Carta para você

2016-02-22 17.09.27

Olá! Como vai?

Nossa, há quanto tempo! Eu poderia dizer que você sumiu, mas este não é o momento para te culpar por qualquer coisa que seja. Eu também sumi.

Por falta de grana pra dar aquele rolê, por receio de encontrar certas pessoas que frequentam a região, por morar muito longe agora. Bem, a carta não é sobre minha razões para evitar o contato social e como isso nos afeta.

É para perguntar se está tudo bem.

É para dizer que sinto saudades.

Ok, cartas são coisas velhas, eu sei. Poderia ter te mandado um e-mail ou te ligado. Mas eu adiei essas palavras por tanto tempo e acho que somente papel e caneta podem transmitir o que sinto (você sabe que telefones me amedrontam, né?)

Eu te acompanho nas redes sociais. Vejo suas fotos de poses poderosas, cheias de curtidas e comentários; vejo seus textos, cada frase sagaz, tudo bem colocado; leio suas postagens de militância, as palavras fortes, empoderadoras e edificantes. Você parece forte, parece não se lembrar de mim.

Na verdade, você parece estar muito bem e não precisar de ninguém.

Peço desculpas se a minha carência te afetar de alguma forma. Você está aí, bem, com a vida atolada de compromissos interessantes. Todos os seus sonhos parecem estar se realizando e é tudo fruto da sua dedicação e da sua verdade. Do fundo do coração, estou feliz por você. Não quero que essa carta pareça um balde de água fria de um fantasma que agora surge e te assombra.

Estava me lembrando daquela vez em que nos encontramos. Acho que foi a última. Você se sentou num sofá e fez uma brincadeira sobre roubar livros. Nós tiramos uma foto sorridente, você me abraçou com tanto carinho… Fiquei tão contente por te encontrar, que nem perguntei se você precisava de algo. Aproveitei que você estava ali, que sua companhia me faz bem e guardei uma boa memória. Espero que seja boa para você também.

Teve aquele outro dia, quando nos vimos no teatro. Foi uma peça bem diferente. Eu corri pra te abraçar assim que te vi, mal conseguia falar. Se eu pudesse, teria passado a noite em seu abraço, a peça toda. Quase igual ao dia em que te arrastei para uma festa e nós fugimos para a varanda, para conversarmos. Quantas horas passamos olhando a rua vazia e preenchendo o ar com a alegria de estarmos lado a lado?

São todos momentos, os nossos. Quando você topou ir à minha festa de aniversário maluca e me contou que deixou a faculdade; quando você subiu e desceu diversas ruas comigo e partilhou segredos; quando você chorou por insegurança com o seu trabalho, mas terminamos a noite vendo cenas de filmes indianos; quando eu disse que você é a poesia da minha vida, e você respondeu que fará uma viagem interestadual e me encontrará pela primeira vez.

Cada dia é uma primeira vez, né?

Acho que é isso. Espero que o endereço de destino esteja correto. Assim que essa carta chegar, você terá meu endereço. Não vou te cobrar uma resposta, não tenho esse direito. Tenha seu tempo e sinta-se à vontade.

Eu te amo.

Beijos e abraços,
Julian.

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