Fantasmas da Areia

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Já estamos há 8 dias caminhando, e para todos os lados que eu olho, só vejo areia. Penso se o mundo é mesmo tão grande quanto dizem ou se tudo se resume à imagem vazia que preenche minha visão.

Meu pai nada fala. Andou na frente do nosso pequeno bando nos três primeiros dias e parecia saber o que fazia. Ele era o guia e nós devíamos obedecer. Até que abaixou a cabeça e começou a esfregar os olhos – maldita areia, maldito vento, ele praguejou. Mas só seus olhos ficaram irritados e não me lembro de ventar. Foi a primeira vez que descobri meu pai mentindo.

Minha mãe envelheceu. Seu corpo tem rugas como um tronco de árvore e seus braços se alongam como os troncos. Ela segura meu pai sem tocá-lo diretamente, apenas deixando seu corpo ao lado do dele, cotovelos roçando. Um puxa o outro nesse gesto, posso perceber. Sem abandoná-lo, ela cuida de mim, do meu avô e de minha irmã menor. Seus galhos não fazem sombra, estão secos e sem folhas. Mesmo assim, são a nossa casa.

Eu olho para trás e nossos passos estão marcados. Minha irmã tenta imitar meu pai e acaba desfazendo as marcas. Para ela, tudo tem sido uma aventura, apesar de pedir comida quente aos prantos. Eu olhos para trás, tento encontrar o início da caminhada, entender o que deixamos – quem sabe, uma dica para onde estamos indo – e nada vejo. Se havia uma cidade aqui, se houve um dia uma cidade no mundo, temos que cavar para encontrar, cavar com nossas mãos e nossos sapatos. Quando paramos para descansar, meu corpo cai antes de eu retomar essa ideia.

Parte de mim reclama do ritmo que estamos fazendo. Sinto que poderia andar mais depressa, papai também, talvez até minha mãe, se os galhos fossem podados. Será que o avô e a pequena não poderiam ter ficado em casa? Um é velho demais e a outra muito pequena para nos acompanhar com uma boa velocidade. A areia, sob os pés do vô, parece um obstáculo e toda vez que ele tropeça, diz que estamos desperdiçando comida com ele. Reparo que ele come pouco, não entendo o que quer dizer.

Somos cinco fantasmas caminhando sobre a areia, fantasmas que deixam rastros. Fantasmas que tentam chegar.

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