Irradiamos!

Cara, eu juro que queria fazer um relato impessoal e intransferível do Encontro Irradiativo, que rolou nos dias 7 e 8 de novembro, em São Paulo. Só que eu não consigo. O rolê todo foi tão emocionante, em tantos níveis, que não dá.

Celebrar a diversidade não é um treco fácil. É tanta gente que está à margem, se desgastando pra sobreviver. E, muitas vezes, o que acontece é convidar aquela pessoa diversa para falar apenas sobre o preconceito que ela enfrenta, como muito bem pontuou o Kabral.

Só posso dizer que nunca tinha visto nem vivenciado um rolê tão cuidadoso. Desde o primeiro momento, quando rolou o Workshop “Escrevi meu livro, e agora?”, com a Ana Cristina e a Mary C. Müller, quando as pessoas foram se agrupando nas mesas pra ouvir, aprender e compartilhar histórias, sem que as autoras ficassem isoladas, em outro patamar. Todo mundo tava no mesmo barco de papel de escrever literatura especulativa, enquanto o mar editorial não se mostra amigável. Estávamos ali pelo desejo de continuar navegando. E conseguimos.

Depois, rolou um spin-off do evento: fomos almoçar pastel. Pensem numa mesa cheia de gente lindamente esquisita: éramos nós.

Pastel Irradiativo. Foto: Pôlo.
Pastel Irradiativo. Foto: Pôlo.

Por causa da comilança, perdi quase toda a mesa de apresentação do evento. O que não foi de todo ruim: deu tempo de conversar com gente interessante, que conheci ali ou que pude, enfim, abraçar depois de tuítes trocados. Das várias imagens que vou guardar do Encontro, as rodinhas de troca de amor, admiração e cuidado estão em primeiro lugar. O ambiente era seguro, como se o mundo lá fora não existisse. Aliás, existe?

Eu falei com uma porrada de gente que me faz tremer e gaguejar. A tietagem e a timidez me deixaram tão nervoso que a galera deve imaginar que eu tenho problemas de dicção. Mas todo mundo me recebeu, sem exceção, e rabiscou meus livros com o nome correto (!), com alface, coelhos e espontaneidade (Kabral, estou olhando pra você :B). Ninguém era celebridade; todos éramos estrelas de uma galáxia nova, descoberta para que possamos existir numa boa, porque essa aqui já não nos contempla. Ok, parei com a viagem.

A mesa seguinte, “Representação para crianças e jovens”  me absorveu por completo. Debateu-se, em especial, sobre a falta de personagens negros nos desenhos/quadrinhos/filmes (ou as más representações) e o impacto que isso causa à autoimagem da criança. E pela enésima vez na minha vida, Steven Universo foi recomendado, o que só pode ser o destino insistindo comigo.

Jim fazendo a apresentação da 2ª mesa.
Jim fazendo a apresentação da 2ª mesa.

Pra encerrar o primeiro dia, “Os Malefícios dos Estereótipos” e Julian cheio de cisco nos olhos. Quase não anotei, porque estava ocupado demais com os malditos ciscos. Eram duas pessoas trans no palco. Duas! Sendo uma não-binária. A personificação de uma ideia que eu não imaginei que veria, não pra falar no meio nerd, não tão cedo, não com tanta força. Alliah, valeu de novo.

Perdoem a cabeça da Paola.
Perdoem a cabeça da Paola.

O domingo, ah, o domingo. Amanheceu chuvoso, mas secou rapidamente, porque o número de ciscos aumentou muito, cara.

De cara, teve Kabral na palestra “Herói com rosto africano – Mitos da África no imaginário do mundo”. Não sei se ele gosta do termo, mas lacrar me parece bem preciso para a ocasião. Nós trocamos umas boas ideias antes da apresentação e o cara é um herói. Repito o que disse lá, enquanto esperávamos a galera chegar: quando estou mal, quando penso em desistir, eu leio os tuítes dele e continuo. Ele me inspira muito. No palco, enquanto revivia os mitos, ele colocava tanto de si em cada palavra, que toda aquela sala ficou pequena demais. Não é algo que possa ser descrito, porque foi ali, foi único.

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Quando conseguimos respirar de novo, rolou a mesa sobre preconceito nerd, com três mulheres fodas: Eva, Gi e Jana. Bem, a necessidade do Encontro e do Manifesto Irradiativo explicam muita coisa, né? A presença dessas mulheres é um tremendo ato de resistência, porque cara, que merda de mundinho escroto misógino. Só que elas tavam lá, falando pra outras minas como se proteger e prosseguir, articulando e se fortalecendo. A Eva, aliás, tem as melhores frases de efeito para lidar com machistas, gente.

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A última mesa (ahhhh =/),”A diversidade na cultura pop brasileira: Um balanço”, foi aquele gostinho de chocolate que fica na boca e te faz devorar a caixa toda. Ana Cristina, Jim Anotsu (ele é emo mesmo), Eric Novello e Cláudia Fusco (Mestre em FC na gringa, cêis têm noção?) contaram as dificuldades que enfrentadas, fofocas de bastidores (ou não); compartilharam histórias, dicas de leitura e bizarrices do cinema. O Eric disse um bagulho muito importante, “a representatividade tem que ser um caminho pra inclusão” e acho que serve até de resumo para o que foi o Encontro. Cada pessoa presente foi vista e ouvida em algum momento.

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[E voltam os ciscos a me atrapalhar, eita. Melhor procurar um oftalmo.]

Ainda rolou Crossplay maravilhoso da Bárbara, do blog Sem Serifa. Aliás, já viram o especial que ela fez sobre o Encontro?

Cara, tem muito mais a ser dito. Esse foi só o primeiro rolê, o primeiro grito. Quero agradecer por cada minuto, cada risada, cada abraço delicioso e pelo esforço da organização em fazer tudo tão depressa e, ainda assim, com tanto respeito e cuidado. Que venham mais.

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Até logo.
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