Universo Desconstruído

(Resenha publicada originalmente no Skoob. Aproveita e me adiciona – nem precisa de scrap :P)

Fiquei muito contente quando soube da existência de “Universo Desconstruído”, mesmo sem imaginar o que poderia esperar. Ficção científica feminista, como assim? Quais os temas e como abordá-los? Conhecendo o trabalho de Aline Valek e Lady Sybylla, as organizadoras do livro, tive a certeza de que a leitura seria, no mínimo, surpreendente.

O primeiro conto é “Codinome Electra”, de Lady Sybylla. Insatisfeita com as ordens superiores e curiosa a respeito da figura inimiga, a obstinada protagonista procura algumas respostas que podem ameaçar a estrutura social de seu planeta. Electra desafia a autoridade e coloca sua vida em risco ao buscar a verdade – a heroína poderia ser uma espécie moderna de Winston, da obra 1984, de George Orwell. Uma das grandes sacadas aqui é: nem toda história de ação precisar ter como objetivo a destruição ou o domínio do oponente.

“Quem sabe um dia, no futuro”, de Alex Luna, não tem o ritmo rápido do conto anterior, mas também deixa sem fôlego. A história é narrada em primeira pessoa por uma Esposa-robô submissa e regida pelas Leis da Robótica, de Asimov. Ela existe para cuidar do marido humano, para “facilitar” a vida dele. Ser Esposa não é seu trabalho, é o resumo de sua existência. Apesar de ser tratada com descaso e frieza, ela não pensa em abandonar o marido e felicita-se com sua função. Infelizmente, é a ficção retratando a realidade: o casamento e a manutenção da felicidade conjugal ainda são ensinados como objetivos de vida para as mulheres.

A construção de “Uma terra de reis”, de Dana Martins, é um pouco duvidosa. O conto é longo e confuso, parece que algumas partes ficaram faltando. Personagens aparecem rapidamente, os cenários se misturam e a protagonista é ajudada por um cara absurdamente arrogante. Senti que faltou um objetivo e, quem sabe, mais força e confiança para Maya.

Ben Hazrael arrasa com “Meu nome é Karina”! A protagonista é uma mulher trans que enfrenta a vida enquanto busca “nascer de novo”. Sim, eu sei, esse é o cotidiano das pessoas trans, o que tem a ver com ficção científica? Rá! Ao mesmo tempo em que lida com preconceito e rejeição, Karina faz parte do “Projeto Sonda”, que envia as pessoas (cobaias) para uma realidade paralela – onde, quem sabe, ela será finalmente reconhecida como mulher e ficará livre dos pesadelos e das mágoas.

“Eu, incubadora”, de Aline Valek, começa com a apresentação de Koda, Coisa e Diana – um ser embrionário, um robô e uma mulher, respectivamente. Habilmente, a autora explica o papel social dessas personagens, amarra suas histórias e narra o caminho de um escândalo até o tribunal. É uma sociedade do futuro com as questões do presente: aborto ilegal, liberdade e autonomia sobre o próprio corpo, a raiva e o sentimento de controle de um marido rejeitado, o poder masculino cisgênero institucionalizado decidindo sobre a vida das mulheres.

Já “Um Jogo Difícil”, de Leandro Leite, não tem muito de ficção científica. O século XXI é descrito como uma época distante, contudo, a protagonista lê um livro físico e vê TV – ah, e despertadores ainda são chatos. Mesmo assim, o conto é muito bom e tem vários recortes sociais interessantes, como a falta de respeito e credibilidade de uma mulher em cargo de chefia (ou a maneira como essa mulher tem que se comportar para ser respeitada). A força de Maria não surge por acaso; é por sobrevivência.

Numa pegada mais cyberpunk, vem “Memória Sintética”, de Camila Mateus. Kaira é um androide criado para receber as memórias de uma humana falecida e continuar sua vida. Assim como outras máquinas feitas com esse objetivo, ela é vista como uma usurpadora. Tem conflito, tem corporação poderosa com segredo, tem ação… E tem Gilvana, uma mulher de carne e osso, também discriminada socialmente, que ajuda a protagonista a completar sua missão. Apenas incrível!

“Requiem para a humanidade”, de Thabata Borine, é prato cheio para quem curte histórias de alienígenas e para quem busca representatividade. A protagonista é uma mulher negra e lésbica, de origem pobre, formada em Astrobiologia. Seu trabalho não é reconhecido e ela tem que enfrentar muita coisa até provar seu valor – até a tentativa de estupro por parte de um suposto amigo. Porém, no momento do primeiro contato com as criaturas extraterrestres, ela é a pessoa mais indicada para salvar nossa civilização…

O penúltimo conto é “Cidadela”, de Lyra Ribeiro, e tem como cenário uma sociedade distópica e controladora. Igreja e Estado são faces de uma mesma moeda autoritária: as pessoas trabalham e obedecem, não podem acumular bens e há um rígido controle sobre os corpos das mulheres para evitar que engravidem sem autorização e espalhem a “praga”. A luta por sobrevivência e liberdade faz os caminhos de Irina e Luísa se cruzarem, elas viram símbolos de rebeldia e inspiração. Pode uma mistura de 1984, Admirável Mundo Novo e Jogos Vorazes? Pode sim! E que final maravilhoso!

“Projeto Áquila”, de Gabriela Ventura, é um conto incrível e delicioso. A protagonista conta sua trágica história com muita ironia, capricho e, de certa forma, otimismo. Brilhante cientista, Isabel sofre um acidente e vê seu talento ser apoderado pelo marido ambicioso e invejoso. De modo muito perspicaz, a autora utiliza a ficção científica para retratar uma relação conjugal abusiva, em que nem mesmo a morte é respeitada.

O livro todo foi uma agradável surpresa e descoberta. No decorrer da leitura, elogiei e divulguei o trabalho em redes sociais. Espero que mais edições saiam, que mais pessoas se inspirem a escrever e que, no futuro, os clássicos tenham mais representatividade e diversidade.

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