Beijos no Chão

Capa de Beijos no Chão, de Dani Costa Russo

Na história da Cinderela, quando o Príncipe descobre que ela é a dona do sapatinho de cristal, caminhamos para o final feliz. Há um casamento e o tão conhecido “viveram felizes para sempre”, um resumão da suposta harmonia conjugal.Em Beijos no Chão, romance de estreia de Dani Costa Russo, a protagonista não tem nome, mas sua história poderia ser a continuação de Cinderela. Uma jovem estudante de jornalismo é surpreendida pela paixão de um homem rico e solitário. O relacionamento segue sem grandes pretensões por parte dela, até que uma gravidez inesperada leva ao casamento. Mas o conto de fadas não se confirma.

Desde o início do livro, a violência doméstica está explícita. Ou melhor, as violências: agressões físicas, verbais, psicológicas, morais. A protagonista cria rituais para se defender, nem sempre com sucesso. A brutalidade cíclica, marca de relacionamentos abusivos, aprisiona a vítima ao seu carrasco.

A narrativa não segue uma cronologia linear, o que deixa tudo mais perturbador. Alguns episódios de violência chegam a acontecer em público, sem que as testemunhas impeçam. O ditado “em briga de marido e mulher, não se mete a colher”, além dos privilégios na amizade com o agressor, cria cúmplices apáticos. Importante ressaltar que o feminicídio e a violência doméstica são, muitas vezes, diminuídos e disfarçados, como documenta Amelinha Teles em seu livro Breve História do feminismo no Brasil:

“No Brasil, fazia-se crer que somente os homens negros e pobres espancavam as mulheres, devido ao alcoolismo ou à extrema pobreza.”

Eu me incomodei um pouco com a estrutura dos diálogos e pensamentos das personagens. Por mais que o livro retrate uma classe média alta, alguns trechos ficaram pouco naturais ou muito quebrados por verbos declarativos. ou eu sou chato pra caramba pra reparar nesse tipo de coisa

Retângulo roxo com espirais em preto e a pergunta "Por que ler?"

As palavras têm poder, e Beijos no Chão é uma ótima amostra disso. Desde que conheci a Dani, no Clube de Escrita mediado pela Jarid Arraes (outra autora incrível), me encantei pela sua escrita – e pela pessoa alegre e articulada também. Seus textos para a oficina sempre me passaram o sentimento de ler um clássico, e seu livro me causa a mesma sensação. É uma voz literária marcante e agradável.

Embora o tema não seja fácil, a violência na história não é banalizada; tudo é trabalhado com cuidado e respeito. De qualquer forma, é válido avisar que a leitura pode despertar gatilhos (eu mesmo tive mal estar).

Beijos no Chão é uma publicação independente, resultado do esforço coletivo de uma galera muito firmeza que acreditou na Dani e na importância da obra. Leia mulheres para que mais mulheres escrevam e protagonizem histórias.

Mulher ajoelhada arrumando as franjas de um tapete

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