Marte

O ônibus municipal flutuava pela ponte que ligava o centro da cidade aos bairros populares. Era o único caminho possível e, logo, o tenso congestionamento já não era uma novidade.

Jussara via as pessoas em seus carros familiares, cantando como em comerciais de margarina. O vapor que mantinha aqueles veículos acima do chão também apagava as marcas da chuva do dia anterior; ao longe, era possível notar que os reservatórios comerciais comemoravam o nível de água atingido, o que significava muita energia para os próximos dias.

-Com licença, eu vou descer.

O amargor da voz foi um abraço de gelo ao devaneio de Jussara. O elegante marciano não protestou quando ela se acomodou ao seu lado, mas deixou seu descontentamento explícito ao evitar que mesmo sua bolsa encostasse naquela mulher com aparência de terráquea, como se ela pudesse transmitir alguma doença apenas por existir. Quando abriu passagem, Jussara percebeu que ele fez um grande esforço para não encostar em qualquer lugar em que ela pudesse ter tocado.

Mesmo sem ter completado a educação formal, a terráquea sabia que não havia razão lógica para toda a repulsa que sentiam por ela e por outras pessoas iguais a ela. Quando a população marciana migrou para a superfície, depois de séculos de existência subterrânea e aprimoramento tecnológico, o Sistema Solar ganhou muita importância da galáxia. Espécies e raças de toda a Via Láctea viajavam para o planeta vermelho em busca do conhecimento sustentável que seria aplicado em seus lares. Marte era uma referência pelo uso que fazia de recursos naturais de modo renovável e bem distribuído, algo inédito em todos os mundos habitados conhecidos. O cuidado com a própria casa não trazia qualquer privação ou defasamento tecnológico, já que a ciência era a principal chave de todo o progresso marciano. Bastava que se fizesse um bom uso do que se aprendia.

Tamanha sabedoria não tornava os preconceitos extintos. Educação, trabalho e saúde, tal qual alimentos e moradia, eram garantias para todo o cidadão, desde que marciano puro. Qualquer desvio na curva era tratado com desprezo, e não havia cientista capaz de resolver aquela falha, pois nada explicava o que a teria gerado. Uma vez que a procriação interespécies era impossível, por razões bio e fisiológicas, e que motivos genéticos ou patológicos também estavam descartados, apenas a depravação moral poderia justificar o “problema”.

Ainda criança, Jussara ouviu que era uma “terráquea” – termo pejorativo que remete aos vizinhos que se autodestruíram e que povoam histórias assustadoras e moralistas. Ela não sabia o que a palavra significava, mas realmente não se sentia igual aos colegas. Nenhuma de suas brincadeiras a atraía e ela se isolou desde cedo, se fez um “alien” mesmo numa era com tanta diversidade. Logo, percebeu que ser uma terráquea era mais do que um xingamento, pois ela pertencia ao grupo de “erro” social. Tão logo seus pais perceberam, ela foi submetida a diversas violências: biopsias, lobotomias, remédios controlados e até consultas científicoespirituais com líderes religiosos do centro da galáxia. Nada resolvia.

Cansada de ser tratada como doente ou blasfemadora da ciência, ela chorou e pediu respeito. Disse aos pais que nada de errado havia com ela, nem na educação que recebera.

-Eu apenas sou assim, sempre fui. Não sou um desvio nem um erro; sou só diferente, sou única.

Como resposta, Jussara recebeu o desprezo do pai e as lágrimas envergonhadas da mãe. Coube ao seu irmão mais velho expulsá-la de casa, aos quinze anos marcianos, sob socos e pontapés.

-E agradeça por ter essa roupa que está vestindo! Nem isso você merece!

Quase dez anos tinham se passado desde aquela noite. Jussara apanhou outras vezes, pensou que morreria em muitas delas; passou fome; adoeceu. Para sobreviver, escondia-se até o sol nascer e se oferecia como objetos de estudos de outras espécies durante o dia. Foi um longo período de exclusão até que algumas terráqueas ganhassem espaço na mídia e isso gerasse certa mobilização.

Assim que desceu no terminal rodoviário, Jussara conferiu o mapa eletrônico público e caminhou até o endereço. “Programa de Integração e Serviço Social para Terráqueos”. O prédio era velho, as condições eram diferentes de qualquer outro serviço público e o nome não era de seu agrado. Jussara sabia que aquela não era a solução definitiva – ainda enfrentaria muitos constrangimentos no transporte público e muitas agressões na vida – e que o Programa só surgira porque gente importante do planeta se envolveu e apoiou as terráqueas que há tanto tempo se manifestavam. Mas era um começo, um canto da galáxia em que a enxergavam de verdade, em que respeitavam seu nome e sua identidade. E, ela sabia com certeza, seu destino era conquistar o universo.

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