Aquele que sou

Conheci meu irmão na guerra. Não é o melhor dos cenários para se conhecer alguém, mas não foi escolha nossa. Nunca é.

Eu não sei quem eram os oponentes, meu irmão nunca me contou. Nem ele sabia, eu acho, Éramos duas crianças, ele pouca coisa mais velho. A única certeza era da brevidade dos nossos encontros, das palavras (apenas as essenciais) ditas com muita pressa.

Ele me estendeu a mão, e caminhamos.

Tenho a rua dele bem nítida na memória. Queria saber desenhar para retratá-a, pois qualquer tentativa de descrição verbal não é suficiente. Uma rua com casinhas pequenas e idênticas no meio do nada, como se a imaginação as tivesse criado, apenas elas. Sem cercas visíveis. Tudo calmo demais.

Por conta da guerra, talvez, a rua estava vazia. O único destaque era a marca de pneus no chão. Todo o resto era neve ou cinzas, eu não sei precisar a diferença. Uma palidez fria e silenciosa envolvia as casinhas, como se aquele espaço fosse um pedaço esquecido num livro de colorir.

A casa dele era a primeira à esquerda. Um cubo mínimo de paredes sem acabamento e papelão nas janelas. Apesar do cenário desolador, meu irmão sorria.

Ele bateu à porta. Um casal amedrontado abriu uma fresta para conferir quem visitava. Sorriram para meu irmão e mostraram-se de corpo inteiro.

“São meus pais.”, ele disse.

“Entre, filho. Você sabe que não pode ficar andando por aí, é perigoso.”

“Eu já vou. Vejam quem eu encontrei!”

Fugi.
__________

Conheci meu irmão na guerra.

Perguntei como era possível ele ser meu irmão, se nossos pais não eram as mesmas pessoas. “Eu não sei, mas somos irmãos. Irmãos gêmeos.”

Eu tinha quatro ou cinco anos, longos cabelos cacheados e uma grande tendência ao sobrepeso. Era grande para a minha idade, chorava à toa e não levava jeito pra coisa alguma.

Meu irmão era mais velho (devia ter uns 11 anos) e mais alto. Ele tinha a pele de um branco tão pálido quanto o da rua, cabelos negros, lisos e bem cortados. Era magro e irradiava segurança. Muito parecido com o pai dele.

Na minha cabeça, não era daquele jeito que irmãos existiam: em casas diferentes, com pais diferentes. Gêmeos tão distantes. Apenas nossos nomes eram iguais e foi por isso, creio eu, que eu confiei nele e na sua história.

“Eu fui ‘morrido’ pela polícia ‘minitar’, mas voltei pra te encontrar. Eu preciso cuidar de você.”

Foi o que ele me contou. Ou foi o que eu entendi, assim mesmo, errado. Mas fez sentido.
__________

Depois dos anos iniciais, fiquei um tempo sem meu irmão. Pensei que ele tivesse virado uma história do passado, páginas amareladas da minha vida que eu não visito mais. Invenção infantil para compensar a solidão.

Eu estava enganado.

Meu irmão sempre esteve comigo durante a guerra. Sempre está. Ele repete o gesto de segurar minha mão e caminhar comigo durante as batalhas mais inesperadas. A leveza com que ele encara as lutas me acalma e me faz continuar.

Conheci meu irmão na guerra porque era o único cenário possível para o nosso encontro. Uma rua sem som e sem cor, nossas mãos grudadas e um sorriso, a maneira que ele encontrou para me dizer que eu precisava preencher tudo aquilo e que ele me ajudaria, mesmo que sangrasse.

E nós permanecemos juntos. Eu existo.

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