Falar antes de gritar

Eu tateava o quarto escuro à procura da minha voz. Por vezes, minha mão esbarrava em chaves falsas e pesados potes vazios. Nada. Devo ter me cortado numa porção de momentos, sem chegar a sangrar.

Aos poucos, meus olhos se acostumaram e pude distinguir umas sombras. Vi as paredes e as janelas, mas não encontrei nenhuma porta. Uns fiapos de lua escapavam, provocando danças macabras com minha rotina. Nada que pudesse me ajudar a reconhecer os rostos nas fotografias que escrevi.

Rastejei para fora da cama, os joelhos preguiçosos demais para me sustentarem. Eu sabia que de nada adiantaria o pânico, já que gritar era impossível. Eu precisava encontrar minha voz. E ela estava perdida ali.

Em certa altura, pensei em um bom lugar para se guardar a voz. Não como uma lembrança, mais para a imaginação. Se eu não via o quarto com nitidez, poderia recriá-lo em minha cabeça até conhecer o melhor esconderijo.

Esconderijo! É isso.

O quarto estava escuro porque minha voz estava escondida, não só perdida. Continuei rastejando e dando cabeçadas em tudo o que bloqueava meu caminho sem que eu pudesse desviar. Estava, em especial, sem a certeza do acontecido: quem escondeu minha voz? Fui eu? Foi alguém com interesses em me calar? A própria voz teria entrado numa brincadeira de pique-esconde sem saber a saída?

Minhas mãos descobriram puxadores e eu abri gavetas. Algumas escaparam e me empurraram para trás; outras, emperradas, não cederam além da metade. Foi ali que me enfiei.

Senti coisas tão antigas, que se desfizeram instantaneamente. Outras eram pesadas, estavam trancadas e eu me arrependi de ter deixado as chaves do lado de fora. Precisei segurar a respiração para não me afogar no mofo e na poeira. Assim que as luzes se acendessem, eu faria uma faxina no lugar.

Devo ter procurado por muito tempo. Sequer percebi que já engatinhava e que sol ia alto. Demorei mais para tirar a noite dos olhos do que do quarto.

Há luz, há voz, pensei. Tentei falar, sem ainda emitir qualquer som. Escorei o corpo confuso e pousei as mãos cansadas no colo. Correu, morreu, fugiu, foi roubada. De certo, foi esmagada sob a velharia de medo e remorsos que acumulei ao longo dos anos e pifou.

Foi quando percebi um movimento no espelho. Era eu, mas não me reconheci. Acenei, mas não me vi.

O quarto parecia arrumado e eu conversava com meu reflexo, os dois lados confiantes. Estava ali o tempo todo.

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