Responsabilidade no playground

O mundo não é seu playground. Quer dizer, ele não é só seu. E sempre, sempre é preciso se responsabilizar pelo que se diz ou faz.

Sabe a chuva de desgraça no FB? Então? Se o que está na rede social já é tóxico, imagine a responsa que tem uma pessoa famosa. Eu não sou do time que procura podres quando um artista morre pra problematizar no Twitter. Tem muita gente que ganha grana póstuma até com o ibope, e eu escolho não financiar isso quando acho que devo. Simples. Boicote também é ação direta (e isso não é conselho, é o que euzim faço).

Pessoa famosa, aliás, é algo amplo. Tem muito produtor de conteúdo na internet que faz grana e é conhecido. Meses atrás, por exemplo, rolou a tag #AntiMachismoNerd para denunciar (de novo e de novo) o assédio e o apagamento de mulheres no meio nerd. Durante o Anticast que sobre o tema, inclusive, falou-se também sobre racismo, gordofobia, transfobia e outros preconceitos velados.

A Sybylla, umas das minhas gurus, comenta sobre isso há tempos no blog dela. Antes do citado episódio do AC, ela tinha participado de outro, com o Ivan Mizanzuk e o Fábio Fernandes. Resultado: só ela recebeu ofensas e ameaças. E é muito louco como essas coisas acontecem, um furacão de contradições que todo mundo ajuda a formar. Rola chorume quando se denuncia apagamento ou assédio, mas o número de merda que se recebe quando mulheres fazem um podcast declaradamente feminista (como era o We Can Cast It, cancelado por falta de apoio e divulgação) ou quando um evento pela diversidade acontece (foram vários comentários com ameaças dias antes do Encontro Irradiativo) é absurdo. Ou seja: “mimimi, vocês só reclamam façam seu rolê… Que rolê preconceituoso é esse que homem branco cis ht não tem lugar de fala?” Como me perguntou o Thiago outro dia: o mundo é mesmo assim?

Sim, é.

Ainda falando na Sybylla: ela foi host do AC por um tempo e rolou chorume também. Por ela e pelos temas que ela abordou. Aqui, de novo, o apagamento: quando mulheres falam, são as loucas; quando homens falam, se ouve e se dá crédito. Parece que quem denuncia precisa sempre da validação de quem é denunciado. Isso fede.

Eu não tenho muito tempo diante do PC e essa foi uma das razões para não ter uma área de comentários, porque sei que precisaria ficar de olho. Mesmo assim, penso muito antes de postar algo. Não por causa de treta, mas porque o que tenho para dizer é a respeito do pequeno lugar no mundo em que estou inserido e pode ser que alguém se ofenda. Eu não tenho obrigação de agradar a todo mundo que me lê; tenho, sim, que reconhecer meus privilégios e que eles afetam alguém diretamente, mesmo que pela internet. Aliás, escrever na internet já é um privilégio.

E sim, é possível produzir conteúdo com cuidado. Ninguém tem que gostar do que eu digo ou gostar de mim. Agradar não é função de ninguém. Mas respeitar é um dever.

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Semana passada, o Thiago me perguntou se eu tinha visto o que o Phil Anselmo tinha feito. Já pensei “lá vem merda” e não me enganei. O cara gritou wh**e po**r no palco e justificou que falava sobre o vinho branco que tinha tomado. Teve até teoria de que seria uma gíria para cocaína. Enfim, esse é um bom exemplo sobre responsabilidade. Não importa o que se quis dizer, mas sim o que foi dito. Aliás, essa é uma desculpa muito usada e muito escrota.

Como sempre, as pessoas têm medo de se pronunciar. Acontece em várias cenas, em todas talvez. Não é incomum passarem pano para o amiguinho que toca hardcore e agrediu a companheira, afinal, “foi um caso isolado, o cara é vegan e sXe.” Nunca é um caso isolado; isoladas ficam as mulheres que denunciam.

Voltando pro caso do metal, uma das motivações para eu escrever isso aqui. Logo na manhã de sábado, vi um vídeo do Robb Flynn, vocalista do Machine Head, criticando o Phil Anselmo e todo o racismo velado na cena metal. Hoje – domingo – vi que membros de outras bandas saíram em apoio ao Robb em pelo Twitter e FB. Só resta saber até onde vai esse apoio.

Pra quem não entende inglês, deixo uma tradução bem tosca do vídeo:

E aí estão as últimas palavras no Dimebash, 2016: ‘wh**e po**r’. O que era, aparentemente, uma piada, porque estavam bebendo vinho branco no camarim. [risos] Pegaram? Vinho branco, poder branco. Nós ouvimos ‘White Christmas’ no camarim, então ele resolveu gritar aquilo. [risos]

Eu estava lá e posso afirmar que não havia qualquer Chardonnay ou Pinot Grigio à vista no camarim. Na verdade, a única coisa que você bebia, Phil Anselmo, era Beck’s – cerveja alemã. Talvez daí venha a piada, né? Pegaram? Cerveja alemã. Poder branco. Que coisa maluca.

Primeiramente, quero aplaudir Chris R., o corajoso youtuber que postou a cena inflamatória no site, depois de tê-la cortado na primeira versão de ‘Walk’ que upou. Eu posso entender por que você editou, Chris R., sério, era demais para acreditar, né? De certo modo, isso não deveria ser visto. Ainda bem que você decidiu fazer a coisa certa, mesmo sabendo que provocaria a ira da cena metal. E assim foi. Mais de mil comentários na sua página do YouTube. Quinhentos comentários no Babblermouth. Eles fecharam a área de comentários. O mesmo no MetalSucks, que soltou uma nota contundente sobre não mais deixar o Phil Anselmo ileso de novo.

E, sabe, o pior de tudo o que tem sido dito, é a maioria das pessoas falar ‘Ah, dá tempo! Chegou a galera do politicamente correto e a turma da justiça social.’ Ou ‘Vocês precisam parar de chorar quando alguém grita ‘white power’ e ‘sieg heils’. Coisa de liberal.’

Só na cena metal algo assim seria tão apagado. Se fosse com o Chad, do Nickelback, se fosse o Justin Bieber, se fosse o Tom Brady, se fosse o Lars Ulrich, cabeças rolariam. Que merda! Imaginem a merda do ventilador se o Lars Ulrich gritasse ‘white power’ no palco. Ou, sei lá, um bando de fãs diria: ‘Bom pra você, cara! Orgulho branco!’ E os mesmos argumentos bobos: ‘Por que tá tudo bem se um cara negro disser ‘orgulho negro’, mas não tá tudo bem prum cara branco dizer ‘orgulho branco’?’

Pra começar, você precisa de uma revisada em história. Brancos não são oprimidos pela população negra na América. A população negra tem uma longa história, não só de escravidão, mas de opressão a nível nacional, estadual, municipal e em seus bairros.

Eu falo por mim, que vivo no norte da Califórnia. Quando comprei minha segunda casa, que está alugada, havia um termo no contrato quando foi construída, nos anos 50: ‘Nenhum negro pode morar nessa casa nem nessa vizinhança.’ Isso numa cidade chamada Pleasant Hill (Monte Agradável). [risos] Mas acho que nos anos 50 aqui não era nada agradável se fosse um homem negro ou uma mulher negra. Tá aí a diferença.

Bom, não vou falar sobre a história do racismo e das pessoas negras vendidas pelos africanos… Vou falar sobre o presente, os últimos 40, 50 anos. Nenhuma pessoa branca foi oprimida por uma pessoa negra. É justamente o contrário. E não é legal gritar ‘white power’ e depois tentar consertar dizendo que era só uma piada com vinho branco, especialmente quando não havia nenhum.

Bom, o que importa é que eu estava no Dimebash e me diverti. Toquei com o Dave Grohl, troquei ideia com Zakk Wylde, Robert Trujillo, Dave Lombardo… Era um ótimo clima. E nos bastidores, trombei o Phil e decidi conversar um pouco, já que tocaríamos juntos duas músicas do Pantera – eu fiz turnê com o Pantera em 1997… duas vezes. Com meio minuto de conversa, aquele bêbado decidiu que eu deveria saber, com essas palavras, que ele odiava a fase ‘n***er’ do Machine Head, se referindo ao álbum ‘The Burning Red’. Ele disse que odiou cada segundo do álbum, odiou muito, até o nosso visual. [risos] Eu só ri… na cara dele. Eu ri na cara dele. Eu disse: ‘Você vai sentar aí e me julgar pela forma como eu me vestia naquela época? Pelo jeito como eu fazia música naquela época?’ Hipócrita. [Nota: Aparece a fase glam do Pantera]

Sabe, nos temos medo de dizer alguma coisa. Chris R teve medo de publicar o vídeo. Eu estou com medo de publicar esse vídeo. Porque nos encaramos e lembramos de todas as vezes em nós dissemos ‘n**ger’. Eu já usei essa palavra antes, eu apanhei de uns 15 caras negros e fiquei nervoso por um tempo. Só que eu tinha 20 anos e, em algum ponto na jornada da vida, você muda.

Aliás, a banda discutiu se isso deveria ser respondido ou não. E eu sinto que preciso responder porque estive no palco com você [Phil]. Agradeça por eu já ter saído quando você disse aquela merda. Só fiquei no palco quando tocamos ‘A New Level’ e depois lá estava você fazendo a saudação nazista e dizendo [wh**e po**r] – como você sempre faz e sempre fez. E ninguém te cobrou. Nenhuma banda.

Rolaram conversas durante várias turnês: ‘É, o Anselmo faz a saudação nazista e fala ‘wh**e po**r” ‘Por que você não conversa com ele?’ ‘Porque eu amo Pantera, cara. E quem iria querer provocá-lo?’ Exato. Quem iria querer te provocar? Você é um valentão. Um cara grande e assustador.

Mas agora chega. Agora chega!

Já faz um tempo que não me sinto parte da comunidade metal. Eu não sei, eu não entendo como essas merdas são toleradas. Eu não entendo como essa merda é vista como aceitável, como se passa pano e permanece aceitável.

Se eu acho que a gente deve linchar o Phil Anselmo ou pedir sua cabeça? Não. Você pode dizer essas coisas, você vive na América, terra da liberdade de expressão. Mas liberdade de expressão não significa falta de senso crítico com aquela expressão. Porque isso é errado. E antes que alguém venha com ‘Ah, se você se ofendeu com isso blá blá blá’. Se você não se ofendeu com isso, vá se foder! Vá se foder! Vá se foder!

Não há espaço pra isso no metal. E se há espaço pra isso no metal, eu tô fora.

Tchau Phil Anselmo. Eu nunca mais tocarei qualquer música do Pantera enquanto eu viver. E para aqueles que apoiam essa merda, tchau. Eu tô fora. Não quero mais ser parte disso.

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