Suas mãos estão sujas de sangue

Uma afirmação.

Quando você diz que nos “aceitaria”, como se fizesse um favor, você nos mata. Suas piadas, seu risinho de escárnio, tudo isso nos fere.

É fácil dizer “não tenho nada contra, mas…” e achar que tudo tem limite, que deveríamos ter limites. Como é ser cis/hétero? Vocês são tratados como se tivessem alguma doença também?

Te impedem de doar sangue? Te olham feio do transporte? Aliás, você já sentiu medo de que te empurrassem na linha do trem? Você recebe olhares ameaçadores quando sai de mãos dadas com quem ama? Você ouve que não é normal ou decente ou certo? Tiram as crianças do seu convívio? Pensam bem antes de te convidarem para um evento, porque “ah, você sabe como é fulano…”?

50.

E ainda evita-se, a todo custo, chamar de crime de ódio. Porque, a partir do momento em que esse ódio for assumido por vocês (nós já o conhecemos), não há volta.

50.

O número choca, a brutalidade choca. Quantos mais já se foram para vocês deixarem de nos perseguir? Quantos mais precisarão ir?

Vocês dizem “Tudo bem, desde que longe de mim”. Longe quanto? Somos expulsos de casa, da escola, dos hospitais; privados da luz do dia. Mesmo o cemitério parece não ser longe o bastante.

Nós lutamos, continuamos. De várias maneiras. Nossa arma é nossa própria existência incômoda num mundinho cishet-normativo higienista racista.

Há quem entregue flores para nossos carrascos, um gesto que tenta a conciliação. Eu não sou desses.

Mas há flores aqui. Só resta a vocês assistir à nossa Primavera.

 

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