O Conto da Aia

Enrolei por bastante tempo para comentar esse livro, porque fica difícil falar sobre alto bom e angustiante, ao mesmo tempo. O Conto da Aia, de Margaret Atwood, foi publicado em 1985, mas é absurda e infelizmente atual.

Quando comecei a leitura, eu meio que já sabia do que se tratava. Ainda assim, não tem como não ficar perturbado com a leitura. Acho que de todas as distopias que já li, essa é a mais assustadora e próxima da realidade que conheço.

Acompanhamos a história de Offred, ou seja, a aia “de Fred”. As aias só podem sair em duplas, têm seu corpo todo coberto e recebem algumas, digamos, regalias para que se mantenham saudáveis e possam reproduzir.

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Offred mistura o relato do seu cotidiano com memórias de sua vida antes de virar uma aia. Por vezes, ela não acredita que teve mesmo uma família, um trabalho, amizades. Sua união foi considerada ilegal no novo regime e ela não tem notícias do companheiro e da filha, nem mesmo se ainda estão vivos. Ela vive isolada, quase sem ocupações e sob a constante pressão de engravidar.

Por vezes, imaginei Offred mais jovem do que ela é. Ela cita ter mais de 30 anos e que, por isso, tem pouco tempo restante como aia. Não sei se foi uma escolha para demonstrar seu sofrimento e imobilidade ou uma imposição social, mas Offred parece uma menina confusa. Não que isso tenha me incomodado; quando a idade dela é mencionada, pude entender melhor seu constante estado de aflição.

O controle social é tão bem descrito que me fez ter pesadelos. Sério. A janela do quarto de Offred não abre por inteiro, não há lustres ou espelhos para evitar suicídio e até os banhos têm duração certa. Mesmo a tecnologia, um artifício para descobrir qualquer traço de resistência, parece ser menos perigosa do que o medo.

Não pude deixar de pensar em como seria a vida das pessoas trans nesse universo. Em como meu corpo seria usado ou descartado, usado de exemplo talvez. Há uma personagem lésbica no livro, Moira. Achei um pouco estereotipada, em especial, porque Offred repete que a amiga sempre sabe o que fazer, ao contrário de outras mulheres (inclusive, ela mesma). Por outro lado, Moira parece não ter escolha.

Por que ler

O Conto da Aia é um livro essencial para quem gosta ou quer conhecer ficção científica. O modo como a sociedade vira essa ditadura fundamentalista, a manipulação, os jogos de poder não surgem do nada. Atwood mostra o perigo que existe na passividade.É assustador pensar no quanto a ficção reflete a realidade, o presente.

É ficção científica escrita e protagonizada por mulher. Há diferentes mulheres na história, algumas só representadas dentro de seus grupos – já adianto, nenhuma feliz. Se a intenção da autora era criar uma distopia misógina, ela o fez.

Importante deixar o aviso: alguns trechos são muito violentos. Estupro, culpabilização da vítima, enforcamentos e linchamentos públicos e misoginia escorrendo pelas páginas.

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O Pesadelo da Aia
CabulosoCast 164: O Conto da Aia

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