para lembrá-lo quem era o culpado. De nada adiantava reclamar, ele nunca seria esquecido.

Pensou em mudar, se refazer por completo. Enxugou o suor que escorria pelas costas, limpou suas pegadas, planejou uma revolução. Por um breve período, deu certo. Ganhou adeptos, mas acumulou inimigos. Logo, já não os reconhecia. Aliás, não podia nem dizer se reconhecia a si mesmo, tantas foram suas mudanças, influências e contradições.

O único fato imutável era que os comentários não findavam. Na verdade, pareciam até mais raivosos.

Em desespero, deu um soco no espelho para evitar ver a imagem dos problemas. O resultado foi seu rosto, o retrato do erro, multiplicado e ainda o encarando. O povo não pode fingir não ser o povo.

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