teotédio

Teodoro estava cansado. Morava numa cidade detestável, caótica, suja… Queria sair dali o mais rápido possível, só não sabia como. Teo, como era chamado, trocaria seu nome para Tédio, assim que pudesse, devido ao seu estado constante de insatisfação. Sua única alegria era a filha, uma menina de 6 anos, de quem ele tentava esconder as verdades maléficas da vida. Por malandragem do destino, Teo morava na casa dos fundos dos seus sogros. Tinha a guarda da pequena, mas não podia opinar em sua educação ou modo de vida. A mulher de Teo morrera de parto e, por caridade, os sogros deixavam viver ali. Na verdade, ele desconfiava que, tão logo sua filha crescesse e entendesse que o pai não era importante, ele seria quicado. Em algumas noites, Teo-tédio bebia com os amigos em casa. Era sua escassa fonte de diversão. Mas ele estava cansado daquilo: da insanidade, do trânsito, dos problemas econômicos, as guerras mundiais, a fome, a humanidade como um todo. Por mais que pensasse, não sabia para onde correr. Essa era mais uma noite com os amigos em casa. Falavam de viagens, mulheres, futebol, mulheres, dinheiro, mulheres, da qualidade dessa ou daquela cerveja. Entre cervejas e certezas, Teo estava mais uma vez se sentindo deprimido. Chegou a ganhar peso por causa da ansiedade, embora as olheiras declarassem que a vida não estava ganha por conta de um pouco a mais de comida no prato. Ele ouvia a conversa sem se envolver; sua casa era apenas o ponto de encontro. Teo estava ali, quase em coma, apenas rindo algumas vezes. Pensava em todas as mulheres que o desejavam, mas com quem ele não se relacionava, por medo de perder de vez a filha; pensava também em todas as humilhações que passara no último trabalho e desesperava-se em dormir com o desemprego há um mês. Mataria, se fosse preciso, desde que isso garantisse que sua filha não ficasse na mão daqueles conservadores metidos à besta. De repente, teve uma ideia melhor: morreria. Seria um suicídio social, apenas para confirmar o que o resto do mundo pensa sobre qualquer ser humano comum: que somos todos cadáveres. Teo se mataria, não física, mas legalmente; só não pensava em suicídio moral, porque sua moralidade se fora há muito tempo. Enquanto a conversa continuava, um sorriso o iluminava por dentro. Desde o nascimento de sua filha, não se sentia tão esperançoso e feliz. Enfim, estava certo de alguma coisa na vida. Primeiro, deveria sair do estado. Não, melhor seria sair do país. Iria para algum país vizinho, se adaptaria à língua e aos costumes. Era uma questão de tempo. Faria o caminho contrário do comum: fugia pra se libertar da obrigatoriedade de ter um emprego ou uma casa própria e um carro zero. Dormiria em qualquer lugar, trabalharia apenas para comer. Só voltaria para mostrar a sua filha que os mortos podem mais do que os vivos, por já conhecerem o segredo da vida. Precisaria também de documentos falsos. Isso seria fácil de conseguir. Mas faria tudo da forma mais limpa possível, pois seu único crime nesse jogo todo seria continuar vivo, afinal. Téo admirava as próprias mãos quando percebeu um clarão na casa da frente, que parecia ser do quarto de sua filha. – Galera, vamos falar mais baixo, vocês acordaram a pequena. – Ah, Teo, acho que já está na hora de irmos embora. – Tá. Ele levou os amigos até o portão. Despediu-se de um por um com um abraço quente, apesar de já pensar em si mesmo como um defunto congelado. Depois que eles viraram as costas, Teo fechou as portas do cárcere: amanhã ele as abriria para o céu ou para o inferno.

(Janeiro/2011)

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