Nós, monstros

Imagem de Always Sometimes Monsters, em que os avatares estão num quintal com piscina

Sim, monstros existem. Ao contrário da famosa franquia de filmes, não trabalhamos para assustar crianças nem temos aquelas aparências. Parecemos… você. Quanto mais rápido você aceitar esse fato, melhor.

E vamos logo acabar com alguns mitos: não somos maus, não botamos medo em ninguém. Na verdade, é bem provável que você nos considere legais pra caramba! (Não “legal” no sentido de descolado, tá? “Legal” como a dona da mercearia que te dá um desconto ou como a pessoa que segura sua mochila no ônibus.)

Também não faremos algo horroroso pra você apontar e dizer “Nossa, que monstro!”, com um tom de voz transbordando de certeza e moralidade. Discrição é a chave para a monstruosidade. Nossos piores atos acontecem no cotidiano, enquanto misturamos achocolatado e leite (leite de aveia, no meu caso, porque sou um monstro vegano). Ou quando estamos encarando o relógio nos últimos minutos de expediente da sexta-feira. Ou quando menos esperamos.

Sabe, toda vez que você chama seu chefe ou seu professor de monstro, sentimos um arrepio esquisito pelo corpo. Você já sentiu isso, do nada? Então, esse arrepio é um sinal de que uma atividade monstruosa foi identificada e que precisamos disfarçar melhor. Bem, mas eu não sou seu chefe nem seu professor, está tudo certo. Agora, se você desempenha esses papeis e sente um vento da nuca de vez em quando, é melhor começar a se preocupar com o que anda fazendo.

Já deu pra perceber que estamos em todos os lugares, né? Somos de várias idades, gêneros, etnias, raças, classes sociais. Basicamente, o número de monstros existentes é igual ao número de habitantes da Terra. Esse fato, no entanto, não te dá o direito de nos culpar por tudo que sai errado nesse simpático planeta. A humanidade pode cometer falhas justamente quando acredita estar fazendo algo bom. É aí que nós, monstros, surgimos.

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Semanas atrás, virei duas noites jogando Always Sometimes Monsters. Durante 30 dias in-game, fiz as opções que considerei mais justas (ok, exceto quando isso significou sabotar os freios de um carro) e guiei minha personagem para o triunfante final feliz… que não aconteceu. Terminei o jogo sem amor, sem dinheiro e sem moral.

Por melhor que fossem as minhas intenções, as escolhas que fiz foram bastante egoístas. Ajudar amigas, salvar vidas, combater preconceitos veio com mentir, roubar, chantagear, fraudar eleição, deixar que pessoas morressem – tudo pela reconquista do grande amor. Só percebi o tortuoso caminho que tomei quando esse histórico foi atirado na cara da minha personagem.

Foi aí que parei para pensar nas decisões da vida real. Sem querer soar pessimista, mas: não existem alternativas corretas. Em algum momento, sempre somos um monstro (para alguém que amamos, para nós mesmos). O melhor a se fazer é tentar diminuir os danos. Não cair em tretas no Facebook é um excelente começo, vai por mim.

Superada minha breve brisa existencial, fica a recomendação. O jogo é bem bonito e divertidíssimo. E é possível zerar com um final feliz, não se preocupem.

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Foto: Página do ASM no Steam.

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