Tenha coragem

pés soltos de alguém sentado no alto de um prédio

Cheguei ao trabalho com o cabelo pintado – nada de muito diferente, um ruivo desbotado – e ganhei um bilhetinho de uma colega: “Eu faria isso se tivesse coragem.” Foi a mesma coisa quando deixei bem curtinho, pintei de cores extravagantes, raspei… Cabelo cresce, e amanhã será outro dia.

O bilhete é algo recente, porém nada inédito. Em outras ocasiões, eu já ouvi que pessoas dizerem que tomariam determinadas atitudes se tivessem “coragem”: deixar de comer carne, largar um emprego público, abrir o relacionamento, sair da casa dos pais e morar em outra cidade. São decisões que tomei e que me contemplam, mas não são modelos de uma vida mais interessante.

Sinto-me muito estranho quando alguém me parabeniza por essa suposta bravura. Eu sou confuso, medroso e do tipo que tem insônia por lembrar de um vacilo que dei em 1996. A diferença é que algumas das minhas escolhas são incomuns, por assim dizer. Recebo muito mais olhares de desaprovação ou repulsa do que tapinhas nas costas amigáveis.

Longe de ser um exemplo de autenticidade, eu deixo migalhas de pão pelo caminho pra saber como voltar. Acredito que uma pessoa corajosa mesmo não faça isso. Contudo, eu tenho é medo de uma vida baseada no futuro do pretérito, daquele assombroso arrepender de não ter feito. Por acreditar que só se vive uma vez, a melhor hora é agora.

Então, não vou dizer que todo mundo deveria ter um moicano verde limão. Cada pessoa tem suas vontades e conhece seus limites. Só me arrisco a sugerir que tenham coragem, ou mais coragem. Nem sempre a grama do vizinho é mais verde e não há nada de errado com uma grama desbotada.

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