Machismo e Ficção

[Spoilers may happen]

Quando a terceira temporada de House of Cards terminou, eu fiquei de queixo caído com a última cena. Torcia para que a Claire desafiasse o Frank e celebrei sua saída triunfal da Casa Branca. Sem cair na conversa de bem x mal ou “ninguém presta em HoC”, aquela conclusão me pareceu a mais coerente com a trajetória das personagens.

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Quem acompanha a série, sabe que Frank é confrontado pelo passado e pela realidade de que sua carreira política só aconteceu por causa de seu casamento. Além de um pai rico que financiou os primeiros passos do marido, Claire tem um papel essencial: é um apoio constante, uma arma poderosa e uma fiel aliada. E nada disso a torna uma esposa decorativa, já que ela participa dos jogos políticos e é uma excelente estrategista.

É fácil constatar que Claire é uma mulher forte, ambiciosa e quase (quase!) inabalável. Ela não faz o que faz por causa de Frank, mas por um brilhante futuro para ambos. Quando percebe que está ficando em segundo plano e que não há reciprocidade na relação, ela não teme enfrentar Frank.

E todo mundo gosta dela, nem que seja um tiquinho.

Desde o final da s03, eu fiquei com receio do que aconteceria com a Claire. Não no sentido de que ela fosse se dar mal, mas do mimimi que poderia surgir por ela ter deixado o Frank – aliás, achei todo o drama da internação dele uma maneira bem ruim de reuni-los. Afinal, mesmo em 2016, a mulher forte ainda parece uma ideia absurda.

Eu lembrei da Skyler White, de Breaking Bad. Uma das primeiras sugestões do google é “engordou”. Outra é “morreu”. Foram diversos comentários sobre a aparência da Anna Gunn (a atriz que interpretou Skyler) no decorrer da série. Porque era muito relevante esse assunto, né?

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Anna chegou a escrever para o New York Times sobre o ódio contra sua personagem. Ela disse esperar que Skyler fosse considerada uma antagonista, mas que se assustou com a repercussão negativa. Num trecho, Anna questiona essa reação acontece porque Skyler “não apoia” o marido e nem se submete à vontade dele -pelo contrário, ela “não se conformou com o ideal confortável do arquétipo feminino.”

Skyler e Walter são iguais em sua convicção (manter a família unida, feliz e blá), mas agem de modos distintos. Se a situação fosse invertida, será que ele seria também odiado? E se o Walter não fosse caucasiano, ele ainda seria tão apoiado?

Eu poderia citar outros exemplos. Rolou uma comoção por causa do último Star Wars, uma campanha de boicote. Muita gente rejeita ler/assistir a Jogos Vorazes, porque a ideia de uma adolescente tão foda é inconcebível – e reduzem tudo a um triângulo amoroso. Já li comentários de que filmes como Malévola, Frozen ou Valente ensinam as meninas a odiarem homens (!). A Ubisoft justificou a ausência de personagens femininas com a desculpa de que são difíceis de modelar!!!! E por aí vai (tem mais no Momentum Saga).

Não dá pra saber o que acontecerá em House of Cards. Claire e Frank são novamente aliados e ela parece ter até mais apoio do que ele no jogo político. Por uma lado, se não sabemos o que vai acontecer na trama, já podemos prever a recepção de parte do público caso Claire se torne uma ameaça efetiva.

Ficção ou vida real, ainda acredita-se que uma mulher poderosa é uma mulher perigosa. Ficção E vida real, as mulheres lutam, conquistam, existem e resistem. E elas não têm que agradar a ninguém.

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