Aurora

A Madrugada soltava seus tentáculos e assustava os desprevenidos. Quanto mais dominava o espaço, mais poderosa se sentia. Crescia rapidamente, faminta de toda luz que pudesse engolir.

-É preciso fazer alguma coisa. Estamos nos encaminhando para uma Era Fria.

-Não podemos interferir. A Madrugada é tão necessária quanto qualquer um de nós. Ela deve parar sozinha.

-E vamos esperar que ela se alimente a seu bel prazer? Nada restará até o fim da Madrugada.

Enquanto isso, jovens desavisados ou aventureiros arriscavam-se à sombra. Sozinhos ou em grupo, com ferramentas ou com as mãos livres, enfrentavam o desconhecido. Poucos eram aqueles que, pegos de surpresa, cobriam-se com o manto do sono e fingiam dormir para salvarem suas almas. Desses, quase nenhum acordava.

A Noite reclamava resistência. Não mais acreditava em vilões ou mocinhos, mas sabia que agir era crucial naquele momento. Temia não poder acalmar corações e inspirar canções com sua face estrelada e seu pingente de lua. Havia espaço para todos os tempos e tempo para todas as fases; quando somente um dominava, tudo era consumido até o caos desigual.

Seus Guerreiros surgiam de todos os cantos, excitados com a sua chegada. Defendiam seu território para que os outros pudessem descansar. Ato contínuo, a Noite liberava seu abraço e as pessoas entregavam-se aos sonhos.

Os desesperados, entregues à sua sobriedade, passavam a acreditar que talvez houvesse um caminho para a solução. No entanto, era a Noite quem agora se via num conflito violento, cuja resolução dependia de uma luta dolorosa. Um embate batia à porta e nada a convenceria a recusá-lo. Sua perigosa irmã, que também era uma parte sua, precisava ser contida.

O Crepúsculo tentava manter sua convicção, apesar do crescente desejo de abandonar a discussão. Entre duas Grandes Irmãs, sentia-se esmagado; a crise acentuava seu esgotamento.

-Eu penso em desistir. Já tivemos conversas, fizemos ameaças…

-Você não pode desistir. Falta-nos encontrar uma forma de equilíbrio.

-Não há equilíbrio com a Madrugada! Ela tem uma sede viciada, cumulativa. Só quer mais, mais e mais. A boca mastiga a cauda, se assim a alimentar em dobro!

No fundo, o Crepúsculo sabia de sua importância. Ajudava os olhos a se adaptarem à chegada da Noite e, a seu modo, mantinha os ânimos apaixonados. Existia como o sorriso que ligava os extremos da face do tempo, a transição suave que embeleza e matura os seres.

Sua juventude era um breve espetáculo de esperança. Em sua confusão e singularidade, cores apareciam sem início nem fim definidos. Aceitaria, contudo, ceder seu momento à Madrugada, se assim fosse preciso. Tudo o que desejava era evitar mais ferimentos para sua fusão.

A Tarde vinha quente mais uma vez. Sua presença exuberante quase sufocava; teimava em distribuir calor e luz, mesmo quando não era solicitada. Sentia que sua rejeição era causada, em parte, pelo poder de influência da Madrugada.

Por vezes, levantava a voz para acalmar a Noite, quase a ponto de anular o Crepúsculo. Permanecia mais do o esperado, teimosa, intensa. Beirava o insuportável. No auge de sua irritação, quando o sangue fervia quase sem controle, derramava pesadas lágrimas para limpar as feridas que causou e devastar o que não conseguia resolver.

Não era fácil para a Tarde enfrentar a Madrugada, sua gêmea oposta e perfeita. Armava uma estratégia cautelosa, baseada na coexistência. Afinal, sem o frio, ninguém entenderia a importância do calor. Impor um limite e esconder a Madrugada com luzes artificiais não seria benéfico.

A Manhã chegava preguiçosa, bem devagar. Parecia sonolenta, talvez de ressaca. Ficava cada vez mais fraca, após os usos abusivos a que era condenada. Sua energia era famosa e trazia benefícios bem reconhecido para os que tinham medo da Madrugada. Algumas pessoas ambiciosas, no entanto, sintetizavam a Manhã em pequenas cápsulas, quase vazias de significado. Eram vendidas como a cura mágica para um problema pouco compreendido.

O que acontecia, de fato, era o torpor. Com os corpos relaxados e pouco resistentes, as pessoas não percebiam o perigo se aproximar. Quando o efeito passava, procuravam por outra dose, qualquer que fosse o preço. Deixavam de ser alvos atraentes porque já não eram de verdade, integrais.

Sem defesas, a Manhã via seu tempo escorrer dia após dia. Mal conseguia oferecer resistência e recorria com frequência à Tarde, em busca de empréstimos e ajuda. Jamais abandonava a esperança, embora parecesse tão anestesiada quanto quem a usava sem critério. Seu maior medo era não aguentar mais, condenando uma parte do dia às garras da Madrugada.

-Ela é nossa melhor arma.

-Isso não é uma guerra. Não podemos usá-la desse modo.

-Deixemos que ela decida sozinha!

Aurora ouvia a discussão ao longe, enquanto mantinha os olhos cerrados. Parecia frágil demais até para argumentar. Tinha permanecido intocada até o momento, entre muita especulação e pouca explicação.

Mesmo quando a Madrugada atacava com toda força, saqueando as fontes de calor que encontrava, a Aurora trazia um dia novo. Seus pequenos passos, quase imperceptíveis diante da Irmã poderosa, eram confiantes. Sem esforço, ela deixava o espaço livre para a Manhã.

Após alguns momentos de expectativa silenciosa, levantou-se.

-Eu vou.

E quando a Madrugada alcançou o local da discussão, sentindo-se vitoriosa, Aurora saiu, carregando apenas a certeza de que o amanhã precisa acontecer.

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