Um nome

Eu ainda não entendia bem o que tinha acontecido, quando me entregaram papel e caneta. “Perdão, doutora, é o que temos.” Doutora? Minha memória falhava, tudo aquilo parecia um engano e eu não escrevi.

O sono vinha com frequência. e desconfiei que me dopavam. Eu não sabia de onde vinham aquelas conclusões, como se uma parte das explicações estivesse bloqueada. Eu apenas sabia e teria que me virar com aquilo. Enquanto acordada, meu corpo era só dor.

Não sei precisar quantos dias tinham se passado até chegar o médico. Um homem alto, claro, com olheiras profundas e cabelos grisalhos. Eu não sei por que o chamei de médico – talvez sejam esses padrões de beleza que nos fazem respeitar mais um tipo de gente do que outro. De qualquer forma, eu queria saber onde estava e o que fazia minha garganta doer tanto. Segurei a caneta para chamar sua atenção.

Olá, doutora. Sente-se bem para conversar?”

Eu o olhava sem entender. Tinha muitas perguntas e não conseguia escolher a primeira.

Estou doente?”. Foi o que considerei mais importante no momento.

O suposto médico deu um sorriso que transformou todo o seu rosto em uma máscara de abatimento. Co delicadeza, ele se sentou aos pés do leito em que eu estava e colocou as mãos sobre os próprios joelhos, sem desviar os olhos dos meus.

Você não está doente, mas precisa de cuidados. Vamos falar sobre isso depois, pode ser? Agora, seria bom que você escrevesse seu nome para mim.”

Meu nome. Nem pensei em tentar lembrar.

Se tiver dificuldade, podemos deixar para outro dia.” O médico ensaiava me deixar, decepcionado com o meu silêncio e minha confusão. Espere. Sim, eu sabia meu nome. O fato é que, se aquela pergunta era posta, meu estava deveria ser bastante grave.

Trêmulas, as letras surgiram: AGATHA. Por alguma razão, ver meu nome escrito foi como deixar um mergulho no último momento de fôlego. Eu existia e não me lembrava.

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