A greve dos Oompa-Loompas

Tudo começou com o Willy Wonka, aquela figura esquisita. O cara era tão rico e poderoso que chegaram a fazer um filme a seu respeito (tenho certeza de que você já assistiu a uma das versões, pelo menos). Um grande e excêntrico empresário que procurava por alguém que continuasse a tocar os negócios. Nada demais até aqui.

Wonka não fabricava apenas chocolates, embora esse fosse seu produto mais famoso. Diferentes tipos de guloseimas cheias de açúcar eram feitos todos os dias por seus incansáveis funcionários, os Oompas-Loompas. Você os conhece, eles aparecem no filme também.

(Bem, ser arrastado de sua casa para viver em seu local de trabalho e ficar à disposição da chefia 24/7 não é exatamente legal – do ponto de vista jurídico mesmo. Eu não sei muito sobre leis, mas já vi casos de fábricas de costura fechadas por causa desse modo de exploração trabalhista. Talvez, as musiquinhas que os Oompa-Loompas cantam durante o filme tenham iludido as pessoas quanto às verdadeiras condições da fábrica. Talvez, quem esteja do lado de cá prefira fechar os olhos mesmo… De fato, só prestamos atenção ao caso quando a greve começou).

Isso foi recente e pouco noticiado (há boatos de que o sr. Wonka tenha comprado a imprensa, tsc tsc). Usuários das redes sociais apontavam suas necessidades por biscoitos. Parece bobeira, mas foi uma coisa bem séria. A maioria desse pessoal era parecida com o famoso empresário: homens cis, brancos e de classe média. O mundo deles resumia-se aos próprios umbigos. Eles não sabiam brincar, mas dominavam o playground.

Por alguma razão, a fome de biscoito desses rapazes era (ainda é, na verdade) incontrolável.

-Marido lava a louça: quer biscoito.
-Pai troca a fralda: quer biscoito.
-Rapaz diz que não tem preconceito, mas groselha: quer biscoito.
-Famoso faz piada merda e declara que não se rende ao politicamente correto: quer biscoito.
-“Tenho até amigos que são…”: quer biscoito.
-Entra na faculdade pública após anos de cursinho e reclama de cotas: merece biscoito.
(continua…)

O desejo pelo doce, manifestado violentamente, quase sempre seguido dos VOCÊ NÃO VIU COMO EU SOU LEGAL?, era atendido com regularidade. Diversas pessoas foram convencidas pelo discurso inflamado de merecimento e bravura de quem nada fazia além de choramingar. Aliás, se o biscoito não fosse fornecido de cara, a incompreensão diante de tamanha hombridade era logo exposta, o que explicava porque esse país não vai pra frente (q?).

Assim, as pessoas compravam muitos biscoitos para suas doações. O sr. Wonka percebeu que aquele nicho de mercado deveria ser valorizado e criou variados sabores para agradar paladares tão refinados. Logo, sua fábrica abandonou as outras modalidades de produtos e, devido ao grande número de pedidos, os Oompa-Loompas não podiam parar. Muitas etapas da fabricação eram automatizadas, porém funcionários verificavam a qualidade dos lotes, despachavam, criavam embalagens personalizadas com mensagens motivacionais e cuidavam da linha artesanal 100% orgânica, além de monitoras as entregas e cuidar da social media – afinal, era por e para isso que aquela produção exagerada existia.

Os Oompa-Loompas tentaram conversar com Willy, mesmo sabendo que a resposta seria negativa. Não havia outra solução a não ser cruzar os braços.

A CRISE DOS BISCOITOS era a principal manchete dos jornais e sites. A população se enrolava na bandeira e tirava foto com a polícia, em protesto. Não havia outra empresa que pudesse fornecer aquela quantia de biscoito solicitada. Wonka dava entrevistas revoltadas e anunciou sua candidatura à prefeitura de São Paulo. Líderes mundiais se reuniram para tentar solucionar a crise. O volume morto da dignidade era usado.

Só lembravam-se dos Oompa-Loompas para chamá-los de vagabundos. Nunca mais tivemos notícias deles.

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