Lentes de empatia

Era uma manhã de sábado, em 2012, quando eu ouvi a Amelinha Teles falar sobre lentes feministas para ler notícias. Uma ideia bem básica: notar como as mulheres são retratadas nos noticiários e interpretar os códigos com um olhar feminista.

Passamos a vida recebendo informações machistas (e racistas e gordofóbicas e homofóbicas e lesbofóbicas e bifóbicas e transfóbicas e capacitistas e excludentes, de algum modo) e tomando certos conceitos como naturais. “As coisas são assim.” “Sempre foi assim.” Ditas e repetidas várias vezes, essas noções acabam internalizadas.

images2farticle2f20152f102f222f380948201a04c0b0c6e5f80a94992a22-500x278x14

A desconstrução é um caminho lento e diário. Eu já fiz e falei muita coisa de que me arrependo e, mesmo disposto a ouvir e aprender, mesmo praticando a empatia, posso fazer merda. O que não posso é deixar de ouvir, aprender e praticar.

Outro dia, comentei no Twitter que as pessoas parecem mais preocupadas em não serem chamadas de preconceituosas do que em desconstruírem seus pré-conceitos. É comum que o ódio venha fantasiado de “não sou _____, mas”. Quando começa assim, vem merda.

Amiguinho, o mas é usado pra justificar o que você não quer justificado. É como dizer desculpe se ofendi alguém, não foi a intenção. Poxa, o que isso quer dizer? Que a culpa é de quem se ofendeu e não soube interpretar? O <ironia> bom coração </ironia> de quem cometeu a violência estava livre e puro, né?

Ficar de pernas pra cima e flutuar em ideias fixas é confortável. Deixar-se ser levado é confortável, não é preciso se mover. Enfrentar a maré suja (quem sujou mesmo?) é mais difícil. Alguns trechos pedem mais braçadas, mais força e o importante é não deixar de nadar. Quem sempre resistiu às ondas sabe que o que significaria parar.

Então, comece a usar suas lentes, quanto mais melhor. Nem tudo é sempre sobre você.

Anúncios