O dia

Um dia, eu me olhei no espelho
E procurei
E investiguei

Algo faltava e algo sobrava
Um monte de algos não se encaixava

Então, eu mudei

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Não foi o suficiente, eu não me esforcei
o bastante

Então, eu me odiei

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Um dia, o dia, eu me olhei no espelho
Estava tudo errado e todo, mas era eu

Eu disse: “Eu gosto de mim, foda-se o que vocês dizem”

Descobri meu nome.
Descobri que tenho um nome.

Saí do armário, um, dois, três, dez, quinhentos, saí de vários armários.

Num dia, no dia, já não me importo com o que você vê.
Abracei minha complexidade e minha simplicidade.

O cabelo enrolou, cresceu, foi raspado, cresceu, foi pro ralo.
A barriga tá redonda, tá murcha, tá inchada, tá grande, tá pros lados.
As cicatrizes estão prontas, as estrias são meu mapa astral.
As tatuagens são grandes e pequenas, me fazem um painel.

A voz, o nariz quebrado, o dente trincado, a escoliose.

A mente, o dia.

Um dia, quem sabe.

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