Desconselhos

Sei que quando você* comenta que pareço ser mais jovem do que sou, tenta fazer um elogio. Acho graça, às vezes. Mas você já percebeu como isso soa? Dizer que sou uma pessoa conversada, como se eu fosse um alimento ou produto que ainda poderá ser consumido por muito tempo. Uma peça inteirona, ainda a ser fatiada.

O que significa isso? Por que me parabenizar?

A mesma situação acontece no que diz respeito ao meu peso. Eu não quero saber se você pensa que eu devo emagrecer mais para melhorar. Apenas porque não.

Durante grande parte da minha vida, detestei meu corpo por imposição, por ouvir que não estava bom o suficiente. Guess what? Ainda não está. Faltam tatuagens e sobram seios, pra exemplificar. Tenho aprendido, contudo, que meu corpo não é errado, só é diferente – e isso não muda quem nem o que sou.

Meu cabelo é assim: pode chamar de bagunçado. Eu não diria que rebeldes são cachos, rebelde é a pessoa toda. Não vou mais alisá-lo, não sei nem se vou mantê-lo (carequinhas são ótimas). E esteja rosa, roxo, vermelho, laranja, em 3 tons diferentes ou moicano, não é para a sua satisfação. Nem de longe.

É esquisito te ouvir dizer que, apesar da minha aparência, sou inteligente. Ou ainda, você me considerar inteligente apenas porque eu disse que não tenho TV e prefiro livros. Ou porque digo coisas “polêmicas”. Que espécie de medidor é esse? E qual o sentido em me isolar nessa terra fantasiosa de escalas, que me impede de dizer “não sei”? Cada conversa, cada pergunta, vira um teste de fidelidade da expectativa: eu não posso errar, eu não posso falhar, porque a cobrança tem altos juros.

Eu não sei. E não tenho obrigação de saber.

Passado, presente, futuro. Já me esqueci de muitas coisas, tenho diversas questões e incertezas, não sei o que esperar ou fazer. Há muito tempo, conversando com meu companheiro, eu disse que passo certeza do que digo porque estou sempre sonhando, e meus sonhos são mais palpáveis do que a realidade, do que posso mostrar.

Quando você me aconselha a sorrir mais, a me divertir mais, você só mostra que não me conhece. Eu me divirto muito, só que do meu jeitinho. Embora eu aprecie sua preocupação com meu amanhã, não tenho medo de envelhecer sem ter procriado ou viajado para fora do país ou qualquer outro item da sua lista “O Que Imagino Que Pessoas De Sucesso Fazem”.

Na real, você só está perdendo seu tempo comigo.

Se existe um Manual da Vida Perfeita, eu não pretendo saber. Tenho um livro bem maior ali no cantinho: O Grande Livro dos Desconselhos. As páginas se formam quando ouço uma dica muito absurda ou quando experimento aquela tacada ensinada cheia de boas intenções e percebo que estou num jogo de basquete. Não foi erro meu, só não faz sentido.

Perdi a conta do número de páginas, depois de atingir o número limite do Excel. Existem capítulos repetidos ou com variações mínimas. Deixo lá, não pretendo revisar nada. Não vou ler (minha lista de leitura já está grande e atrasada demais). Empréstimos e doações estão fora de cogitação, por motivos de não vai prestar. Se funcionou para você, ótimo; não faz parte do seu Livro de Desconselhos.

Vender também é uma coisa que eu não farei: o mercado está saturado de tudo o que não precisamos ou que nos fazem mal.

E você, provavelmente, também tem um exemplar prontinho.

*O “você” do texto não é ninguém em especial – ou é.

Anúncios