Tenha coragem

pés soltos de alguém sentado no alto de um prédio

Cheguei ao trabalho com o cabelo pintado – nada de muito diferente, um ruivo desbotado – e ganhei um bilhetinho de uma colega: “Eu faria isso se tivesse coragem.” Foi a mesma coisa quando deixei bem curtinho, pintei de cores extravagantes, raspei… Cabelo cresce, e amanhã será outro dia.

O bilhete é algo recente, porém nada inédito. Em outras ocasiões, eu já ouvi que pessoas dizerem que tomariam determinadas atitudes se tivessem “coragem”: deixar de comer carne, largar um emprego público, abrir o relacionamento, sair da casa dos pais e morar em outra cidade. São decisões que tomei e que me contemplam, mas não são modelos de uma vida mais interessante.

Sinto-me muito estranho quando alguém me parabeniza por essa suposta bravura. Eu sou confuso, medroso e do tipo que tem insônia por lembrar de um vacilo que dei em 1996. A diferença é que algumas das minhas escolhas são incomuns, por assim dizer. Recebo muito mais olhares de desaprovação ou repulsa do que tapinhas nas costas amigáveis.

Longe de ser um exemplo de autenticidade, eu deixo migalhas de pão pelo caminho pra saber como voltar. Acredito que uma pessoa corajosa mesmo não faça isso. Contudo, eu tenho é medo de uma vida baseada no futuro do pretérito, daquele assombroso arrepender de não ter feito. Por acreditar que só se vive uma vez, a melhor hora é agora.

Então, não vou dizer que todo mundo deveria ter um moicano verde limão. Cada pessoa tem suas vontades e conhece seus limites. Só me arrisco a sugerir que tenham coragem, ou mais coragem. Nem sempre a grama do vizinho é mais verde e não há nada de errado com uma grama desbotada.

Coisas que me fazem feliz (e não são coisas)

Vi lá no Momentum Saga , pra variar, não resisti!

Duas mulheres deitadas e sorridentes sobre o capô de um carro antigo

  • Escrever
  • Ler
  • Brincar com o Tomaz (o gato que me adotou)
  • Estar perto de pessoas queridas
  • Abraços!
  • Descobrir uma série ou filme bacana
  • Tomar banho com as luzes apagadas
  • Mudar os móveis de lugar e não saber andar pela casa depois
  • Comer
  • Cozinhar
  • Colorir (a casa, o cabelo)
  • Ouvir música
  • Ver/saber que uma pessoa amada conquistou algo
  • Reencontrar amigos
  • Ser (positivamente) surpreendido
  • Dormir sem interrupções
  • Ganhar colo
  • Quando elogiam algo que fiz
  • Criar teorias da conspiração com o Thiago
  • Sentir que posso confiar em alguém
  • Passar um nível complicado de um jogo
  • Desbloquear conquistas de um jogo
  • Inventar pratos com a minha mãe
  • Ser abordado por gatos na rua

Falar antes de gritar

Eu tateava o quarto escuro à procura da minha voz. Por vezes, minha mão esbarrava em chaves falsas e pesados potes vazios. Nada. Devo ter me cortado numa porção de momentos, sem chegar a sangrar.

Aos poucos, meus olhos se acostumaram e pude distinguir umas sombras. Vi as paredes e as janelas, mas não encontrei nenhuma porta. Uns fiapos de lua escapavam, provocando danças macabras com minha rotina. Nada que pudesse me ajudar a reconhecer os rostos nas fotografias que escrevi.

Rastejei para fora da cama, os joelhos preguiçosos demais para me sustentarem. Eu sabia que de nada adiantaria o pânico, já que gritar era impossível. Eu precisava encontrar minha voz. E ela estava perdida ali.

Em certa altura, pensei em um bom lugar para se guardar a voz. Não como uma lembrança, mais para a imaginação. Se eu não via o quarto com nitidez, poderia recriá-lo em minha cabeça até conhecer o melhor esconderijo.

Esconderijo! É isso.

O quarto estava escuro porque minha voz estava escondida, não só perdida. Continuei rastejando e dando cabeçadas em tudo o que bloqueava meu caminho sem que eu pudesse desviar. Estava, em especial, sem a certeza do acontecido: quem escondeu minha voz? Fui eu? Foi alguém com interesses em me calar? A própria voz teria entrado numa brincadeira de pique-esconde sem saber a saída?

Minhas mãos descobriram puxadores e eu abri gavetas. Algumas escaparam e me empurraram para trás; outras, emperradas, não cederam além da metade. Foi ali que me enfiei.

Senti coisas tão antigas, que se desfizeram instantaneamente. Outras eram pesadas, estavam trancadas e eu me arrependi de ter deixado as chaves do lado de fora. Precisei segurar a respiração para não me afogar no mofo e na poeira. Assim que as luzes se acendessem, eu faria uma faxina no lugar.

Devo ter procurado por muito tempo. Sequer percebi que já engatinhava e que sol ia alto. Demorei mais para tirar a noite dos olhos do que do quarto.

Há luz, há voz, pensei. Tentei falar, sem ainda emitir qualquer som. Escorei o corpo confuso e pousei as mãos cansadas no colo. Correu, morreu, fugiu, foi roubada. De certo, foi esmagada sob a velharia de medo e remorsos que acumulei ao longo dos anos e pifou.

Foi quando percebi um movimento no espelho. Era eu, mas não me reconheci. Acenei, mas não me vi.

O quarto parecia arrumado e eu conversava com meu reflexo, os dois lados confiantes. Estava ali o tempo todo.

horizontal

Se você quiser segurar minha mão
Para não temer enquanto caminhamos

Venha, segure

Eu não vou te puxar, eu não vou te empurrar
Eu não vou te forçar a nada
Você só precisa querer caminhar comigo

E o fazer

Não posso te obrigar a pensar como eu penso
A agir na mesma urgência

Posso apenas te convidar, como se fosse uma dança
Se você para, eu vou tropeço
Se você desiste, eu posso cair

Se você me soltar, tudo bem
Eu posso continuar

Repare na minha respiração bagunçada
Eu corri e ralei para estar aqui

Algumas ondas pareciam altas demais para mim
Eu continuei, mesmo assim
Tomei uns caldos, tive medo
Pensei em pegar carona em um barco
O barulho do motor não me deixava dormir

E, se eu caísse, poderia até me matar
A única ajuda que eu poderia ter
-e tive-
foi de quem nadava comigo
e se dispôs a me ensinar

Se você quiser, eu te ensino
Eu não vou te soltar

Só não garanto que possa te carregar

].[

Mesmo eu, que amo a liberdade,
[e não conheço outra forma de viver, não consigo entender, não aguentaria]
tenho minhas prisões.

Pode ser falta de coragem, eu disse. Talvez seja pior.

Quem sabe, daqui a dois ou três anos, o ponto de partida seja outro. Seja aquela pensão tosca de beira de praia. Seja o desconhecido esperando para ser mais lugar do rastro que farei.
[ou faremos]
[ou fará]

Só não consigo imaginar como será quando o cansaço surgir, a saudade bater. São essas as minhas prisões.

Mesmo livres, as pessoas precisam chegar e sair; por enquanto, sou apenas os pontos.

[novembro, 2010]

Em mim

Há fúria, há medo.

Minha alegria cresce ao lado do meu ódio e meus sonhos morrem de mãos dadas com a minha esperança.

Há algo em mim que grita sem cessar e que não sei exteriorizar. Criam-se demônios em mim; cria-se um eu-monstro que ataca, nega.

(me ataca e me nega)

Há muitos eus dentro de mim, impedindo que eu descubra tudo o que é possível. Quando eu descobrir quem sou de verdade, serei essa pessoa que escreve agora?

Não há respostas. Não há fim em mim.

[outubro, 2010]

 

aleatoriedades III

A cabeça voa, mas os pés estão no chão. Tudo roda, machuca. De dentro para fora e vice-versa.

A cabeça não produz como eu gostaria, e eu a iludo. São líquidos psicodélicos, o cálice da coragem. Nada é suficiente, contudo.

Eu me sinto ferido e sinto que [te] feri também.

Finjo enganar. Digo coisas ruins, que você escuta pacientemente. Você não se machuca com as minhas palavras, mas com a insistência delas.

Machuca ainda mais não saber curar as feridas que abri.

A ilha está sob meus pés. O chão é firme, é necessário.

E não tenho medo de descobrir o que a floresta me trará. Eu sei que não terei.

[abril, 2010]

(amor)

Há quem seja
o que tem
o que deseja
o que procura
e que jamais chega

Eu sou o que amo

Não o amor
pacifista
egoísta
expectador

Meu amor é
selvagem
oferecido
ativo

Não o amor
maduro
racional
cru

Meu amor é
inocente
exalado
apaixonado

Sou tudo
e tanto
e partes
de amores criativos

[agosto, 2009]