Matar ou morrer

Seta azul indicando para a direita, com os dizeres "Rota de Fuga"

“Fear is the mind-killer”
(Duna, de Frank Herbert)

-Por favor, não me mate!

Lá estava, de um jeito que nunca imaginaria: arma engatilhada e apontada para alguém. Estranhei a cena, visto que não tenho qualquer habilidade ou coragem. Talvez, fosse exatamente por isso que eu estava ali.

-Não atire, por favor!

Ele estava de joelhos, mãos erguidas em sinal de rendição. Aos meus pés. Mesmo assim, eu mal o enxergava – a visão estava embaçada, ou eram os óculos, por causa do tanto que eu suava. Tinha, inclusive, que segurara a arma com as duas mãos para que não escorregasse.

Meu corpo tremia, meu coração estava acelerado e cada pedaço de pele estava hipersensível; parecia que eu tomara um susto e estava em prontidão para atacar. Adrenalina. Era aquela situação que me deixava em alerta. Como cheguei ali?

Éramos amigos, eu acho. Ironicamente, ele me aconselhava de modo violento a agir com cautela. “Fique em casa hoje, eu resolvo para você. Não precisa nem sair da cama”, ele dizia, cheio de sua experiência. Só que ele nunca resolvia e me criava uma fama de desistente.

Ele estava comigo durante as férias – engraçado pensar nisso agora: eu não sei com o quê ele trabalhava, se é que trabalhava, mas sempre tinha grana para passar férias e finais de semana comigo. Por sua causa, cancelei algumas viagens e encontros; abandonei, pouco a pouco, projetos pequenos e grandes sonhos; deixei que me dominasse.

Quando percebi o controle que ele exercia sobre minha vida, senti que precisava tomar uma atitude rapidamente. Parei de atender suas ligações, apagava seus emails sem ler e fingia que não estava em casa quando ele aparecia. Pensei com calma no que fazer, mudei alguns hábitos e adquiri confiança gradualmente. Não adiantou, ele insistia. Me observava e aparecia justamente nos momentos em que eu não esperava, não queria.

Não precisava dele e iria provar.

Foi assim que cheguei ao ponto de ter uma arma apontada para ele. Parece uma decisão extrema, mas foi a única saída que encontrei.

Atirei. Matei meu medo.

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