A história dela

Minha mãe numa rede segurando um Julian bebê e muito feliz

Neuza nasceu um Marília, São Paulo, em 1945 e foi para Junqueirópolis aos doze anos. Acordava às 4 da manhã, colocava a marmita num saco, subia no caminhão e ia trabalhar de boia-fria.

Anos depois, o pai dela, Seu Manoel, conseguiu trabalho com um homem que queria uma plantação de café: a família teria que fazer uma lavoura e, até essa estar pronta, tudo o que fosse plantado naquela terra, seria deles. Era uma chance de enriquecer. No entanto, as coisas eram difíceis: havia um “atravessador”, um homem que comprava tudo o que as pessoas da região produziam por um preço baixo e depois vendia as mesmas mercadorias na cidade, por um preço maior. Ele dominava os sítios. Para se chegar à cidade, só havia uma estrada, protegida por correntes, cadeados e capangas armador. E o atravessador dava fim a qualquer um que tentasse mudar aquele sistema. Então o pai dela disse:

– Ou ele acaba comigo ou eu acabo com ele.

Um primo advogado, que ninguém sabe de onde surgiu, foi até a casinha deles com uma máquina de escrever. As crianças ficavam em volta. Escreveram sobre o sistema de lucros do atravessador e mandaram a denúncia para Brasília. Juscelino era o presidente na época.

Dois meses depois, oficiais de justiça chegaram, procurando pelo pai de Neuza. Eles foram verificar as denúncias feitas, ameaçando prendê-lo caso fossem mentira. Depois de tudo provado, as correntes foram arrancadas, a festa do povo foi grande e o atravessador não teve coragem de matar Seu Manoel.

Plantavam arroz, feijão, algodão, milho e amendoim para vender. Além disso, tinham uma horta, uma plantação de frutas e uma pequena criação de animais.

Depois de alguns anos, Neuza foi com os pais e seus 14 irmãos para São Bernardo do Campo. Ninguém tinha emprego e carregavam as roupas em trouxas. Alugaram uma grande casa, compraram colchões, panelas, fogão e um botijão de gás. Era tudo o que tinham para viver.

Neuza conseguiu emprego como empregada doméstica na casa de um casal que morava em Santos. Eles eram bastante ricos e tratavam os empregados com todo o desprezo do mundo. Neuza, com dezoito anos na época, dormia num quartinho que servia de depósito para o casal. Não havia banheiro para que ela pudesse usar e sua alimentação vinha dos restos das refeições do casal. A patroa a chamava de porca, pobre; olhava cada detalhe das roupas para ver se estavam realmente limpas e humilhava Neuza em cada oportunidade.

Aos finais de semana, o casal costumava viajar e Neuza ficava sozinha em seu quartinho. Certa vez, ela foi convidada pela manicure de sua patroa para sair pela cidade. A menina foi com a manicure para o porto, sem nada entender. Chegando lá, vendo todos aqueles homens mexendo com ela, Neuza começou a chorar e pedir para voltar para casa. Percebendo que perderia os programas naquela noite, a manicure concordou em levar Neuza embora, xingando-a pelo caminho:

– Sua burra, vai ser capacho dos outros para sempre. Não sabe aproveitar as oportunidades da vida.

A família de Neuza sabia que a situação estava ruim, porém não imaginavam o real sofrimento da moça. Ela não podia voltar para São Bernardo, pois seus irmãos e irmãs menores não trabalhavam.

Depois de dois meses, Seu Manoel conseguiu um emprego num posto de gasolina, e Neuza voltou para casa. As coisas, porém, estavam complicadas. O dinheiro mal dava para o aluguel. A família foi, então, morar numa casa abandonada na região. Antes de sua chegada, a casa servia de quarto para os cachorros de rua da cidade e estava infestada de pulgas. Por mais que a mãe de Neuza passasse veneno e limpasse, as quinze crianças viviam cheias de marcas e mal dormiam. Foi então que se mudaram para Osasco.

A nova moradia não era tão grande, mas acomodava a todos. Neuza voltou a trabalhar como empregada numa casa perto dali, para onde ia caminhando todos os dias. De seu portão, ela via um moço da casa da frente, que despertou seu interesse. Seu pai, contudo, não permitia que os dois namorassem, e eles conversavam à noite, rapidamente.

Num carnaval, Adelson, o namoradinho, convidou Neuza para fugir. Ela colocou umas poucas peças de roupa numa sacola e os dois pegaram o trem para Assis. Foram 12 horas de viagem num trem cheio. Chegaram em Echaporã, na casa de uma tia de Adelson. Ele mentiu, dizendo que os dois tinham se casado, e sua tia acreditou, arrumarando um quarto para os dois ficarem a sós.

Quando voltaram, Seu Manoel os obrigou a casar, porém, como eram menores de 21 anos, não podiam. O casamento foi adiado para maio de 1964, mas Neuza e Adelson já moravam juntos antes disso. Dormiam na sala da casa da família dele.

Neuza só começou a trabalhar oito meses depois do casamento. Estava anêmica e teve uma gravidez tubária, quase morreu. Trabalhava num hospital em Osasco mesmo, com sua irmã mais velha e ajudava a família como podia. Conseguiu, depois de um tempo, comprar um apartamento. E aos 44 anos, na última tentativa, teve um bebê.

Hoje, Neuza e Adelson moram em Juquitiba com seus dois cachorros e um gato. E com grandes sorrisos em seus rostos.

Se alguém tivesse tirado uma foto, poderia ter dado uma história bonita.” – N.

(Março/2011)

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