“E aí?”, você disse, me cobrando, me encarando. Eu tinha que te dizer alguma coisa. Qualquer coisa. Pensei em criar uma história para enfeitar aquele vazio, só que me perdi nas possibilidades. E você permanecia com os olhos fixos em mim, na expectativa sanguinária de quem acredita e duvida ao mesmo tempo. Procurei por um acontecimento interessante nos arquivos da minha cabeça; queria aquele caso conflitante, impactante. É, queria te impressionar. Acontece que, diante da sua grandeza, é preciso um muito esforço, e tudo o que eu poderia dizer, toda aquela ladainha que me pediam para repetir, eram qualquer coisa para o que você esperava de mim. Eu paralisei, no meio de um monte de gente estranha que me fuzilava também. Você, essas pessoas… me senti dentro do processo de Kafka. Eu fingi que procurava alguma resposta para te dar quando, na real, juntava as provas da minha inocência. Há poucos instantes, antes de chegar, eu pensava no muito que deixei acontecer e recuei ao notar que era isso o que você desejava, ou que aceitaria minimamente. Você me feria na forma de um monstro do passado, com corpo de culpa e cabeça de vergonha – ou o contrário, não suportei olhar por muito tempo. E, ainda assim, quando você me questionava, era para me afogar em incertezas e me balançar. Eu fazia o impossível para me esconder, numa fuga interminável para te mostrar o melhor de mim, sem perceber que era isso o que me enfraquecia. E o único jeito de te destruir é exibindo cada músculo frouxo que me sustenta, então eu disse “me diga você”.

Anúncios