Adultolândia

Foto de uma rua de São Paulo, à noite, e com engarrafamento

Ouvia risinhos abafados, sem se abalar. O que a televisão mostrava era mais interessante.

-Oi, moça. – o cumprimento veio com um pequeno dedo cutucando seu ombro esquerdo e seguido de mais risos – O que você tá fazendo?

-Assistindo!

-Mas isso é desenho, é coisa de criança.

-Shhh! – foi a resposta. Levou o dedo indicador à boca em sinal de silêncio, sem tirar os olhos da TV.

Suzana era magra e pequena, porém se destacava facilmente entre as crianças. Estava absorta assistindo a vários desenhos. Os risos vinham das meninas que estavam internadas e estranhavam aquela mulher. Somente quando surgiram os comerciais, Suzana saiu de seu transe e soltou um sonoro suspiro.

-Adoro Bob Esponja, já viram?

As meninas não deviam ter mais do que seis anos. Deram um passo para trás quando Suzana falou, assustadas e esperando uma bronca ou ordem. A menorzinha delas, de olhos curiosos e que tentara interromper da primeira vez, perguntou:

-Mas moça, você é grande e isso é de gente pequena, que nem eu e minhas amigas.

A mulher abaixou os olhos e falou quase para si mesma:

-Por favor, não me entreguem.

As meninas trocaram olhares confusos e balançaram as cabeças em várias direções, sabendo que o pedido era importante.

-Estou vendo desenhos desde que fugi de Adultolândia.

-Adultolândia? – perguntaram as crianças em uníssono.

Passos na sala ao lado alertaram Suzana. Rapidamente, levantou-se e pediu para as meninas guardarem segredo, saindo em seguida pelo corredor secundário.

-Volto amanhã. – garantiu.

No outro dia, encolhida entre as crianças, lá estava Suzana, mais uma vez concentrada em frente ao aparelho de televisão. O grupo de meninas se aproximou, sem que nenhuma delas fizesse contato (não adiantaria mesmo). Teriam que esperar.

Tão logo os comerciais interromperam a programação, as meninas cercaram Suzana e perguntaram de onde ela era.

-Adultolândia, eu falei ontem.

-Você tá inventando! – protestaram. – A gente perguntou pra mulher que lê história pra gente dormir, e ela disse que esse lugar não existe!

Suzana nem se abalou, pois sabia que qualquer outro adulto diria aquilo. Virou-se de costas para a TV e encarou as meninas.

-Eu conto tudo, mas vocês têm que me prometer que não vão falar para ninguém sobre isso.

-Tá bom!

Então, ela começou: não sabia exatamente onde ficava Adultolândia, nem com quantos anos foi levada para lá. Lembrava apenas que era um lugar muito, muito grande, que parecia não ter fim. As regras. Adultolândia era cheia de regras. Um monte de gente vivia ali, mas cada uma sabia exatamente seu espaço e sua função, para que ninguém se trombasse. Sentia medo de crescer e não saber ser como todo mundo, até perceber que estava sendo treinada há muito tempo. Disse ainda que, depois de decorar um monte de informação (sem entender direito o porquê), foi mandada para um quadradinho onde passava o dia sentada fazendo coisas de que não gostava, mas que era obrigada. Quando terminava, era mandada para outro quadradinho, para comer e dormir.

-Quando eu dizia que não estava feliz, as pessoas me olhavam de um jeito estranho, como se eu estivesse errada. Cansei e fugi! – terminou, com um largo e orgulhoso sorriso. – Agora, preciso ir, meninas. Amanhã eu volto.

Não voltou.

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Criei dois finais: um pessimista demais e outro brisa demais. Vou esperar que eles se entendam antes de postar.

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Foto: Celso Marchini

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