Mas o que você tanto escreve?

Uns meses atrás, minha mãe me perguntou isso. Ela me visitou e me convidou para sair (a.k.a visitar parentes), mas eu recusei porque tinha um texto pra terminar.

Por sorte (?), ela não esperou a resposta e já emendou outro assunto. A verdade é que eu não tinha resposta. Eu poderia dizer que era uma história sobre naves espaciais ou viagem no tempo, que tinha umas resenhas atrasadas e que, às vezes, surgia uma súbita inspiração para poesia e eu me deixava levar.

Mesmo assim, eu sei que a pergunta da minha mãe estava errada. Não é bem o que escrevo que a deixa curiosa, mas o porquê.

Eu não ganho dinheiro com a escrita. Eu não sou conhecido, não sou especialista em nada, não tenho nada publicado. Escrevia zines de não-ficção e distribuía entre pessoas que conhecia. E só.

Cheguei a comentar aqui como comecei a escrever. Basicamente, eu anoto tudo o que posso, como se o papel (o físico e o digital) fossem a minha Penseira. Às vezes crio histórias boas; mais vezes ainda, crio histórias ruins. Participo de oficinas de escrita (comecei com a da Jarid Arraes, que era presencial, e agora estou concluindo a do Eric Novello). Nas oficinas (mesmo a do Eric, toda online) conheço pessoas, interajo, leio textos inspiradores.

Gif de uma Penseira refletindo o rosto de Harry Potter

Acontece também de eu escrever a respeito de algo: pode ser uma resenha ou uma coisa mais aleatória, como isso aqui. E posso ficar um tempo sem escrever, por mais doloroso que seja. Um bloqueio, a síndrome de impostor que me domina, falta de tempo.

Aliás, a síndrome de impostor é uma frequente. Manter o blog é uma luta constante, por mais que eu adore escrever. Se eu pensar duas vezes, o mouse escorrega do “publicar” para o “excluir” e aí, já era. O blog me protege de mim mesmo, evita que eu desista (de novo e de novo e de novo). Até criei a newsletter pra conversar mais – prefiro conversar por e-mail do que usar redes sociais.

Minha cabeça, dominada pela ansiedade, trabalha o tempo todo. Eu sonho com histórias, acordo de madrugada pra anotar uma ideia ou terminar de ler um capítulo (santo Kindle pra essas horas) e me distraio com frequência entre uma garfada e outra. E, só lembrando, eu não ganho dinheiro pra escrever. Imaginem se eu ganhasse?

Aí é que tá: eu me adaptei. Eu poderia rasgar/deletar o que escrevo, mas tô aqui. Estou aqui pra fazer algo que me diverte, algo que me ajuda a estar vivo. Na escola, meu refúgio para evitar confusão era a biblioteca. Consigo participar do NaNoWriMo, porém demorei meses pra conseguir falar DE VERDADE com o psicólogo. Se eu um dia eu serei publicado? Bem, eu não sei. Enfrento situações que me causam ansiedade o tempo todo e não pretendo fazer com que escrever seja mais uma delas.

Admiro muito quem vive da escrita, muito mesmo. Apoio, compro livro, divulgo, resenho, fotografo, indico, entro em contato pra mandar carinho, peço autógrafo. Eu sei como é ter sonhos triturados, então, faço o que posso para manter vivo os dessas pessoas. É uma troca, pois as histórias delas me ajudam também.

Então, de volta à pergunta da minha mãe: eu não sei. Só que parar não é uma opção.

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