O Homem Bicentenário: uma leitura queer

-Meu caro Andrew, como você mesmo acaba de explicar, tanto os robôs como os homens te trataram como se você fosse humano. Em última análise, portanto, você já é.
-Em última análise não basta. Não só quero que me tratem como homem, mas que também seja juridicamente considerado como tal. Quero ser homem no sentido legal.
-Isso já é outra coisa – retrucou DeLong. – Aí já estamos entrando no terreno do preconceito humano e do fato incontestável de que, por mais que pareça, você não é homem.
-Como que não sou? – reclamou Andrew. – Tenho aspecto de homem e órgãos equivalentes aos de um ser humano. Que, aliás, são idênticos aos de certas criaturas que têm de usar próteses. A minha contribuição artística, literária e científica para a cultura humana é tão importante quanto a de qualquer homem contemporâneo. Que mais se pode exigir?

O trecho acima foi extraído do conto O Homem Bicentenário, de Isaac Asimov.

Basicamente, conhecemos a história de Andrew, um robô doméstico que desenvolve personalidade e deseja se tornar humano. Durante sua trajetória, alguns direitos são concedidos, e atitudes são tomadas para que a lei não se aplique. Andrew, por exemplo, é o único de seu modelo e idade; tão logo sua sensibilidade se manifestou, outros robôs de sua série passaram por um recall para evitar que o “erro” se repetisse.

Bicentennial

Muita gente reconhece que essa obra é um clássico, que mostra a habilidade de Asimov ao usar um robô como pano de fundo para uma discussão muito mais filosófica. Duvido muito, especialmente depois do filme, que alguém não tenha se emocionado com a luta de Andrew, que não tenha torcido por ele. Só que a empatia para por aí – é uma ficção, afinal, não tem mais o que se discutir. Será?

Ao longo da leitura, eu me identifiquei muito com o Andrew, com a luta para ter sua humanidade reconhecida. Ele vive numa sociedade que sempre o verá como uma máquina, por mais que avanços tecnológicos e científicos tenham surgido, por mais que nada em sua aparência aponte sua origem (ele pode se alimentar, inclusive), por mais que ele não se identifique como máquina. A realidade da população trans não é muito distante disso.

Tenho conversado com amigas, amigos e amigues trans nos últimos dias e há um sentimento de insatisfação bem comum. Onde quer que estejamos, há uma ideia bem intencionada de que tolerância nos basta. Veja só, tolerar é uma agressão. Tolera-se o que incomoda, o que não é bem-vindo; conforma-se. Tolerar não é incluir nem respeitar.

A cisnormatividade cria um imaginário, uma cartilha: as pessoas trans, para terem seu gênero legitimado, precisam seguir linha por linha, sem cometer qualquer erro, “com base em esteriótipos e papéis de gênero das cavernas” (fala de um amigo). É preciso dizer, agir e parecer com o que se define como homem ou mulher, como se as pessoas fossem todas idênticas. Convença-me de quem tu és, ou te devoro.

Andrew é ridicularizado ao sair vestido, tem sua integridade física e sua existência ameaçadas. Precisa convencer (ou fazer entender) que é autônomo, que toma decisões e que é seu próprio “dono”. Quando nada mais parece caracterizá-lo como um robô, ele precisa mostrar que os humanos “orgânicos”, por assim dizer, em nada são naturais, até que a própria noção de humanidade seja questionada. Isso me faz pensar no discurso de determinismo biológico: se uma mulher é assim assinalada por causa de seu sistema reprodutivo, mulheres cis que não têm o útero*, por diversas razões, são “menos mulheres”, então?

Tal qual Andrew, eu tive o corpo fulminado por olhares: há dois anos, escrevi um cartaz com os dizeres “Sou trans e exijo respeito” e uma chuva de curiosidade caiu. Eu notava as pessoas ao meu redor procurando por uma cicatriz, uma marca, um gesto, qualquer coisa que pudesse convencê-las – ou ajudá-las a desvendar o que tenho entre as pernas. Nas conversas mencionadas, surgiu o mesmo tipo de reclamação: quem nada tem a ver com a nossas vidas é justamente quem mais quer provas, laudos, fotos das cicatrizes e das ampolas vazias; gente que nos separa em “meio trans” e “trans de verdade”.

Sem título

Ora, eu deveria deixar de reclamar e procurar acolhimento com quem também leu O Homem Bicentenário e se emocionou, certo? Talvez, eu continue sendo o problema, meu próprio problema, e esteja perto das pessoas erradas. Talvez… exceto por todas as denúncias de misoginia, racismo, LGBTQfobia**, gordofobia que surgem no fandom nerd/geek. Os homens brancos cishet não lidam muito bem com diversidade ou com espaços em que eles não sejam o centro das atenções.

Mas aqui vai um spoiler: não vamos retroceder, não tem volta!

Eu não sei o Asimov pensou quando escreveu O Homem Bicentenário e tenho certeza de que ele detestaria a minha interpretação. A ficção, afinal, é uma invenção; ele escreveu sobre um tempo que não existe. Só que a ficção científica não é apenas sobre robôs ou naves ou viagens no tempo; pode ser um pano de fundo para discussões da atualidade. Ou será mesmo que, no futuro, teremos viagens interestelares e colonizaremos planetas, mas às mulheres ainda restará o papel de companheira e mãe? Será que o futuro vai ser como em The Jetsons: o pai trabalha, o filho se aventura, a mãe e a filha passam o dia fazendo compras? E numa família nuclear branca, em que a empregada é uma robô gordinha?

Espero que não. Aliás, não espero. Construo algo diferente.

______
*Tenho como exemplo a minha mãe, que precisou ter seu útero extraído por causa de um cisto.
**Usei o termo como guarda-chuva com a intenção de facilitar a leitura do texto. É importante mencionar que cada letra tem pautas e lutas específicas e vivenciam diferentes tipos de violência e preconceito.
Anúncios