Desde o jardim

Foto em PB de uma mão segurando uma maçã

Mais uma briga. Antes de água do riacho se avermelhar por causa do sangue, Lilith viu seu reflexo: o rosto inchado, o olho roxo e um corte do lado direito, logo acima da sobrancelha.

Foi a primeira vez que Adão batera nela – e, seguramente, a única. Ele também teria um hematoma para marcá-lo – Lilith acertou uns socos raivosos, em resposta à violência dele. A agressão aconteceu depois de sucessivas brigas entre o jovem casal. Mimado e ambicionando ser tão poderoso quanto seu pai, o rapaz queria estar acima da companheira em tudo: no sexo, na inteligência, no tom de voz, na preferência divina. Ele não admitia que a mulher exigisse igualdade de direitos, divisão de tarefas (era sempre ela quem buscava as frutas para se alimentarem, as folhas para se cobrirem à noite), ou mesmo que buscasse prazer quando transavam.

Adão era a primeira criatura, feita (assim dizia) à imagem e semelhança de seu pai e, por isso, perfeito. Lilith, ele acredita, existia para satisfazê-lo e entretê-lo. Ele mal disfarçava seu desprezo (e desespero) quando a viu partir, logo após se lavar. A grandeza do Éden era nada comparada à raiva que sentia.

-Você me pertence, sua vagabunda! Você é tão minha quanto cada lasca de árvore desse lugar! Nunca se esqueça disso! Você foi feita para mim e eu te amo! E te perdoarei quando voltar.

Enquanto se afastava e ouvia os gritos sem sentido, Lilith respondeu baixinho “Otário”. Ela não voltaria.

Não demorou para que Adão ficasse completamente entediado. Não havia com quem conversar, com quem gritar, para quem pedir carinho antes de dormir. Sua indignação com a insubordinação de Lilith crescia a cada minuto. Até que ele desistiu e chamou:

-Pai! Pai, aqui, por favor.

E fez um pedido de uma nova companheira, não tão exigente. Seu pai pensava no quanto tinha estragado o rapaz, mas atendeu a solicitação, conformado com seu próprio erro. O corpo foi formado magicamente, com as curvas e o tamanho do jeitinho que Adão queria. Eva seria o nome dessa nova mulher e ela seria ensinada que viera da costela de Adão, para que sua gratidão e lealdade fossem eternas.

O homem mal podia conter sua excitação diante da nova companhia. Pensava no quanto Lilith sofreria quando retornasse e visse que ele não mais precisava dela. Mas… e se ela não voltasse? Como saberia da felicidade dele? A vingança não estaria completa sem o despeito da ex.

-Pai, um último pedido. Quero que a Lilith se sinta sozinha, muito, muito sozinha.

E assim foi.

Enquanto isso, Lilith andava e descobria partes maravilhosas do Éden, partes que não ia antes porque Adão tinha medo de acompanhá-la e de ficar sozinho. Explorava um novo pedaço por dia, experimentava novos frutos, banhava-se em diferentes cachoeiras e permitia-se uma liberdade inigualável.

Certo dia, deparou-se com a maior e mais bonita árvore que jamais vira, de frutos vermelhos e apetitosos. Lembrou-se da descrição da Árvore do Conhecimento, sem imaginar que pudesse mesmo existir algo daquela magnitude. Observou bem, escolheu o fruto que parecia mais doce e provou. Delícia!

Depois de pegar da árvore proibida, ela sentiu que não poderia parar por ali e passou a misturar frutas diferentes – a isso, ela deu o nome de “salada de frutas” – e a pensar diferente. O Éden era caído demais para ela. Ou ela sairia dali ou faria umas boas mudanças. Uma festa, pra quebrar a monotonia. Mas não existe festa de uma pessoa só.

Adão e Eva continuavam levando sua vidinha de Família Tradicional, sem novidades. Em diversos momentos, ela desacreditava ter sido criada a partir daquele cara tão egocêntrico e mesquinho. Fazer o quê, se ele era o único ali. Só poderia estar falando a verdade, né? Mesmo assim, era difícil crer que ele era o sinônimo de perfeição, quando parecia viver andando em círculos que terminavam no próprio umbigo.

Quando Eva discordava, ele levantava a voz, exaltado por não ser levado a sério. Quando ela questionava, ele dizia “as coisas sempre foram assim” e encerrava o assunto. Como dar moral pra esse tipo?

Então, numa tarde abafada, viram uma figura se aproximar. Adão estufava o peito e sorria, como se já esperasse por aquele momento. Já Eva não sabia do que tinha mais medo, se da pessoa desconhecida ou se da confiança exagerada e recém adquirida do namorado.

-Oi, meu nome é Lilith.

-Sou Eva.

-Eva é minha NOVA companheira, Lilith.

-Eu sabia que você não ficaria sozinho por muito tempo, Adão. Você não conseguiria se suportar. É o seguinte, Eva, eu trouxe isso pra você. – E estendeu a mão, oferecendo uma maçã. – Eu tava com tempo livre (quer dizer, olha só pra esse lugar) e inventei uma história. Se quiser, vá até a Árvore do Conhecimento a qualquer hora e eu te conto.

Adão ameaçou dar um tapa e derrubar a maçã, porém Eva foi mais rápida e mordeu aquela fruta tão bonita. Logo, diversas imagens surgiram em sua mente e ela entendeu uma porção de questionamentos, alguns que nunca chegara a mencionar para Adão. Uma grande alegria a dominou, por entender que o paraíso era apenas uma imposição e que sua liberdade seria conquistada, não doada por alguém. Percebeu também que era forte e não precisava ter medo de lutar, mesmo quando se sentisse sozinha; contudo, amizades como a que acabava de brotar, a fortaleceriam muito também.

-Vamos, Lilith. Vou com você. Quero que você me conte sua história.

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Foto: Andreas Levers

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