Missão felina

Somente uma tarde ensolarada e com vento refrescante para fazer as pessoas andarem por aquela área tão estranha. O mato ia lado de ambos os lados da rua, com eventuais barulhos surgindo ao longo do caminho. Era uma região a ser evitada, a não ser que você fosse um experiente morador armado com um facão e rápido nos reflexos. Mesmo assim, turistas tinham a teimosa tendência em seu aventurar.

-Olha, que lindo aquele gato!

-Onde, amor?

-Ali, no telhado!

Droga, me descobriram. Eu estava seguro vivendo numa casa isolada, mas aqueles jovens apaixonados tinham que me notar durante seu passeio medíocre. O céu estava aberto e eu queria aproveitar a oportunidade para falar com a família sem interferências.

Os humanos que me abrigavam vivem num lugar tão parecido com o fim do mundo que só antenas parabólicas funcionam por aqui. Não é a melhor opção que existe, mas dava pro gasto. Eu sou o único gato da área interessado em antenas, o que facilita a minha vida. Nunca pego sinais congestionados.

As mãos curiosas e intrometidas do casal estavam longe de mim, só que eles permaneciam me olhando, apontando e rindo, como se um gato sobre telhas num dia de sol fosse tão raro quanto uma vídeo-cassetada nova. Humanos, né? Alonguei meu corpo, ericei os pelos do alto da cabeça até a ponta do rabo e saí antes que aqueles dois tivessem a brilhante ideia de me fotografar.

Sem outra opção na lista de afazeres, fui à cozinha comer.

O sobrado tinha uma varanda espaçosa, logo atrás das telhas onde eu me encontrava. Era o meu lugar favorito da casa e, por mim, todas as minhas coisas poderiam ficar ali: caixinha de areia de um lado, comida e água do outro. E a rede – ah, a rede – para eu dormir. Tudo isso ao lado da antena! Eu mandaria imagens de fazer inveja.

Os humanos não têm muita noção, então me deixaram com uma parte pequena num corredor. Um canto sem luminosidade alguma, que me deixava com a impressão de tomar sangue de demônio em vez de água. Reclamei até me darem um local na cozinha, com vista para o quintal e para o cachorro. Ou melhor, ele tinha vista para mim – a ração tornava-se incrivelmente melhor depois de temperada com provocação.

-Tá com fome, Cristal?

Interrompi minha refeição para encarar um dos tipos que viviam na casa. Tive vontade de respondê-la que o processo de mastigar e engolir aqueles bloquinhos secos e farelados era o equivalente a um jogo de basquete para a minha espécie, mas nunca é bom usar de sarcasmo com quem te alimenta. Então, eu apenas a ignorei e encarei o pratinho em busca de vida inteligente na Terra.

-Ah, por que você tá sério, Cristal? Que gato bravo!

Esperei a humana se afastar para respirar de novo, temeroso de que a falta de lógica terráquea fosse contagiosa. Quando eu me preparava para viver aqui, ouvia as teorias que humanos criam sobre nós, sempre acreditando que eram piadas. Como eu estava enganado! Terráqueos humanos realmente acreditam que somos uma espécie fria e que não demonstra carinho! Preciso arranhar o sofá toda vez que ouço essa história hilária! Não consigo me conter e não posso gargalhar. Não é irônico que uma espécie que destrói o lugar em que vive e as pessoas com quem deveria compartilhar esse lugar se ache no direito de nos julgar?

Eu bebia água para me acalmar, quando uma imagem torta se projetou na janela. Era Quincas, o outro quadrúpede da casa. Ele estava agitado, com a melhor expressão de quem não se preocupa nem com pulgas. Pobre cãozinho, tão satisfeito com sua vida de servidão no planeta azul. Uma pena que cachorros se iludam com tanta facilidade. Se eles tivessem permanecido em sua função de ajudar os humanos a se protegerem e respeitar outras espécies, eu não precisaria estar aqui, tão longe de casa.

Quando aceitei a missão de vir para Terra, acreditei que a pesquisa felina estivesse avançada. Vários de nós estão aqui há tempos, tentando descobrir se algum composto químico na superfície do planeta seria a causa de tanta maldade e sede de destruição por parte da humanidade. Ocupamos todo o globo, com corpos adaptados para cada região e não sentimos alteração em nosso temperamento. Gerações anteriores à minha chegaram a acreditar nem tudo estava perdido, bastava usar uma linguagem mais eficiente.

Meu avô, por exemplo, dizia que não deveríamos modificar nada ativamente na Terra. Bastava mostrar uma nova forma de se relacionar e viver. E – importante – não se deixar iludir como os cães fizeram. Esse assunto era motivo de brigas em nossa comunidade. Gatos de lados opostos brigam até mesmo por aqui, no planeta água. Gangues de radicais e moderados encontram-se de madrugada e discutem até o amanhecer, o que prejudica nossa imagem perante os humanos, que adoram uma treta.

A estadia aqui tem durado mais do que eu gostaria. De início, foi excitante pensar em viver em outro planeta, mesmo que por razões tão ruins. Eu gosto de novidades. Li o relatório sobre a família que me foi designada e não me pareceram tão ruins. Pensei até que o cachorro poderia me responder algumas perguntas.

Ainda no caminho para a casa nova, no colo da minha fonte, recebi chamados de vários gatos famintos, doentes ou abandonados. Gatos que repetem o que os cachorros fizeram no passado e que se deixam iludir por um pacote de sachê. Na região em que vivo, existe um grande número de desabrigados autônomos, que caçam e se viram, sem opinião política definida. Perguntei se gostariam de transporte para o lar ou se tinham interesse em usar a minha antena por algumas horas do dia. Nada.

Termino de comer e volto para o telhado. Aproveito os últimos raios de sol para aquecer meu corpo antes do banho. Não há nuvens no céu e vou telefonar para minha mãe quando os humanos se distraírem com a novela, já que o sinal fica mais forte. Do tempo em que estou aqui, ainda não tenho muito a acrescentar aos estudos. Os humanos não parecem todos ruins, pode até haver uma chance.

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