Ano-luz

Subo a rua com o corpo curvado, a mochila formando um casco. O asfalto queima meus pés, como se a borracha do tênis fosse uma grelha. Só ouço minha respiração, alguns cachorros e as cigarras.

Quanto tempo falta para eu chegar? Menos de cinco minutos, eu acho. Mesmo assim, mais de quatro décadas nos separam. Eu sei o que vão dizer sobre meu sacrifício para chegar até ali e sobre minha enrolação para começar a dirigir. E seguirei repetindo que não é sacrifício algum o que fiz. A parte mais difícil é a maldita subida.

Mais alguns passos e alcanço os cachorros. Eles se irritam com qualquer folha que perturbe a ordem da rua. Aqui, já não há mais asfalto. Terra seca e umas pedrinhas ferem meus pés. A poeira queima minha garganta e me atrasa. Eu canso.

Não era aqui a terra de muitas águas? Que perversa ironia! As árvores mais altas, que mantêm o verde saudável em suas folhas, aproveitam o vento e parecem rir da mediocridade de quem está aqui embaixo.

Bato no portão, quase num pedido de ajuda. Vocês estão de chinelos e vestem as roupas de sempre. Cabelos brancos, cigarro, vassoura. A casa pequena demais para que eu possa me jogar no chão gelado e acalmar o coração.

Horta, gato, cerveja, comida. O cachorro que se foi por doença. Gritos. Eu grito para pedir silêncio; enervo quando procuro calma.

Vinte e sete anos não podem alcançar quatro décadas. É uma corrida que ninguém ganha.

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