Chá de sumiço

Passei por uma semana arrastada, como se tivesse um vagão de trem cheio na mochila. Meu corpo entortou mais do que o de costume por causa do peso extra. Revidei, fiz meu crossfit autônomo, mas uma dor se espalhou, toda sapeca, até qualquer movimento sutil para um lado virar uma porrada para o outro lado.

Depois de várias noites sem dormir – dormir mesmo, descansar – resolvi tomar um chá relaxante pra ajudar. Achei uma caixinha em casa, empoeirada. Devo tê-la comprado há mais de um ano, quando tive uma grave crise de tosse. Não reparei no vencimento, mas deveria.

Olá, como você está?

Sim, eu sei. Eu sumi. E não foi por causa de qualquer chá vencido (não venceu, eu conferi depois). E não sumi da vida, da adultice, dos perrengues. Sumi por causa de tudo isso (e das dores esquisitas que aparecem pra me assombrar).

Se eu disser que, durante duas semanas, eu tive a rotina trabalho-casa-curso-sono-trabalho, vai parecer que minha vida foi mais tranquila do que me pareceu. Talvez, tenha sido mesmo, mas não foi assim que eu senti. Preferi me dedicar àquela realidade temporária pra não surtar com todos os papéis voadores com ideias anotadas, louça na pia e vontade de não parar (não mais!).

Sumir é bom, às vezes. Antes, eu queria desaparecer pra valer, deixar a cama me engolir só pra eu não precisar levantar e arrumar um jeito de fazer isso. Não queria fazer nada, as coisas que me alegravam viraram um fardo. Sumir parecia um caminho bem óbvio.

Dessa vez, contudo, tudo está diferente. Eu não sumi, sumi, assim, pra valer. Pela primeira em muito tempo (na… VIDA… quem sabe) eu tenho uma vontade genuína de estar perto das pessoas. Tenho conhecido e/ou me reaproximado de pessoas tão incríveis, que o convívio social vem me assustando menos. Até whatsapp eu tenho respondido, veja só!

É mais ou menos como se eu tivesse tirado férias: o mundo continua, e eu fui conhecer outro ponto dele. Escalei uma montanha pra observar minha vida por outro ângulo, com binóculos e bebericando uma xícara de chá. Lá embaixo, rola uma adaptação pra minha ausência – não uma solução instantânea de que posso me aproveitar no retorno – e eu volto, mochila nas costas. Mochila cheia, novas ideias, planos, compromissos, porém leve, leve.

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Eu sumi porque saí pra comer fora. Tive que estudar pra uma prova e não consegui preparar minha própria comida. Encontrei um lugar pra comer, simples, barato, não muito cheio nem barulhento. Peguei o cardápio, as opções não me agradaram, pedi um arroz e feijão básico, com salada e batata frita. Sim, suco de laranja com gelo e sem açúcar.

Mesmo com o pedido feito, segurei o cardápio, folheei… Encontrei opções que me pareceram saborosas e comecei a levantar o braço. Será que ainda dá tempo de trocar o pedido? Antes mesmo que alguém me notasse, meus olhos viram mais e mais possibilidades. E se eu pedisse pra experimentar um pouco de cada? Só uma porçãozinha, quem poderia me julgar? Mas é muita coisa, não tenho dinheiro. Parcelo. E o peso? Vai embora. E se for tudo muito ruim? E se eu gostar de tudo e que quiser repetir? E se o cartão não passar? E se eu quiser sobremesa? Vou ter que pedir outro suco pra ajudar a descer e…

Enquanto comia – e recebia uns olhares questionadores de quem não sabe se deve me oferecer um frango ou um ovo frito -, eu ria por dentro. Não um riso de escárnio, só um riso divertido, quase infantil. Lembrei de quando qualquer escolha era um tormento e eu acaba não escolhendo – não fazendo – o que quer que fosse. Eu inventei nomes pra isso e não desafiei. Não que seja fácil hoje. Mas ao invés de sofrer por uma centena de opções, eu seleciono cinco ou dez apenas. Pode ser eu eu consiga

[ler/ouvir/assistir/conhecer/escrever/aprender/entender/contar/jogar/dançar/fazer/viver]

apenas duas ou três, até mesmo uma só dessas coisas. Mas eu fiz. É por isso que sumi. Porque fui comer fora, mastiguei sem pressa e pensei: ok, o que mais tenho pra fazer hoje? E o que mais eu posso fazer hoje?

Eu pensava que só funcionava com horários marcados e tarefas definidas. Se ficasse livre demais, eu me perderia. Na verdade, tudo era tão concreto, tão fechado e certinho, que eu olhava pela janela porque queria estar lá fora e me livrar daquele cubículo com mesa, cadeira e uma pilha de pendências. Olhar pela janela todos os dias Estar lá fora todos os dias, lá sendo aqui, exige mais responsabilidade ainda do que parece. Mas é uma responsabilidade gostosa, porque quando começa a chover e eu decido não correr, eu sei o que pode acontecer depois e somente eu sou responsável pele suposto futuro resfriado. Eu posso ter me alimentado bem e estar forte pra tomar chuva. Eu posso contar com pessoas pra me prepararem chás e me manterem aquecido, sem que eu tenha que pedir. Eu posso ser a pessoa que prepara o chá. Podemos tomar juntos.

Que tal?

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Sumi porque, como eu disse da última vez em que nos encontramos, eu preciso me cuidar e, uau, eu comecei! Não é que eu tenha te esquecido ou goste menos de você. A gente vai sair qualquer dia e fazer nossas coisas – só nossas – de sempre. Mesmo que eu tenha trocado a cerveja por chá. Não precisa ter pressa.

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