Raquel, Agatha, Isabel e Paula

Na escola, conheci a Raquel. Não tenho certeza de quando caímos na mesma turma, nem como começamos a conversar. Mas uma coisa é certa: nós sempre gostamos de criar histórias.

Tivemos a tarefa, certa vez, de reescrever a letra de Pelados em Santos, dos Mamonas Assassinas, sem alterar o sentido da história contada. A Raquel e eu não conseguimos terminar o exercício na aula: nossa vontade de fazer algo poético, rimado, bonito só nos deixou chegar à terceira estrofe, até a aula acabar. (se isso for fantasia da minha mente, peço licença)

Algum tempo depois, nós criamos um universo paralelo baseado em Mitologia Grega, muito parecido com um sistema de RPG. Acho que mais uma ou duas pessoas participavam. Funcionava assim: nós conversávamos sobre os problemas locais, combinávamos um ponto de encontro e fechávamos os olhos. Algum tempo depois (já de olhos abertos), debatíamos os feitos no Olimpo, o que deuses e humanos nos disseram e planejávamos o que faríamos quando voltássemos pra . Não durou muito, mas era divertido.

A Raquel me apresentou Agatha Christie. Foi fácil gostar daquelas histórias, acompanhar as investigações do Poirot, me surpreender com as descobertas. Não foi a primeira leitura fora do currículo escolar, mas foi a mais marcante. Depois de conseguir decorar o poema do livro E Não Sobrou Nenhum (O Caso dos Dez Negrinhos), meu objetivo de vida era ler TODOS os livros da Agatha. Eu imaginava que assim seria gasto todo o dinheiro do trabalho na vida adulta.

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Agatha na minha estante

Não aconteceu como eu gostaria. Na verdade, faz é bastante tempo que não leio Agatha Christie, mas as marcas permanecem.

O lance é que a Dama do Mistério foi a primeira mulher que li. A memória é falha e posso estar bem (BEM) enganado. Porém, foi uma experiência muito importante na minha vida. E eu não tinha noção de que aquelas leituras eram uma transgressão. Na graduação (Letras), a fixação por clássicos é absurda e excludente. Se muito, Clarice, Cecília, Inês e Florbela foram mencionadas. Eu não estou exagerando: mencionadas. Inês Pedrosa foi tema de um trabalho meu e fim. Clássicos. Mais do mesmo.

(respira, respira. deixa a revolta para outro dia)

Passei uma semana acompanhado pelos 4 livros iniciais da série Harry Potter, da J. K. Rowling. Eu me encantei pela história, afinal, tinha a mesma idade de Harry no 1º livro e, olá, professores!, toda aquela magia fazia sentido pra mim.

Eu passava um tempo considerável na biblioteca da escola. Eram períodos flutuantes, mas necessários. Era prazeroso, apesar do absurdo de ter tão poucos livros da Agatha Christie. Tive que procurar novas leituras e novas autoras.

Eu continuava sem a noção do que significa ler uma mulher. Escolhia os livros que me atraiam pela capa ou que estavam perto de leituras anteriores. Mesmo assim, a mão contestadora tremia. E foi quando descobri Isabel Allende.

A Casa dos Espíritos está aqui na minha estante porque eu esqueci de devolver o empréstimo feito quase vinte anos atrás, resistindo às mudanças de casa e às doações. Eu não me lembro bem da história e, mesmo assim, nunca me desfiz do livro – tá na lista pra reler, inclusive. Algo nele me atrai…

Dois meses, eu tropecei e caí num sebo. Entrei daquele jeito que pessoas que caem em sebos têm, aquela procura por nada específico, apenas uma olhada sem compromisso, a troca de energia e o ataque de rinite… E, encolhidinho numa prateleira, estava Paula, também da Isabel Allende.

2016-06-25 22.20.05

Eu precisava de uma leitura que me prendesse. Tinha terminado a trilogia Millenium e nada mais me atraia, porque eu procurava pela Lisbeth Salander em cada página. Então, aquele livro apareceu na hora certa: uma biografia (adoro biografias!), um documento sobre a América Latina (minha atual curiosidade fixa), uma autora que eu precisava reconhecer.

Paula é filha da Isabel. Ela adoeceu e passou quase um ano em coma. Nesse período, Isabel escreve uma longa carta biográfica para que a filha possa se lembrar de sua família e de sua história com mais facilidade quando acordar. É um livro pesado, aflito, mas cheio de amor e força.

Curiosamente, o exemplar que comprei estava autografado. Só vi quando cheguei em casa e – vejam só – estava dedicado a uma mulher, Wania.

Para que mais mulheres sejam lidas, basta que leiamos mais mulheres. Reparem no que está nas suas estantes, nas suas referências. Será que você “pula” um livro quando vê o nome dA autorA? Você acha que mulher escreve para nicho? Você diz que Jogos Vorazes é coisa de menininha (pra ficar em um só exemplo)?

Leia mulheres.

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Nesse ano já li mais mulheres do que homens
CabulosoCast 142: Mulher e Literatura
Leia Mulheres
AntiCast 211: As Mulheres Estão Destruindo a Ficção Científica
Capitolina

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