Nossa história

Mesa com caneta, relógio, uma xícara e uma colher. Em destaque, um livro de capa vere=melha, com os dizeres "Be brave, Be bold, Be beautiful, Be you" em preto. Um lápis preto sobre o livro.

Quando nos encontramos, as primeiras palavras eram desconhecidas. Mas o texto flui, e precisávamos descobrir como.

Caminhamos – linha por linha – página por página – e nos divertimos. Não sabemos o final. Existe um final?

Às vezes, precisamos de uma vírgula ou outra para evitar um ponto final. Olhamos para trás, procuramos por um trecho da história que não entendemos. Ou por aquela página em branco que pulamos da primeira vez.

Não sabemos o que vem depois. O vilão desmascarado ou o assassino improvável. Um pacote de personagens e situações a serem desvendados. E nós, enquanto escrevemos, criamos nomes, palavras, damos vida aos seres. Fadas e ogros e dragões. Robôs. Uma pessoa humana legal, quem sabe?

Você & eu. Nós temos o poder de escrever nossa(s) história(s).

Sou o que sobra

O lado dela está vazio. Antes de conhecê-la, gostava de me esparramar pelo meio da cama. Não sei que horas são, só sei que é madrugada. Faz anos que não tenho rádio-relógio, presente de casamento. Não quero pegar o celular. Tenho medo de receber um whats ou uma notificação dela, ou de algum amigo em comum, e então saber, de vez, que tudo acabou. Perdi o emprego, perdi o cachorro – o Sansão –, perdi o amor da minha vida e, nisso tudo, me perdi também. É, meu pai tinha razão: nunca conseguiria manter nada nessa vida.

Levantei meio tonto de solidão e fui até a cozinha, em busca de qualquer coisa que enchesse o estômago e trouxesse distração. Os pés descalços pareciam estranhar o vazio do apartamento e me arrastavam sem confiança. Há quanto eu fiz daquele espaço meu lar? Já não importa, tenho que aprender tudo do zero mais uma vez.

Na geladeira, alguma coisa cheirava tão mal quanto meu ânimo. Ela tinha partido algumas horas atrás e eu já contagiava a casa com meu azedume de azar. Nem sei se posso chamar assim ou se é muita pretensão. Abandonei os planos de comer e me contentei com um copo d’água. A intenção de me distrair não funcionou como eu esperava, então o melhor a fazer era voltar pra cama antes que eu estragasse mais alguma coisa. Será que o dia 13 do meu nascimento fora uma sexta-feira?

Na volta, ainda na cozinha, senti que pisava em algo estranho. Um misto de raiva e nojo me tomou, embora eu soubesse que se a barata não tivesse morrido sob meus pés, ela teria se envenenado com a minha comida. Pedi um perdão silencioso e retomei o caminho. Mais um passo e uma dor maligna subia pela minha perna direita. Algum brinquedo do Sansão que ficou pra trás, imaginei.

Pulei para tentar alcançar o interruptor, torcendo para não escorregar com os restos de barata grudados no meu pé. Senti algo me cortar e chutei o que deveria ser uma pedra, até conseguir acender a luz.

Por todo o corredor, pedaços de mim estavam espalhados, formando um macabro resumo da minha vida. A pedra era, na verdade, o sonho infantil de ser um astronauta. Ao lado, estava a folha em que cortei: o comprovante de trancamento de matrícula da graduação; escolha que tomei mais por desgosto do que por qualquer desculpa decente que inventei para mim mesmo na época.

Não precisei me esforçar muito para descobrir que nenhum brinquedo de cachorro foi esquecido. Era ela, saída do chão como numa ponta, um prego abandonado. Acreditei que bastava esse tal de amor para construir nossa vida de todas as maneiras que encontrássemos, mas nosso casamento enferrujou e ela se foi, antes de ser tomada pelo tétano.

Larguei o que restava de mim no chão sujo, enquanto as feridas abertas do passado me obrigavam a encarar sua existência. Tenho medo de chorar, por não saber que formas e dores as lágrimas terão. Eu não sei quem sou, mas prefiro me agarrar à dúvida a perder todas as chances.

Na cozinha, fora do meu campo de visão, jaz o corpo de um homem que, um dia, acordara transformado num inseto. Eu o matei por acidente, o último acidente da minha vida.

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Texto para a Oficina Colaborativa do Mundo Estranho, do Eric Novello.

Cócegas

O sorriso do jornaleiro não é igual ao que ele me ofereceu pela manhã, porque agora ele sabe. No fundo, o bairro todo sabe. Meu jeito de segurar a bolsa, meus passos rápidos, o suor que faz as chaves fugirem pro chão.

Percorro o conhecido caminho dos santos juízes. Sou declarada culpada assim que ele saí das sombras e toca meu braço. Assustada, olho para uma janela e vejo a vizinha curiosa me dirigir um olhar de reprovação e fechar as cortinas. Sobram as luzes azuladas das televisões e ele. E sobra você.

Mas isso não é sobre você.

Fecho os olhos para dormir e sou atormentada pela imagem da vizinha. Ela sabe como serão todos os meus sonhos a partir desta tarde. Mesmo que você não passe de um monte de nada sem forma, eu sei que carrega o rosto dele. É somente a ele que você pertence.

Ando apressada pela noite porque assim me ensinaram que deveria fazer. Nunca a temi, para dizer a verdade. Aposto que se você tivesse qualquer coisa minha, também veria na noite uma amiga agradável e acolhedora. Até que ele chegou e nos obrigou a sermos uma só carne. Foi assim que você tornou-se dele, única e exclusivamente, e eu passei a chegar em casa mais cedo. Mudei o horário de trabalho, mudei meu caminho, minha vida toda mudou.

Você entende que eu não poderia continuar, não? Mal posso cuidar de mim mesma. Se você continuasse comigo, as coisas ficariam mais e mais complicadas. Pode me chamar de covarde ou criminosa, eu não me importo. Tive de me livrar de você, antes de te ver, para não ter que vê-lo de novo. Só a ideia de ter o rosto dele nas minhas entranhas me machuca.

Troquei algumas horas de hoje para anular os minutos daquela noite. Deixei de viver por alguns momentos, pendurada a um cabide de sangue, para evitar que você visse a luz do sol. E te deixei pra trás assim que minhas pernas voltaram a me obedecer.

Chego em casa, recupero as chaves caídas, encaro a porta. E se a polícia estiver me esperando aí dentro? Algo me diz que a vizinha me denunciou. Basta o jornaleiro para apontar o caminho de onde moro. Todo mundo aqui me conhece e sabe que vivo sozinha, que respeito as leis e que não sirvo nem para ser assunto. Tenho vários pecados e apenas um crime – o confesso sem dizer uma só palavra.

Vou te esquecer assim como tento esquecê-lo. Entro em casa sem sua companhia, da mesma maneira que saí. Você nunca existiu e ninguém jamais saberá de você. Largo a bolsa no sofá e sorrio satisfeita pelo peso de que me livrei. Você era um monte de nada que pesava tanto quanto o corpo dele sobre o meu. A dor de te sangrar e te deixar morrer me fez cócegas, como se uma pena fosse esfregada na minha barriga.

Quanto ao sei pai, nada sei dele. Voltou para as sombras de onde surgiu e quase nada me lembro do rosto dele. Só sei que era idêntico ao seu.

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Texto para a Oficina Colaborativa do Estranho Mundo, do Eric Novello.

Mudei de assunto e salvei meu cachorro

Poucos dias são tão agradáveis quanto aquele. O sol coloria a grama de dourado, então o chão parecia feito de ouro dançante – o tipo de coisa que só acontece quando se mora num sítio. Eu não sei qual era a celebração, mas lembro de correr e brincar durante boa parte da manhã.

Ela veio para o almoço. A Pequena N., sempre cheia de recursos para se destacar. Os cabelos arrumados, tão claros que machucavam os olhos, caíam em cachos definidos sobre a camisa branca. A calça jeans e os sapatos eram novos, uma péssima escolha para quem passaria a tarde no meio do mato.

Toda a pompa da Pequena N. me deixou apreensivo. Tudo era tão falso nela – seu sorriso, seu jeito de caminhar, seu interesse em mim – que ela parecia fora do lugar, como os efeitos especiais de Chaves. Pra piorar, ela me deu um presente, uma pequena bolsinha de papel com um duende de plástico dentro. Assim que eu agradeci, uma das pernas do duende se soltou.

Comemos, conversamos, caminhamos. Durante todo o tempo, a Pequena N. se desmanchava em elogios para mim. Vai ver, ela era legal e tudo não passava de desconfiança boba, certo? Nem toda história precisa de uma vilã, afinal. Acho que quando estou de estômago cheio, as pessoas parecem menos desagradáveis.

Foi apenas no dia seguinte que notamos: Juninho, nosso cachorro, não estava comendo. Nem as sobras do churrasco que meu pai oferecia eram capazes de animá-lo. Com dificuldade, ele engolia a água que minha forçava com uma seringa. Não havia fratura, não encontramos ferimentos, nenhum pingo de sangue pelo chão. Picada de cobra? Gastrite (cachorro tem gastrite?)?

Juninho, um cachorro branco de orelhas marrons, deitado ao sol.

“Meu melhor amigo canino está morrendo”, eu pensei. Me senti horrível, assustado, um pequeno grande inútil. Nenhuma criança deveria ver seu cachorro ser carregado, mole e fraco, por não conseguir andar nem para salvar a própria vida – no caso, o Juninho estava na garagem, encolhido BEM na frente de uns dos pneus do carro.

Por alguma razão, eu liguei o repentino mal estar do cachorro às palavras carinhosas que a Pequena N. gastou comigo. As duas situações pareciam Photoshop Disasters da minha vida, um jogo dos sete erros descarado. Pensei em ligar para a Pequena N. e dizer que sabia de tudo (“descobri que você é uma bruxa maligna e que enfeitiçou meu cão”), só que essa não era uma ideia muito efetiva. Salvar meu amigo era mais importante do que condenar a malvada.

Foi aí que eu fiz o que precisava ser feito: engoli a dor e o medo, me aconcheguei ao lado do Juninho e contei uma piada. Uma vez que piada não é o meu forte, mudei para histórias engraçadas da minha vida, coisas que me divertiam, toda e qualquer lembrança minimamente prazerosa. Enquanto fiquei ali, entendi que nada é mais difícil do que fabricar um sorriso quando toda a matéria-prima é de lágrimas. Mas eu tinha que fazer. Por ele.

A conversa terminou tarde. Mantive o sorriso na marra, até a hora de dormir. Eu sabia que chorar significaria assumir a derrota. Aquela poderia ter sido nossa última noite de papo, então eu mudei de assunto e fiz com que fosse um dos nossos melhores momentos.

No outro dia, bem cedinho, acordei pra ir pra escola. Meus pais observavam Juninho comer, beber, andar até o pequeno pedaço de gramado já alcançado pela luz do sol. Vencemos a Pequena N., e ela nunca mais nos visitou.

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O texto foi publicado anteriormente na minha newsletter, a Pequena Bagunça. É só clicar e assinar😉

TAG: 10 perguntas literárias

O louco das TAGs voltou! Vi lá no blog da M.M Drack.

parte superior de vários livros enfileirados

1. Qual a capa mais bonita da sua estante?

Rani e o Sino da Divisão, do Jim Anotsu. É roxa, meio macabra e roxa roxa roxa.

2. Se pudesse trazer 1 personagem para a realidade, qual seria?

Lisbeth Salander, da série Millenium.

3. Se pudesse entrevistar um autor(a), qual seria?
 O Neil Gaiman, eu acho.
4. Um livro que não lerá de novo? Por quê?
Vários que li na graduação. O Romantismo brasileiro, basicamente.
5. Um história confusa?
Cyberstorm, de Matthew Matter. Foi difícil terminar, me arrependo de ter começado.
6. Um casal?
Jenks e Lovey, de The Long Way to a Small Angry Planet (Becky Chambers). Que fofura.
7. Dois vilões. (Pode ser tanto 2 vilões que goste, como 2 vilões que não goste).
A Capeta, de Lizzie Bordello (Germana Viana) e o Mulo, da série Fundação (Isaac Asimov). Eu me diverti muito com ambos.
8. Uma personagem que você mataria (ou tiraria do livro)?
Eu tenho sérios problemas com o Peeta Mellark, de Jogos Vorazes (Suzanne Collins). Ele é chato, grudento, um porre.
9. Se pudesse viver num livro, qual seria?
Neuromancer, do Willian Gibson. Nada muito pior do que nosso cotidiano, eu imagino. O lado otimista escolhe The Long Way to a Small Angry Planet.
10. Qual o seu maior livro e o menor? (Em termos de páginas).
O maior deve ser Musashi, de Eiji Yoshikawa. Morro de vontade de reler, só falta a coragem de encarar 2709 páginas (soma dos dois volumes). O menor é Nós Somos Todos Iguais?, de adolescentes abrigados na Casa das Expedições.

Hoje é um daqueles dias.

Eu sentia que aconteceria, consegui perceber. Só não consegui evitar. Foi uma noite difícil e, quando acordei, o sol já estava alto. Era mais cedo do que eu imaginava, no entanto, o contentamento foi breve. Algo na minha cabeça teimava em reclamar e mostrar erros, culpas. A angústia dominava e eu permanecia na cama, analisando o que aconteceria se eu não saísse dali.

Por isso, escrevo. Porque disse que voltaria a escrever, quando nem sei mais a senha do blog. Disse que colocaria no papel tudo que me afetasse, quando morro devagar, olhando para o nada; prometi não acumular tarefas para não sentir qualquer pressão, mas não sei por onde começar e acabo fazendo nada.

Escrever sobre isso já é alguma coisa, aparentemente.

[15/01/15]

Algumas ideias para ajudar sobreviventes de agressão*

O texto a seguir foi traduzido e adaptado para o uso de um coletivo feminista interseccional. As zines originais podem ser compradas aqui.

*Usamos sobreviventes por entender que situações de assédio colocam vidas em risco e buscar ajuda é uma maneira de enfrentar e SOBREviver. Por agressão, reconhecemos suas diversas formas: física, emocional, psicológica, moral, financeira, sexual.

Mulher de costas, olhando para o mar.

Se você quer ajudar uma pessoa sobrevivente de violência, saiba que não há uma maneira única de agir… apenas seja você mesmo. O processo de recuperação não segue um “programa de doze passos”. Esses processos são únicos como para cada indivíduo, porque estão inseridos num contexto também único de vivências.

A seguir, apresentamos algumas ações que esperamos que as pessoas fizessem (ou não!) para serem solidárias nos estágios iniciais dos processos de recuperação após agressões. Estamos falando sobre nossas experiências e necessidades pessoais, e não afirmando que toda sobrevivente vai desejar as mesmas coisas.

Provenha um espaço seguro para eu conversar sobre a agressão sem pressa nem distrações.

Quando eu falar sobre a agressão, acredite em mim! Não ser acreditada – especialmente quando a agressão foi cometida por alguém conhecido – é um dos maiores medos das sobreviventes.

Deixe-me expressar todo meu pacote de emoções sobre a agressão: raiva, tristeza, medo etc. Escute em silêncio, não interrompa, não grite ou não interponha seus sentimentos – deixe-me ter o espaço para contar a história.

Deixe-me usar os termos que considerar mais apropriados para descrever a agressão, por exemplo, deixe-me usar “estupro” para explicar a gravidade do assédio mesmo que não tenha acontecido “penetração vaginal”.

Deixe que eu defina o que na agressão foi mais doloroso; Não pressuponha que um aspecto foi “pior” do que outro. Isso inclui não dizer coisas como “Isso é horrível!” quando eu disser o que aconteceu especificamente. O que você considerar que     foi horrível pode não ter sido grande coisa pra mim. Ou algo que você achar que “não foi tudo isso” pode ter sido o que mais me     feriu. Deixe que eu decida isso.

Não diminua o assédio. Deixe-me definir o que aconteceu com minhas próprias palavras.

Seja paciente. Não me peça para dar detalhes que não me sinto confortável em dizer.

Mantenha a culpa com quem ela pertence: o agressor. Não pergunte coisas do tipo “Por que você estava lá/naquela situação?” ou “Você estava bebendo?” ou “Você não sabia que era perigoso?”. Esse tipo de pergunta implica que eu, de alguma forma, fui responsável pela agressão. Além disso, por que eu estava onde estava não é a questão.

Não subjugue meus sentimentos de medo, mas considere situações que sejam assustadoras – voltar para casa por um lugar escuro, voltar ao lugar da agressão por um motivo qualquer. Ofereça sua companhia porque eu gostaria disso, não porque vai me proteger.

Foque em coisas positivas. Ajude-me a perceber tudo o que fiz para permanecer em segurança, e tudo o que fiz para sair/terminar a agressão ao invés de se focar no que o agressor fez para mim. Pergunte do que preciso – companhia, segurança, boas refeições etc.

Deixe-me saber que tenho sua ajuda contínua e ativa. Se você quer ajudar, saiba que posso te procurar no futuro pelo seu apoio. Sabendo disso, crie um ambiente onde eu possa falar do assunto se eu quiser. Por exemplo, uma lanchonete tranquila é mais adequada do que uma festa ou um show.

Permita que eu tenha todo o tempo para ficar bem – não me apresse. A melhora vem em ciclos, então posso me sentir bem por um tempo e depois me sentir não muito bem depois. Aceite essa variação e não pense que eu “já” deveria ter superado.

Consinta que eu fique só se precisar.

Trabalhe no que possa trazer melhoras. Foque em qualquer coisa que vá me fazer sentir melhor. Ofereça sua ajuda para trazer alívio. Existem diversos modos de fazer isso: aconselhar a deixar um trampo que é estressante e perigoso, procurar vias legais etc.

Ofereça me ajudar a encontrar recursos que irão me auxiliar a lidar com o assédio, como grupos de apoio, livros, sites ou outros recursos de informação, aulas de auto defesa etc.. Contudo, por favor, deixe que eu escolher quais recursos usarei (ou seja, não me diga o que fazer).

Ofereça seu auxílio se e quando eu quiser confrontar o agressor, mas não comece isso!

Não enfrente o agressor sem minha permissão!

Não comente o que eu disse sem minha permissão. Por favor, respeite minha privacidade, a menos que você esteja pedindo conselhos sobre como minha história te afetou ou para ter recomendações de como ajudar.

Permita que eu comece o contato físico por um tempo. Não assuma que contato físico, abraços etc., serão reconfortantes. Pode ser que eu prefira evitar sexo ou qualquer toque, mesmo de quem eu conheço e amo.

Entenda bem minhas dicas não-verbais. Se você me sentir distante, me deixe descobrir o que estou sentindo/o que quero.

Seja paciente. Ser paciente se aplica a diversas situações e interações. Peça explicação se não entender minhas atitudes.

Somos todos… ?

Enquanto andava, a dor nas costas o consumia. Ele sentia que carregava o peso de todas as estrelas.

De grande que era, chamava a atenção. Ninguém desviava os olhos quando ele chegava ou passava, onde quer que fosse. Logo, os cochichos surgiam, os risos, os dedos incriminatórios.

Ele se olhava, quase sem se mover. Procurava o que poderia estar errado. Não encontrava. Era sempre a visão dos outros.

No ônibus, apesar de adorar os lugares altos, procurava um assento no fundo para não ser notado. Contudo, antes do primeiro farol, alguém o via e o culpava de ter fechado as janelas ou ter causado o trânsito. Envergonhado, tentava se esconder atrás do celular, mas as vozes cresciam e entravam até na rede. Amanhã, escolheria o trem – cheio – ou o carro – mais trânsito – ou a bicicleta – é lazer, não para transporte.

Arrependeu-se da ideia de ficar em casa, antes mesmo de seu surgimento.

As coisas não estavam boas no trabalho também. A dor na coluna era, em parte, culpa da cadeira que usava. Poderia gastar com academia? Melhor não arriscar. Havia uma crise no país e, segundo diziam especialistas e populares, ele era o responsável. Concentrou-se nas tarefas do dia.

Voltava a pé para casa, depois de o sol ter se despedido. Mal podia ver onde pisava. Em uma ou duas ocasiões, tropeçou e praguejou. A cada passo que dava, mancando e irritado, buzinadas surgiam para lembrá-lo quem era o culpado. De nada adiantava reclamar, ele nunca seria esquecido.

Pensou em mudar, se refazer por completo. Enxugou o suor que escorria pelas costas, limpou suas pegadas, planejou uma revolução. Por um breve período, deu certo. Ganhou adeptos, mas acumulou inimigos. Logo, já não os reconhecia. Aliás, não podia nem dizer se reconhecia a si mesmo, tantas foram suas mudanças, influências e contradições.

O único fato imutável era que os comentários não findavam. Na verdade, pareciam até mais raivosos.

Em desespero, deu um soco no espelho para evitar ver a imagem dos problemas. O resultado foi seu rosto, o retrato do erro, multiplicado e ainda o encarando. O povo não pode fingir não ser o povo.

Beijos no Chão

Capa de Beijos no Chão, de Dani Costa Russo

Na história da Cinderela, quando o Príncipe descobre que ela é a dona do sapatinho de cristal, caminhamos para o final feliz. Há um casamento e o tão conhecido “viveram felizes para sempre”, um resumão da suposta harmonia conjugal.Em Beijos no Chão, romance de estreia de Dani Costa Russo, a protagonista não tem nome, mas sua história poderia ser a continuação de Cinderela. Uma jovem estudante de jornalismo é surpreendida pela paixão de um homem rico e solitário. O relacionamento segue sem grandes pretensões por parte dela, até que uma gravidez inesperada leva ao casamento. Mas o conto de fadas não se confirma.

Desde o início do livro, a violência doméstica está explícita. Ou melhor, as violências: agressões físicas, verbais, psicológicas, morais. A protagonista cria rituais para se defender, nem sempre com sucesso. A brutalidade cíclica, marca de relacionamentos abusivos, aprisiona a vítima ao seu carrasco.

A narrativa não segue uma cronologia linear, o que deixa tudo mais perturbador. Alguns episódios de violência chegam a acontecer em público, sem que as testemunhas impeçam. O ditado “em briga de marido e mulher, não se mete a colher”, além dos privilégios na amizade com o agressor, cria cúmplices apáticos. Importante ressaltar que o feminicídio e a violência doméstica são, muitas vezes, diminuídos e disfarçados, como documenta Amelinha Teles em seu livro Breve História do feminismo no Brasil:

“No Brasil, fazia-se crer que somente os homens negros e pobres espancavam as mulheres, devido ao alcoolismo ou à extrema pobreza.”

Eu me incomodei um pouco com a estrutura dos diálogos e pensamentos das personagens. Por mais que o livro retrate uma classe média alta, alguns trechos ficaram pouco naturais ou muito quebrados por verbos declarativos. ou eu sou chato pra caramba pra reparar nesse tipo de coisa

Retângulo roxo com espirais em preto e a pergunta "Por que ler?"

As palavras têm poder, e Beijos no Chão é uma ótima amostra disso. Desde que conheci a Dani, no Clube de Escrita mediado pela Jarid Arraes (outra autora incrível), me encantei pela sua escrita – e pela pessoa alegre e articulada também. Seus textos para a oficina sempre me passaram o sentimento de ler um clássico, e seu livro me causa a mesma sensação. É uma voz literária marcante e agradável.

Embora o tema não seja fácil, a violência na história não é banalizada; tudo é trabalhado com cuidado e respeito. De qualquer forma, é válido avisar que a leitura pode despertar gatilhos (eu mesmo tive mal estar).

Beijos no Chão é uma publicação independente, resultado do esforço coletivo de uma galera muito firmeza que acreditou na Dani e na importância da obra. Leia mulheres para que mais mulheres escrevam e protagonizem histórias.

Mulher ajoelhada arrumando as franjas de um tapete

Site da autora
Página do Facebook
Ligue 180 – Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres

Para sempre

Sempre ouço sua voz nas noites difíceis. Com atenção, posso até sentir seus dedos nos meus cabelos, cachos formados e desfeitos por suas mãos. Exatamente como você fazia quando queria me acalmar e me fazer acreditar que toda tempestade era passageira.

…Aquela não foi…

Uma noite como todas as outras. Cada passo seu soava como tempos de paz. Eu me deixei levar por sua certeza, todos nós o fizemos. Até que os sons lá de fora ficaram tão altos que seu sorriso não foi capaz de abafá-los.

Eu pisquei e se fez o silêncio. Como desejei aquele silêncio. Mas eu nunca mais ouvi seu riso, nem quando você me visita e me acalenta. Após uma fração de segundo, ou qualquer outro tempo curto demais para que eu pudesse te alcançar, nossos mundos se desalinharam para sempre. Porque é para sempre, enquanto eu viver, que me lembrarei do seu corpo caído, banhado em sangue.

Seu semblante manteve a candura e a força que te definiam, e é assim que você me visita. É assim que me lembro de você quando ouço a sua voz.