Viajando sobre a viagem

Ir para a cidade onde passei grande parte da minha infância e toda a adolescência me deixou com um gosto de saudades na boca. Não das épocas, mas do lugar, mesmo que visitar a cidade me machuque um pouco.

Saí de Juquitiba em dezembro de 2006, mais de 10 anos depois da minha chegada. Uma fatia enorme do bolo da minha vida está lá. Não guardo só boas memórias (não mesmo), só que eu já não reconheço o lugar e acho que isso é o mais estranho.

Eu sou saudosista. Não sabia, mas sou. Percebi isso quando comecei a visitar a cidade e não mais reconhecer os lugares que acolheram. De repente, um monte de lojas e carros e gente nova entrou no cenário que eu conhecia tão bem. É como gostar muito de um filme e arriscar ver o remake: a história tá ali, mas tem alguma coisa errada.

Pela primeira vez em quase 9 anos, consegui andar pelo centro da cidade com meu companheiro e apresentar pra ele alguns lugares, traçar comentários. E foi aí que me perdi: cadê aquela sorveteria e o coreto do centro comercial? Tudo foi transformado num hotel. Pior é que a estrutura do prédio está toda mudada: não vejo mais o lugar onde fiz meu primeiro curso de informática nem o corredor que levava à videolocadora que me ajudou a preencher as tardes com filmes de terror.

A papelaria enorme, que me deixava babando por tanta cor, virou um monte de lojas menores. Somente o bar e a loja de CDs continuam, mas eu tive que fazer um certo esforço para lembrar como tudo era antes.

Eu também não vi as pessoas “da minha época”. Em cidade pequena, todo mundo se conhece: todo mundo estuda junto, ou pega ônibus junto, ou é parente, é vizinho, é amigo da amiga do cara da sala ao lado. Muita gente saiu de lá e faz visitas de vez em quando, assim como eu. O problema é que eu sei que muita gente ficou, e foi justamente essa galera que eu não encontrei. Bom, o pessoal poderia estar viajando, do mesmo jeito que eu estava, né?

Descobri que minha quase total inabilidade para andar por São Paulo vem da minha dificuldade em decorar nomes de rua, porque eu nunca precisei. Quando eu ando por Juquitiba, me guio por pontos de referência – e sempre fiz isso, tanto no centro quanto nos bairros.

A cidade, o mundo, a vida, nada disso é uma imagem estática. As coisas se movem, mudam de tamanho; as personagens se alteram e um novo ato começa. Eu tenho fotografias na minha mente e, por isso, vê-las enquanto um filme novo, me assusta um pouco.

Mesmo assim, me espera em frente ao posto, pra gente subir pro banco e andar de skate.

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