Aline

Imagem desfocada de pessoas

Aline tinha 20 anos, mas parecia ter menos – sua infância vivida no sítio, tranquila e livre, lhe rendeu um aspecto muito jovem, apesar da fragilidade. Estava completando um mês na cidade “grande”, que apesar do adjetivo, tinha tantos muros e obstáculos que a tornavam bem menor do que imaginava. Seus pais a mandaram viver com uma tia que cuidava das filhas sozinha.

Seu primeiro mês ali fora agitado: suas primas a ensinaram a se vestir “bem”, a se maquiar e a levaram (sempre às escondidas) para boates e bares. Depois de alguns dias de festa, Aline caiu de cama por causa de uma gripe fortíssima, talvez uma reação de seu corpo à sua nova vida.

Hoje era, praticamente, seu primeiro sábado sozinha. Suas primas foram para um curso técnico, enquanto sua tia aproveitou a manhã ensolarada para lavar as roupas e fazer a feira. Aline estava sentada na escada quando suas primas voltaram.

– Line, vamos trocar de roupa e dar uma volta pelo centro, quer ir?

– Obrigada, mas estou esperando.

– Esperando o quê? Ou deveria dizer, esperando QUEM? – disse a prima mais velha, certa de que Aline estava apaixonada por um vizinho.

– É coisa minha, respondeu Aline, com um sorriso tímido.

As meninas riram maliciosamente e entraram em casa. Depois de 20 minutos saíram, lindamente vestidas, e refizeram o convite. Aline negou novamente.

– Às vezes, só ficar esperando não adianta, tem que correr atrás do que quer – disse a caçula, pouco antes de atravessar a rua.

Aquele conselho fez os olhos de Aline brilharem! Aquilo era tão óbvio quanto magnífico! Ela tinha que correr atrás do que queria.

Ela entrou em casa rapidamente, calçou seu único par de tênis e saiu correndo. Tentou passar por lugares que conhecia por causa de seus passeios furtivos com as primas. Pouco tempo depois, livrando-se das limitações e do medo, já não sabia onde estava, pois o importante era alcançar seu objetivo.

Entrou em ruas com lojas coloridas, cheias de vitrines luminosas e pessoas dos mais variados tipos. Cansou, pediu um copo d’água num bar, colocou-se a correr de novo, parou num cruzamento, escolheu o lado, voltou a correr… Parou, de repente, pensando que havia tomado o caminho errado. Nada ao seu redor a interessou. Tomou outro rumo, dessa vez caminhando, para não perder qualquer detalhe. Quando já estava exausta e pensou em voltar para casa, percebeu que estava perdida.

Uma vizinha de sua tia a viu e buzinou:

– Está perdida?

– Estou, disse a menina. Comecei a andar e exagerei um pouco.

– Realmente, você andou um bom pedaço. Entraí que te dou carona.

Aline estava abatida. Não tinha conseguido o que queria. Por sorte, a vizinha não parava de falar, o que a distraiu um pouco.

– Obrigada, disse Aline ao sair do carro.

Quando entrou em casa, sua tia estava pálida. Ela havia ligado para as filhas e descoberto que Aline não estava com elas. Depois de dar algumas explicações, Aline seguiu, com o olhar vago e triste, para o quarto. Sua tia foi perguntar o que estava acontecendo, acreditando que era saudade de casa.

– Não é isso, tia, eu só não encontrei.

– Não encontrou o quê, menina?

– A felicidade. Meus pais disseram que quando eu viesse para cá, eu encontraria: teria um carro, estudaria, conseguiria um emprego que pagasse bem, arrumaria um marido bom, teria uma casa grande e muito dinheiro para gastar. Mas eu hoje eu esperei, corri até cansar e me perder, e não encontrei.
Percebendo o olhar chocado da tia, Aline suspirou:

– Não se preocupe, amanhã eu procuro de novo, tia!

(Dezembro/2011, para o zine LLL – que nunca foi lançado)

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Foto: Alberto C. Vásquéz

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