Catchupnormatividade

João gosta de catchup. Nada lhe traz mais satisfação do que saber que catchup é normal em seu mundo. Dá uma sensação de segurança, como se as coisas fossem justamente como deveriam ser. E são. Sempre serão. João lutará para garantir isso — a catchupnormatividade.

Ele costuma dizer que prefere ter um filho ladrão a um filho que não compartilhe de seu gosto. Seja no cachorro-quente, no prato de arroz e feijão ou naquela batata frita suspeita, nada pode substituir o molho vermelho. Seria uma afronta, uma provocação explícita às leis divinas.

Tamanha convicção só poderia ter tomado um caminho: João entrou para a política partidária. Aliás, foi aceito num partido em que nada além da mistura de tomate, temperos e conservantes era aceita. Sua luta alcançou uma nova fase.

Afinal, como ele poderia aceitar que pessoas usassem mostarda na rua? Seu primeiro pensamento foi de que não haveria problema na prática, desde que acontecesse entre quatro paredes. Era pecado, mas cada um com seus fetiches, né? Só que essa galera amarela estava pedindo direitos! Onde já se viu acreditar que aquilo era um ato moral?

O mundo virou um lugar sem princípios… A mostarda estava na Avenida Paulista, nas boates, nos filmes. Criaram (heresia!) a Parada da Mostarda. O colapso quase aconteceu quando tentaram ensinar nas escolas que mostarda era tão natural quanto catchup.

O que João explicaria em casa? Como ele e a esposa poderiam preparar as crianças para um futuro tão sombrio? A extinção da espécie tornou-se uma ameaça real agora que a mostarda aparecia na novela.

Ele apoiava projetos de lei que garantiam a preservação da utilização tradicional brasileira de molhos. Seu Facebook virou um panfleto dos bons costumes. Amizades terminavam, outras começavam: sua bolha de propósitos crescia, suas ideias eram compartilhadas e o mundo permanecia quadradinho.

A vitória, contudo, não era completa: certa noite, João ouviu barulhos estranhos no quarto da filha e foi verificar se estava tudo bem. O ambiente estava iluminado pelo abajur e apenas uma fresta da porta permitia a visão. Mesmo assim, a cena era nítida: sua filha apertava uma embalagem de mostarda na frente da melhor amiga. De cabelos despenteados e pele suada, as duas pareciam extasiadas com o que faziam.

No dia seguinte, assim que a amiga saiu (aquilo era culpa dela, sem dúvidas), João a chamou. Ele disse o que vira; que ainda havia tempo para um arrependimento sincero; que a solução era simples: deixar aquelas amizades e conhecer garotos que gostassem de catchup.

Em prantos, a moça pediu perdão e disse que já havia tentado reprimir o que sentia, sem sucesso. Ela gostava da consistência do catchup, mas sentia-se igualmente atraída pelo brilho dourado da mostarda. Mesmo tentando evitar, o tempo só fez confirmar que a filha gostava de ambos os condimentos, de modo idêntico.

João sentia sua fúria crescer até quase explodir seu coração. Aquilo era inaceitável. Ele decretou que a filha deveria estar muito longe dali quando ele voltasse de seu gabinete, naquela tarde. Tanto esforço para ser apunhalado pelas costas dentro de sua própria casa.

*

Apesar dos esforços, João viu o mundo revelar sabores: além de seu amado catchup e da mostarda da discórdia, molhos, patês e maioneses surgiam diariamente. As pessoas podiam, enfim, serem explícitas quanto às suas orientações sem medo.

A diversidade não fez o catchup desaparecer, como profetizavam os conservadores. O mundo tem espaço para todas as expressões, identidades e gostos. Entender e respeitar tal fato pode demorar, mas não diminuí as possibilidades.

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