Lar

Eu tenho um pequeno problema com mudanças… não sei explicar, apenas não gosto. Sou tranquilo demais para essa coisa de embala, carrega caminhão, viaja, descarrega caminhão, desembala. Mesmo tendo poucas posses, acho isso um saco. Por isso, fiquei bastante receoso quando soube que estávamos indo pra uma nova casa.

Poxa, de novo isso? O pessoal parecia sossegado, até inventar essa história. Protestei com ação direta: rasguei caixas, abri sacolas, fiz greve, chorei. Sim, chorei. Cheguei a esse nível de apelo, apenas para ser ignorado.

A verdade é que, ao chegar, vi que as coisas não seriam assim tão ruins. Tudo bem que no prédio tem um monte de crianças com variedades incontáveis de brincadeiras e gritos. Superei. Nesses dois anos que moramos aqui, meus sustos diminuíram e meu sono melhorou. Muito. Qualquer criança agitada é melhor do que a ex-vizinha que me batia quando eu ameaçava aparecer no quintal (nota mental: nunca mais dividir o quintal).

Por causa da população infantil, não me senti seguro para sair e explorar a área, como qualquer jovem curioso como eu faria. Aproveitei meu tempo de cautela para estudar uma maneira rápida e garantida de entrar e sair sem incomodar ninguém. Afinal, não moro sozinho (por enquanto).

Encontrado um basculante acessível e dando sopa, lá fui pra minha primeira noite e… Arrumei briga. Eu tentei, juro! Fui tão silencioso quanto pude, mas me descobriram e não fui bem aceito. Uma pena. As brigas continuaram até o basculante ser fechado. Um absurdo, eu sei. Fiquei amuado num dia; no outro, fiz escândalo. Só consegui permissão para sair depois de uma reunião familiar (boring…), sob a promessa de não arrumar mais confusão.

Passei a sair várias vezes numa mesma noite, quando notava que a galera encrenqueira não estava por perto. Tudo corria bem, exceto por uma mania que eu desconhecia: eu anunciava meus retornos. Sim, eu disse antes que queria discrição, mas peguei essa mania do pessoal aqui de casa: assim que chegam, gritam meu nome e perguntam como estou, mesmo que eu esteja dormindo ou comendo ou ocupado com dar a mínima para qualquer existência além da minha. Eu também passei a cumprimentá-los, só que de madrugada. Nem meu charme dissipava o desconforto.

Meses depois, brigas depois, acabei me afeiçoando a um vizinho. A família dele é grande e não gostou de mim – descobri que eram da mesma turma que me encurralava no começo. Ele enfrentou tudo isso e passou a me visitar. Primeiro, nos víamos só no jardim, porque ele era tímido demais para conhecer a minha família. Eu o ensinei a entrar em casa e ele vinha aqui quando eu estava sozinho, o que era ótimo. Tava todo mundo bem satisfeito, acreditando que meu apetite tinha aumentado (ele almoçava comigo) e me percebendo mais disposto. Óbvio que eu não contei nada, não queria preocupar ninguém.

Aí, num sábado, a campainha toca. As crianças, aquelas pestinhas, o viram. Também, pudera, ele veio me ver e fez um baita escândalo pra me chamar. Eu tentei ignorá-lo – nós combinamos que passaríamos os finais de semana com nossas famílias, separadamente. Só que as crianças vieram perguntar se alguém aqui o conhecia, pois já o tinha flagrado circulando antes.

Fomos pegos.

É aí que descobrimos se nossas famílias são mesmo nosso apoio ou se é só conversa pra não fazer feio na internet. Felizmente, ele foi MUITO bem recebido! Serviram uma fartura de comida e bebida, falaram sobre tudo e nem se importaram quando fomos para o quarto tirar uma soneca. Que dia inesquecível!

Com o tempo, entendi que morar aqui me transformou: já não sou o anti-social esquisito que foge das visitas. Permaneço perto de quem chega, recebo as pessoas na porta e já me aventuro a conversar com um ou outro vizinho mais amistoso. No fim das contas, conheço gente legal e tenho mais histórias para compartilhar no fim do dia.

Também estou mais observador. Passo horas olhando lá pra fora, onde as pessoas estacionam seus carros barulhentos, ouvem música alta e se comunicam por gritos. Não compreendo essa confusão que é a humanidade.

Troco olhares com uma gatinha que mora no último andar do prédio em frente – ela se sente tão limpa e superior por estar lá em cima, longe da rua. Se ela soubesse o quanto é bom rolar no jardim e brincar de esconde-esconde entre as folhas. Cada dia é um plástico-bolha novo para mim. E, por já ter vivido na rua, sei o quanto esse mundão é perigoso para nós, que somos diferentes.

Cuidamos uns dos outros enquanto cantamos para a noite.

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